Entre muitas árvores e flores, em um canto distante do Alto Baú, o casal Vali Beahr Hausmann e Egon Hausmann construíram sua casa. Os nomes já revelam a ascendência: os dois são descendentes dos alemães que desbravaram as terras do bairro. Já faz mais de um século que Carlos Hausmann, pai de Egon, chegou, abrindo caminho no meio da mata, até o local em que construiu sua casa. O terreno já era de propriedade do avô de Egon, que morava em Blumenau, no bairro Fortaleza, e que veio da Alemanha aos cinco anos de idade. Quando casou, Carlos ganhou o terreno para começar a vida no Alto Baú. “Esse era um costume antigo. Quando um filho se casava, o pai dava um pedaço de terra para que ele e a esposa pudessem construir uma casa e formar família. Vieram mais dois tios meus para cá, mas eles não ficaram por aqui”, revela Egon.
Com facão e machados, Carlos Hausmann conseguiu abrir o local para construir a casa e iniciar a atividade agrícola. No início, plantavam apenas para sobreviver, mas eram obrigados a ir a Blumenau a cavalo para buscar outros produtos que precisavam para sobreviver, como sal, açúcar e querosene. Os produtos eram comprados de um barco, que subia o Itajaí-Açu carregado de artigos para toda a população. “Foi apenas uns 20 anos depois de chegarem aqui que os imigrantes conseguiram abrir uma estrada para a passagem das carroças. Então, eles saíam de carroça de manhã e chegavam a Blumenau quase ao meio-dia. Eles vendiam suas coisas - como madeira, leite, nata, queijo e verduras - e compravam o que precisavam para casa. Depois, ia mais meio dia para voltar para casa”, relembra Egon.
Seu Egon nasceu no Baú e ali se fixou depois de casar. Ele conta que, depois de casarem, todos os seus irmãos e irmãs se espalharam por outras cidades. “Antigamente, o casamento durava o dia inteiro. As pessoas vinham bem cedo, de manhã, de carro de mola puxado por um cavalo, e ficavam até a noite. Hoje, as pessoas vão pela festa, na época, vinham para comer mesmo”, brinca seu Egon. Ele se casou com Vali Beahr Hausmann, que também era do bairro e descendente de alemães e tiveram três filhos: Haihs, Harold e Helcio. Ela já sabia o português, por ter mãe brasileira, porém seu Egon falava apenas o alemão. A língua de seus antepassados não foi esquecida. Até hoje, o casal e seus filhos são fluentes em alemão. Eles possuem ainda três netos e dois bisnetos que não tem a mesma intimidade com a língua, porém conseguem entender pelo menos um pouco do alemão. Por pouco mais de um ano, ele trabalhou em uma indústria têxtil em Blumenau. Pegava ônibus todos os dias para percorrer um longo caminho até a empresa. “Naquela época, saiam três ônibus cheios do Baú. Hoje, meu filho trabalha em Blumenau, e vai de carro com mais duas pessoas, porque não há gente suficiente para que um ônibus compense”, comenta Egon. O casal revela que após a catástrofe, aproximadamente metade das pessoas que morava no Alto Baú foi embora. Em 2008, eles não chegaram a perder nada, porém ficaram isolados, cercados por terra, e tiveram que sair de lá de helicóptero.

Perseguição

Durante o governo de Getúlio Vargas, os imigrantes alemães e seus descendentes foram proibidos de falar o alemão. Escolas alemãs foram fechadas e as pessoas vivam sob vigia, um estado de pânico tomou conta dos lares dos alemães. Nem mesmo quem morava em locais mais isolados, como o Alto Baú, escapou. A punição para quem falava alemão era tomar óleo cru e, por isso, muitos aprenderam a falar o português “na marra”. “Não podiam falar alemão nem em casa, sempre tinha alguém circulando por aí. Estavam sempre de olho nos botecos, vendo quem falava alemão”, conta seu Egon. Para os descendentes, a mudança foi radical, pois muitos deles não sabiam uma única palavra em português.

Outra marca da colonização alemã no Alto Baú é a presença da Igreja Evangélica de Confissão Luterana. Os moradores não sabem precisar desde quando ela existe no bairro, mas acreditam que os primeiros cultos tenham sido realizados há mais de 90 anos. Dona Vali Beahr Hausmann, 77 anos, conta que ela foi batizada na igreja do bairro, e acredita que ela já existia há muito tempo quando seu batizado aconteceu. Na tragédia de 2008, a igreja foi afetada por deslizamentos de terra, que soterraram até mesmo parte do cemitério que havia no local. A igreja, assim, como outras tantas partes do Complexo do Baú, foi reconstruída. De acordo com Dona Vali, há cultos a cada 15 dias com o pastor Sigfreud, da igreja Luterana da Fortaleza, de Blumenau, e uma vez por mês há o encontro das senhoras.

A tifa dos Grahl

Quem passa pela estrada geral do Alto Baú consegue ver a placa que indica: “tifa dos Grahl”. Quem abriu este caminho foi o alemão Artur Grahl e ali criou sua família. De acordo com o livro “Ilhota - o Encanto dos Belgas no Vale do Grande Rio”, ele era pedreiro e se mudou para a localidade porque sua mulher, Alma Harbs Grahl, não gostava de morar na cidade de Blumenau. No Alto Baú, ele deu aulas de alemão, liderando por anos a escola alemã, a igreja e o clube esportivo familiar. Isso até que veio a proibição das línguas estrangeiras e a escola teve que ser fechada. No livro, há o depoimento de seu filho, Alberto, que conta que o pai foi chamado para trabalhar na escola do governo. “Tinha que fazer um curso, mas meu pai não quis”.
A família Grahl não mora mais na tifa há alguns anos. As casas estão vazias e, de acordo com os vizinhos, eles deixaram o local um pouco depois da tragédia de 2008. Karina Kupas Konrad, 29 anos, e sua família ainda moram e trabalham na tifa. A avó de Karina era filha de Artur Grahl e sua família se fixou no local. “Quando vieram para cá, não havia nada, era só mato, tiveram que começar do nada, abrindo picada na mata para plantar e criar animais”, conta Karina. A agricultura sempre foi uma atividade desenvolvida pela família e continua, até hoje, a garantir seu sustento. Karina lembra que sua avó contava como era a vida antigamente. Ela enchia a carroça com batata, aipim, ovos e verduras e a família saia de casa às 23h com destino a Blumenau. Lá, vendiam seus produtos em uma feira durante todo o dia e, quando chegavam em casa, já era noite novamente. Hoje, seus filhos e netos continuam no ramo. Karina, uma irmã e seus pais continuam no Alto Baú. Eles plantam as hortaliças que os pais vendem em uma feira em Blumenau às terças e quintas-feiras. Seu irmão, que foi para Porto Alegre estudar agronomia, hoje trabalha com agricultura na terra dos sogros, em Brochia. “Trabalhar com a terra está no sangue. Esta é a maior herança que nos deixaram: o amor à terra e aos que começaram aqui”.

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