Anos 50 - Não nasci aqui. E daí? Vi a luz em Rio do Sul. Dois rios, vindos de Ituporanga e Taió, se encontram nos fundos da casa da minha infância. Rua 7 de Setembro, número não exatamente o 107, como naquele samba do Vinícius dedicado a Elizete. A partir daquele ponto, passa a chamar-se rio Itajaí Açu.

Aos 12 anos de idade, vim para Blu, minha eterna cidade. Primeira cena: Colégio Santo Antônio, hoje também Bom Jesus. Insegurança total. No Colégio Dom Bosco da terra natal, os salesianos eram afáveis e doces. Na cidade do doutor Hermann, o figurino era um cadinho diverso: frades austeros, com exceção de frei Odorico.

“Pouco sábio”, apenas me deu lições de Português, Latim, Espanhol, Francês e Oratória. Mais importante, no certo, foram as lições de vida. Se me encantava o Humanismo, sofri um bocado para vencer as ciências ditas exatas: Matemática, Física, Química.

Tentei Direito, a profissão de meu pai. Errei, erramos, como naquela canção do Herivelto Martins. Surgiram caras e coroas: o professor de Português, o jornalista e o que dizem ser escritor. Segunda cena: garotote, treze anos, a pedido da mãe, corria a um secos e molhados, praticamente grudado na casa, e fazia as encomendas no bom vernáculo. Mas bastava chegar um senhor ou uma senhora falando alemão que o brasileirinho aqui era preterido de hora e vez.

Anos 60 - Barbinha na cara, primeiros bares, muito cinema e teatro, ouvidos atentos à música popular do Brasil, em Curitiba e no Rio de Janeiro. Era moda dar uma de canhoto. Só que esquerda, no meu caso, era a festiva.

Tudo mudou no meu retorno forçado a Blumenau. Queria ser cidadão carioca. Não o consegui. Pai Ademar Luz resolveu descansar para sempre. Foi-se dias antes do que chamaram de Revolução Militar. Morreu sem vê-la, a quartelada. Revoltado com o sonho desfeito, achei consolo na terra de origem. Sempre tem. Um jornal, chamado Ronda, me abrigou.

Como o semanário falava mal de todo mundo, criou-se o pseudônimo, a rogo da família. Nascia o Tessaleno que, só anos mais tarde, seria incorporado ao nome de pia, em diversas publicações. Destilando um venenozinho, consolava-me. Os anos 60 foram dourados para mim. Comecei a lecionar e atuava sem cessar na imprensa daqui e de cidades vizinhas. Adorava criticar, mas poupava, quando em olor de santidade, os amigos.

Dos anos 70 até hoje - Blumenau superou as enchentes, ergueu a crista, deu a volta por cima, levantou o moral. Verdade que ocorrem coisas difíceis de aceitar. O surgimento do shopping fez com que quase todo o comércio da Rua XV se mudasse para lá. Com a reurbanização da nossa principal via ela recuperou o prestígio e o colorido que sempre a caracterizaram. Bom senso e bom gosto.

Falar em gosto, a Oktoba tá chegando. E com a festa os turistas. E entre eles, os gringos. Daí minha confissão: Blu, “te quiero mucho, demás!”.

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