Psicólogo, psiquiatra e pediatra dizem que é fundamental que os pais encontrem um espaço de fala para as crianças

O Brasil tem assistido com apreensão uma onda de violência e ameaças circulando pelo ambiente escolar, principalmente no último mês de março, quando quatro ataques em poucos dias, nas cidades de São Paulo, Blumenau, Goiânia e Manaus, foram registrados.
Segundo levantamento feito pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), foram 22 ataques a escolas brasileiras de 2002 a julho de 2022, ou seja, pouco mais de um ataque a cada dois anos. Recentemente, os registros dispararam e esta média passou a ser mensal em agosto de 2022 até a explosão de violência deste ano.
O problema reflete em todos os lares brasileiros que possuem crianças em casa. “É fundamental que os pais possibilitem um espaço de fala para as crianças. Eles devem ter segurança para expressar seus sentimentos e também para que os pais possam observá-los neste sentido”, afirma a psicóloga clínica e doutoranda em educação, Elaine Michele.
Já o psiquiatra e médico perito legista, Djalma Silva, diz que a abordagem com as crianças deve ser bem pensada, para evitar aumentar a sensação de insegurança. “As escolas devem atuar juntamente com os pais neste tema e de forma preventiva, evitando medo e traumas”, reforça.



O medo de voltar à escola

Primeiramente, recomenda-se evitar assistir aos noticiários sobre o tema compulsivamente e comentar com constância sobre o assunto, principalmente na frente das crianças.
Procurar reconhecer o motivo do medo da criança, por exemplo, se o que amedronta é a possibilidade de ocorrer um novo ataque, apresentar as estratégias de segurança que estão sendo estabelecidas pela escola pode ajudar, e oferecer ferramentas para lidar com seus sentimentos, por exemplo - “Quando você sentir medo na escola, o que pode fazer para se sentir seguro?”. Essas estratégias devem ser temporárias, até que o estudante volte a ter a sensação de segurança, isso ocorrerá com o passar do tempo e cada criança necessitará de um período para se recuperar.
De acordo com as especialistas, no período de até 30 dias após os ocorridos, as crianças ainda podem apresentar pesadelos e outros problemas de sono. É necessário atenção e paciência nesse período.



Dicas valiosas

Luisa Sanches, que é pediatra do Eco Medical Center, em Curitiba, recomenda acolher os sentimentos dos filhos e procurar ajuda especializada, quando necessário. “Essas ameaças e ataques impactam de forma diversa e singular nos estudantes, podendo gerar medos, angústias, pânicos, inibições e outros sofrimentos psíquicos, além de prejudicar o desempenho escolar e gerar bloqueios na vida como um todo”. Para a pediatra, apesar do abalo emocional e da preocupação dos pais e familiares, é essencial que haja diálogo sobre os fatos ocorridos. “Caso o adulto não saiba como abordar o tema e a criança apresente sinais de drásticas mudanças comportamentais, um profissional psicólogo ou psiquiatra deve ser procurado para auxiliar no caso”, finaliza Luisa. 


Quando procurar a ajuda de um profissional

A atenção deve ser redobrada pelos responsáveis pois, muitas vezes, as crianças não manifestam a necessidade de ajuda verbalmente. Muitas têm manifestações emocionais e sintomas psicossomáticos (físicos). “Problemas de sono e alimentação, não conseguir voltar às aulas, apresentar sofrimento acentuado ou prolongado, e automutilação são alguns sinais que pedem atenção dos pais e familiares para a necessidade de procurar ajuda profissional”, finaliza a pediatra Luisa Sanches.


Como iniciar a conversa?

O mais importante é manter uma postura acolhedora e um espaço de escuta ativa. Caso o estudante tenha presenciado alguma situação de violência, recomenda-se aguardar as orientações da escola sobre como abordar o assunto em casa. “Porém, caso seja alguém distante do ocorrido, os pais e familiares podem iniciar o assunto comentando sobre a notícia e buscando entender o que o jovem sabe sobre o ocorrido”, orienta a pediatra.

Por exemplo, “Ouvi uma notícia ruim hoje sobre uma escola, você ouviu?” pode ser uma boa maneira de iniciar uma conversa, buscando explorar o quanto a criança sabe sobre o tema.
O ideal é informar de maneira sucinta e também esclarecer informações falsas, evitando julgamentos e suposições. Ser o mais realista possível e buscar entender como a criança se sente e o que gostaria de falar sobre o assunto.
É importante abordar sobre qual a reação adequada a cada situação. Frases como: “Quando não estamos de acordo com algo, como podemos resolver? Mesmo quando ficamos muito bravos? O que podemos ou não fazer?” também são sugestões.
Também não é recomendado apressar as crianças ou impor o que os pais consideram correto nesse momento, mas sim respeitar a dor e os sentimentos do estudante.


Como lidar com o próprio medo

Pais e responsáveis devem administrar o próprio medo para que ele não seja transferido às crianças de maneira excessiva. “Os pais devem reconhecer e nominar os sentimentos, apresentando-os com sinceridade à criança, afinal, o medo é válido. De forma mais ativa, os responsáveis podem buscar a escola e outras famílias para elaborar estratégias de reforço na segurança escolar”, orienta a psicóloga.

 



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