A divulgação dos relatórios da Polícia Federal detalhando a proximidade entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro abre uma fissura profunda no coração do Supremo Tribunal Federal, cujos desdobramentos éticos, institucionais e políticos colocam à prova a própria credibilidade da Suprema Corte e o Poder Judiciário.

As mensagens trazidas à tona após a decisão do ministro André Mendonça de retirar o sigilo do documento expõem um quadro estarrecedor. Registros de múltiplos encontros, expressões de “gratidão eterna”, conselhos sobre eventuais deslocamentos ao exterior e a revelação de um contrato milionário com o escritório de advocacia da esposa do magistrado — qualificado pelo próprio ex-controlador do Banco Master como “prioridade máxima” — desenham uma teia de relações que afronta os princípios básicos da impessoalidade e do decoro que se espera de um magistrado da mais alto Corte.

Ainda que a PF tenha feito a devida ressalva de que não realizou diligências formais para imputar crimes diretos ao ministro, o patamar do escândalo não se mede apenas pela tipificação penal, mas pelo dano irreparável à imagem do STF.

O bate-boca velado e as manobras entre ministros — que culminaram na decisão de Mendonça de enviar o caso ao Plenário e no afastamento do diretor-geral da PF - reconduzido ao cargo nesta quarta-feira (9) pelo ministro Flávio Dino - escancaram um tribunal rachado. Ao ver seu presidente, Edson Fachin, forçado a mediar conflitos internos e reavaliar inquéritos sem fim, o STF perde a blindagem institucional que ostentou por anos.

Para além dos gabinetes atapetados de Brasília, a tempestade ganha contornos dramáticos no tabuleiro eleitoral. Figura central na condenação de Jair Bolsonaro e na condução dos inquéritos sobre os atos golpistas, Alexandre de Moraes sempre foi o alvo preferencial da oposição.

Agora, as suspeitas que o cercam viram munição pesada nas mãos da direita, que utiliza o caso do Banco Master para pregar a nulidade de processos e alimentar a narrativa de que o Judiciário atuou sob motivações políticas.

A um mês das eleições, a crise transborda para as urnas. Enquanto a oposição transforma o desgaste do Supremo em plataforma para eleger senadores com o compromisso de pautar impeachments, o governo e seus aliados se veem emparedados, constrangidos a equilibrar a defesa das instituições com o incômodo pedido de transparência que ecoa inclusive dentro do campo progressista. Não há democracia forte com um Judiciário sob permanente desconfiança.

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