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Edição da semana 15/01/2026 (Fotos: Jornal Metas)
Existe uma mentira confortável que sustenta toda a política pública brasileira para moradores de rua. A mentira de que estamos diante de um “problema social clássico”, composto majoritariamente por vítimas ocasionais da crise econômica, esperando apenas uma oportunidade, uma cesta básica e um abraço do Estado para retomarem suas vidas. Não estamos. A realidade é mais dura, mais feia e muito mais perigosa. E é justamente por isso que as políticas públicas fracassam de forma tão retumbante.
Qualquer agente de rua que trabalhe longe dos relatórios ideológicos sabe a verdade. A população de rua se divide, grosso modo, em dois grupos. Uma minoria real, algo em torno de 5%, é composta por pessoas que querem ajuda, que ainda mantêm vínculos familiares, que não romperam completamente com a vida social e que gostariam de sair da rua. Mesmo nesse grupo, a dependência química já é profunda, o que torna a recuperação rara, lenta e custosa.
O restante, a esmagadora maioria, vive em outra lógica. Não está na rua por falta de política pública. Está na rua porque a rua virou o ambiente funcional para sustentar o vício, o crime e a desagregação completa. Ali se furta, se trafica, se recebe esmola, se consome droga e se constrói uma economia paralela protegida por um manto ideológico que chama tudo isso de “vulnerabilidade”.
Este não é um debate abstrato. É a fotografia atual de Florianópolis e de diversas cidades de Santa Catarina. Florianópolis, em especial, tornou-se a cidade do Sul do Brasil com maior número de moradores de rua per capita, um recorde silencioso que escancara o fracasso completo do modelo adotado nos últimos anos.
Theodore Dalrymple, psiquiatra britânico que trabalhou por mais de duas décadas em prisões e hospitais públicos atendendo a população mais pobre e marginalizada, descreve com precisão esse fenômeno em “Vida na Sarjeta”. Ao observar que “o Estado de bem-estar não falhou por não oferecer o suficiente, mas por ter oferecido demais sem exigir nada em troca”, ele mostra como o poder público deixou de tratar comportamentos autodestrutivos como desvios a serem corrigidos e passou a tratá-los como identidades a serem protegidas. Ao romantizar a decadência, o Estado deixa de ser agente civilizador e passa a ser curador de ruínas humanas, administrando a miséria em vez de enfrentá-la.
É exatamente isso que fazemos. Camas, cobertores, tendas, marmitas, cachimbos “seguros”, salas de uso assistido, atendimento sem exigência de contrapartida. Todo o desenho das políticas públicas parte de uma ficção. A de que o morador de rua quer sair da rua. Ele não quer. E quando quer, já não consegue. Resultado: construímos um sistema inteiro voltado aos 5%, que quase nunca se recuperam, e com isso sustentamos, estabilizamos e ampliamos os 95% que transformaram a rua em modo de vida. O Estado financia, legitima e organiza a permanência no vício, no crime e na degradação.
Cidades que ampliaram esse modelo colhem exatamente o que semearam. Aumento de furtos, degradação urbana, violência, fechamento de comércios, fuga de moradores, queda de arrecadação e um ciclo perverso que alimenta mais pobreza, mais abandono e mais dependência do próprio Estado.
Dalrymple também registra que “quando uma sociedade abandona a ideia de responsabilidade pessoal, ela não produz compaixão, ela produz barbárie administrada”. Ao retirar qualquer exigência de disciplina, tratamento, abstinência, internação involuntária quando necessária e responsabilização, o poder público não salva ninguém. Apenas organiza a ruína.
O discurso é sempre o mesmo. “Não podemos obrigar”. “Não podemos constranger”. “Não podemos interferir”. Mas podemos financiar. Podemos sustentar. Podemos estabilizar. Podemos criar verdadeiros ecossistemas de degradação mantidos por recursos públicos. É o triunfo da política que parece bonita no relatório e desastrosa na realidade. Enquanto fingirmos que o problema é falta de acolhimento, continuaremos produzindo mais rua, mais vício, mais crime e mais colapso urbano. O que falta não é afeto estatal. O que falta é coragem política para admitir que o problema central não é social. É moral, comportamental e civilizacional.
Sem romper esse tabu, continuaremos investindo milhões para salvar quase ninguém, enquanto alimentamos um sistema que destrói cidades inteiras.
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