"Projeto 100% Gaspar": Uma mobilização histórica quase levou a cidade de volta à Assembleia Legislativa, mas a divisão política voltou a impedir o resultado

Gaspar carrega uma lacuna de 40 anos sem representatividade na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), marca que se completa nas eleições de 2026. Neste período, o único representante na Alesc desde a redemocratização do país foi Francisco Mastella. Ele foi eleito pelo extinto Partido Democrático Cristão (PDC), em 1986, com a maior votação do estado naquele pletio: 36 mil votos.

Mastella, porém, não era natural de Gaspar nem foi criado na cidade “Coração do Vale”. Sua ligação com a cidade ocorreu por motivos profissionais - ocupava o cargo de diretor financeiro da Ceval. Mastella faleceu precocemente em 1989, em pleno exercício do mandato legislativo.

Desde então, Gaspar jamais voltou a ter voz própria no parlamento catarinense. Municípios com número inexpressivo de eleitores e menor peso econômico conseguiram ocupar uma das 40 cadeiras da Alesc nas últimas quatro décadas. Gaspar pagou o preço do excesso de candidaturas e da divisão do eleitorado.

Uma eleição, porém, tomou um rumo diferente: a de 2002. Naquele ano, uma iniciativa inédita buscou quebrar o jejum por meio do “Projeto 100% Gaspar”. A proposta visava reunir as forças políticas locais em torno de um único nome, impedindo que candidatos de fora buscassem os votos dos eleitores gasparenses sem dar contrapartida à cidade.

A iniciativa uniu seis partidos de forte presença em Gaspar. Cada legenda podia indicar um pré-candidato. Dentro dos próprios partidos houve muita disputa. No final, surgiram os nomes de Adilson Schmitt (PMDB), Aloir Spengler (PDT), Amadeu Mitterstein (PSDB), Luiz Fernando Poli (PFL), Andreone Cordeiro (PSDB) e Pedro Inácio Bornhausen (PPB). Na época, o PT, partido do então prefeito Celso Zuchi, não aderiu ao movimento unificado.

Bornhausen chegou muito próximo de uma cadeira na Alesc
  • Bornhausen chegou muito próximo de uma cadeira na Alesc (Fotos: Arquivo Jornal Metas)

Mesmo sem a adesão de todos os partidos, o “Projeto 100% Gaspar” seguiu em frente com amplo apoio popular, da classe empresarial e de lideranças comunitárias da cidade. A escolha daquele que iria representar o município nas eleições ocorreu em duas etapas, ficando para a disputa de segundo turno os três mais bem votados.

Urnas foram colocadas em escolas, centros comunitários de igrejas e associações de moradores. As pessoas saíram de casa numa manhã de sábado para votar, embora o voto fosse facultativo. A apuração dos votos, nos dois turnos, foi realizada na Sociedade Alvorada e aberta à comunidade.

Os três mais votados

Ao final do primeiro turno, os mais votados foram o médico-veterinário Adilson Schmitt (PMDB), o professor universitário Aloir Spengler (PDT) e o servidor da Celesc Pedro Inácio Bornhausen (PPB).

Algumas semanas antes do segundo turno, Adilson Schmitt desistiu da disputa, pois seu objetivo político era a eleição municipal, que ocorreria dois anos depois. “Mesmo fora da disputa, eu apoiei o vencedor e coloquei adesivo no meu carro. Eu honrei o 100% Gaspar”, conta Schmitt.

A decisão ficou, então, entre Pedro Bornhausen e Aloir Spengler. Bornhausen venceu com larga margem de votos, tornando-se o pré-candidato de consenso da cidade, sendo homologado posteriormente em convenção partidária.

Mais de 12 mil votos em Gaspar

O projeto "100% Gaspar" quase atingiu seu objetivo. Bornhausen somou 20.227 votos — dos quais mais de 12 mil foram obtidos em Gaspar. Até hoje, nenhum candidato a deputado estadual conquistou tantos votos no município. A marca superior a 20 mil votos colocou Bornhausen na quinta suplência da coligação liderada pelo PP. Contudo, como o candidato ao governo estadual pela coligação, Esperidião Amin, não se elegeu, as chances de o suplente assumir uma vaga na Alesc ficaram nulas.

