Ao falar sobre a história de sua família, a ex-professora aposentada, Maria Rosália Corsani, de 64 anos, não tem como fugir do assunto das enchentes.
Por muitas vezes as águas do Itajaí-Açu causaram prejuízos aos moradores do Vale do Itajaí. Isto aconteceu durante toda a história da região e já passou a ser uma retórica na vida dela. "Temos que aprender a conviver com as enchentes. Sabemos que não dá para evitá-las, mas um plano de emergência precisa ser feito e outras ações precisam ser criadas para que se evite tanto prejuízo e tantas mortes", afirma Rosália, que já sentiu na pele o que é perder tudo para a força das águas.
Sua família foi bastante atingida na enchente 1983, sofreu também com a de 1984 e com a de 2008. Em setembro de 2011, apesar de a água ter invadido terrenos da família, não houve prejuízo. Em 1983, ela conta que acordou com água dentro de casa, quase na altura de sua cama. Foi para a casa do pai com seus filhos, porém logo a água também chegou ao local. Ela morava no bairro Lagoa e dava aula na escola Mário Pederneiras, enquanto o marido agricultor, João Florenço Corsani, cuidava da plantação com seus irmãos no bairro Barranco Alto, em Ilhota. Devido à enchente, os dois ficaram separados por 10 dias, até que ele pegou uma batera e saiu à procura da esposa. Ela estava a dois quilômetros de casa, na moradia de Terezinha da Costa, uma conhecida - hoje falecida - que abrigou a família e muitos outros moradores da localidade. Da saída até a volta para casa, passaram-se 23 dias. Rosália encontrou quase todo o interior da casa destruído e uma grande quantidade de troncos e raízes trazidos até o local pela força das águas.
Era impossível morar na casa de madeira, porém foi possível salvar uma meia-água de alvenaria e lá a família morou por seis meses, enquanto construíam uma nova moradia no bairro Baú Baixo. "Já tinha visto enchentes antes, mas nunca nesta proporção. Fomos pegos de surpresa e não havia comunicação com os outros lugares de Gaspar", relata.
Por seis meses, ela e os filhos viveram sem estrutura nenhuma na meia-água, enquanto construíam a casa no Baú Baixo. Conseguiram salvar alguma coisa de madeira da casa atingida e, contando também com ajuda de parentes da Alemanha, conseguiram finalizar a casa. Foi então que veio a enchente de 1984. A água chegou até a varanda da casa, não entrou nos cômodos, mas, como a residência fora construída em um terreno com solo muito argiloso, a estrutura da casa foi comprometida. Sem recursos e com três filhos para criar, a família resolveu permanecer no local. Embora as rachaduras aparecessem ainda mais com os anos, Rosália morou por 20 anos na casa. "Minha prioridade era oferecer educação aos filhos", destaca. Há 10 anos ela se mudou para a casa em que vive hoje. O marido e cunhados haviam adquirido um grande terreno no Barranco Alto, porém, anos depois, desfizeram a sociedade. Foi na parte do terreno destinada ao marido que construíram a nova casa, esta de alvenaria e em cima de um morro.
Ao longo dos anos, o marido plantou fumo, mudou para o arroz e depois passou a criar gado de leite. Em novembro de 2008, a casa da família não foi atingida pela tragédia climática, porém o rancho onde ficavam as vacas e todos os equipamentos para a extração do leite foi invadido pelas águas e o barro até o teto. O casal perdeu ainda 36 mil pés de aipim. O prejuízo, recorda Rosália, chegou aos R$300 mil. Como o gado estava brincado e registrado, foi possível comprovar a perda e assim o marido recebeu um reembolso do Governo de R$7 mil. O preço do leite já estava muito baixo e João não tinha mais gosto pela atividade que exercia, então resolveu mudar e começou a plantar palmeira real. Em 2011, as águas ocuparam novamente a parte do terreno da família, porém, desta vez não houve perdas. A plantação não sentiu a enchente e a lama trazida pela águas do Itajaí-Açu ajudou a adubar o terreno. Hoje João se diz feliz com o que faz e ao lado da esposa.
A família Corsani é uma das muitas que sofreram com enchentes e tiveram forças para recomeçar. "Por tudo que passei, posso louvar e agradecer a Deus mil vezes por estarmos vivos e nunca termos perdido a força e a coragem", afirma Rosália.
Educação
A professora está aposentada há 17 anos. Ela sempre colocou a educação em primeiro lugar. Por isso, ficou muito triste ao ler a reportagem "Escolas nota zero", publicada pelo Jornal Metas no ano passado, onde foi retratado o descaso com a educação.
Entre as escolas, estava a Laudelino José Novaes, no Braço do Baú, onde Rosália foi professora estagiária por um ano, na década de 1970. "É um crime aquela escola estar abandonada, quase chorei ao ler a reportagem. Será que não há nada que pode ser feito? Se não der para fazer nada no local atual, por que não fazer uma nova escola para aquelas crianças?" questiona.
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