“Tempo feliz que passou, passou, tão cheio de recordações...” Lembrei-me da canção viniciana no momento em que se comemora o centenário de nascimento do ´poetinha das mulheres’, como rotularam Vinícius de Moraes. Visitava a Feira de Bicicletas Antigas no Castelinho da Rua XV. Raras preciosidades do início do século. Quase saindo, fui chamado por uma moça loira, bonita. Reconheci-a. Raquel Furtado, a doce poetisa. Rabiscava versos e afirmou de chofre: - És a pessoa indicada para me falar do Poço da Moça!

Disse estar compondo um poema sobre ele, incentivada por um guarda da exposição. Memória ativada, surgiram fragmentos de cenas vividas anos atrás (e ponham décadas nisso!). No primeiro instante, garantia-me a certeza do poço situar-se bem próximo ao Olímpico, na Alameda Rio Branco. A juventude naquela época desconhecia a televisão e os videogames e nem imaginava ser programada em tempo integral para prazeres informático-internáuticos. A natureza os atraía 24 horas por dia. Qualquer folga - um banho de rio. E o Poço da Moça era um dos pontos prediletos.
 
Verdade seja dita: vivia-se uma era em que os rios eram sinônimos de pureza (quase) total. No Garcia, desciam rumo ao Itajaí Açu jacintos, alfaces d´água e outras espécies de plantas. No Poço da Moça (uma lenda justifica o nome: uma jovem teria se afogado ali, mas até então eu não assinava embaixo), até um escorregadouro no barro vermelho a rapaziada providenciou.
 
Como tudo que é bom acaba, retificaram, em nome do prevenir ou amenizar enchentes, o ribeirão Garcia. Cortaram suas curvas e o tornaram raso e reto do clube Olímpico à Rua Sete de Setembro. Com a medida, que muito pouco atenuou as cheias ou os efeitos catastróficos das trombas d´água, o poço desapareceu.
 
Tenho quase certo que se localizava nos fundos de uma oficina mecânica. Um vizinho, velho morador, Guilherme von Hohendorff, hoje falecido, garantiu que eu tinha razão.
 
Hoje, outros tantos lugares belíssimos para banhos e recreação sumiram com as obras de macrodragagem em execução. Sumiram como estes ‘recuerdos´ de mais de cinquent´anos. Inda assim, renderam poema e esta crônica piegas.

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