Apesar de não conquistar a cadeira na Alesc, o “Projeto 100% Gaspar” deixou marcas profundas na política local.

Pedro Bornhausen
  • Pedro Bornhausen (Fotos: PMG)

"As pessoas estavam empenhadas em fazer diferente naquela eleição e tudo foi muito bem planejado e organizado, pois teve começo, meio e fim. Lembro que todos os partidos receberam um documento que assinavam se comprometendo a participar do projeto e apoiar o vencedor do plebiscito”, conta Bornhausen."

O ex-candidato do 100% Gaspar recorda que havia na cidade um desejo enorme de definir um candidato único e de consenso. “Percebia-se que toda a cidade estava envolvida no projeto.”

Fatores locais, contudo, minaram a consolidação da vaga. Embora Bornhausen tenha obtido uma boa votação em Gaspar, um volume quase equivalente de votos de eleitores gasparenses acabou pulverizado em candidatos de fora. Além disso, o PT de Gaspar lançou a primeira-dama Liliane Zuchi como candidata a deputada estadual; ela obteve 6.504 votos. Esses votos poderiam ter colocado o candidato de Gaspar na Alesc. “Essa iniciativa do PT prejudicou bastante o projeto 100% Gaspar”, admite Bornhausen.

Impacto político futuro

Em contrapartida, o "Projeto 100% Gaspar" teve um impacto político importante ao reagrupar forças que haviam se distanciado no pleito municipal de 2000 - quando sete candidatos disputaram a prefeitura. Em 2004, formou-se uma aliança de quatro partidos, decisiva para eleger Adilson Schmitt (PMDB) prefeito e Clarindo Fantoni (PP) vice-prefeito. “A vitória para a Alesc não veio em 2002, mas essa união foi a base para elegermos o Adilson à prefeitura em 2004, reunindo PMDB, PP, PSDB e PDT. Uma pena que essa articulação tenha se perdido com o tempo”, lamenta Bornhausen.

Fragmentação e desilusão nas urnas

Sem a força coletiva do "Projeto 100% Gaspar", as eleições de 2006 marcaram o enfraquecimento das candidaturas "prata da casa". Bornhausen voltou a disputar uma vaga na Assembleia Legislativa, concorrendo contra outros dois nomes locais: Marcelo Schmitz (PSDB) e Mariluce Deschamps Rosa (PT). Com o eleitorado gasparense novamente dividido e sem proteção contra candidatos de fora, os nomes da cidade registraram votações bastante baixas. No total, Bornhausen, o mais votado, somou 12 mil votos - quase 9 mil a menos que na eleição anterior.

Aquela foi a última vez que ele disputou um cargo eletivo. “Faltaram recursos e mobilização em 2006. Fui candidato mais por insistência do partido, mas já sem a empolgação de antes. Acho difícil Gaspar repetir um movimento como aquele. A população perdeu a crença de que a união política local pode dar certo”, lamenta o ex-candidato.

Embora nunca tenha se afastado da vida política da cidade, Bornhauses só retornaria à cena pública dez anos depois, quando Kleber Wan-Dal se elegeu prefeito. Ele ocupou cargos no governo municipal, mas deixou a estrutura administrativa ainda no primeiro mandato do emedebista. Retornou em 2025, na coordenação da campanha de Paulo Koerich. Hoje é o secretário municipal de Planejamento Territorial.

Enquanto a memória do projeto "100% Gaspar" permanece viva, a cidade segue diante do desafio de superar divisões partidárias e vaidades pessoais para encerrar o jejum de representantes na Alesc. O cenário de representatividade própria, contudo, tende a se estender por mais quatro anos, já que os cerca de 50 mil votos dos eleitores gasparenses são insuficientes para tantos nomes em disputa.

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