André Moraes, um paulista radicado em Gaspar há três anos, trouxe junto a sua Bike Pão, que vem fazendo o maior sucesso nas ruas da cidade

Enquanto a cidade de Gaspar ainda dorme sob o silêncio da madrugada — por volta das 5h da manhã —, a rotina de seu André Luiz Moraes, de 61 anos, começa em meio ao calor do forno e ao aroma da mistura de açúcar, sal, ovos e farinha. É na modesta cozinha de casa que ele produz os pães e salgados que logo mais alimentarão o dia de muita gente. Tudo é feito por mãos que não conhecem atalhos: André compra a matéria-prima, produz todas as receitas sozinho, separa, embala e, quando o sol finalmente decide dar as caras, já está tudo pronto para a estrada.

O comércio de André não tem paredes fixas nem vitrine. Seu endereço comercial está sempre em movimento, pelas ruas dos bairros Santa Terezinha — onde mora — e Sete de Setembro. O veículo de trabalho é uma bicicleta adaptada, uma companheira de longas jornadas que ele mesmo foi aprimorando, ano após ano, com o capricho de quem zela por um velho amigo. Os primeiros modelos não ficaram como ele queria; por isso, recorreu a um conhecido para chegar ao veículo ideal.

Carregar o próprio negócio sobre rodas exige fôlego: somando a estrutura da bike, os produtos e o peso do condutor, ele calcula que a balança chega fácil aos 300 quilos.

Contudo, conduzir todo esse peso não se resume apenas à força das pernas; ali também se transporta a história de quem decidiu mudar o rumo da própria vida. E isso aconteceu há mais de 15 anos, quando André trocou a segurança do regime CLT em uma padaria pela liberdade — e, claro, pelo risco — de ter o próprio negócio ambulante. Deu certo. O dinheiro do pequeno comércio sobre rodas o ajudou a comprar uma casa em São Paulo e um carro.

Há três anos, a Bike Pão migrou para Gaspar, onde os filhos de seu André já moravam. O começo, ele admite, não foi fácil. A ideia de vender pães e salgados sobre uma bicicleta ainda não era comum por aqui. Além disso, conta André: "as pessoas achavam que eu pegava os pães e salgados em alguma padaria e saía vendendo; quando os clientes descobriram que eu produzia tudo em casa, as vendas dispararam". A Bike Pão também foi parar nas redes sociais, e o negócio prosperou de vez a ponto de as pessoas pedirem para ele vender em outros bairros. "Eu até queria, mas, como trabalho sozinho, a demanda seria bem maior; por isso, eu vendo só aqui no Santa Terezinha e no Sete de Setembro."

Tudo o que André produz é vendido rapidamente, no mesmo dia. Os salgados são os preferidos dos clientes: tem esfiha de frango com catupiry ou calabresa com catupiry, doguinho com salsicha e catupiry e o famoso hamburgão — que leva queijo e hambúrguer —, além dos pães de milho e de leite. André também fabrica pães para quem tem intolerância à lactose. "Não vendo nada de um dia para o outro; o que sobra, quando sobra, eu levo junto, mas é para alimentar os cães comunitários", revela.

A chegada de seu André é anunciada por uma trilha sonora bastante eclética: a música que escapa da caixinha de som serve de aviso afetuoso de que o padeiro ambulante está passando. É um comércio sustentado na propaganda mais antiga e honesta do mundo: o boca a boca, respaldado por uma qualidade inegociável que ele faz questão de manter. E quem prova dos pães e salgados do seu André vira cliente. "Eu compro sempre o salgado do seu André, meus pais também, e minhas amigas contam que ele sempre passa lá na rua delas", diz a estudante Scheila Schramm, que aguardava pacientemente o fim da entrevista para comprar uma esfiha.

Sheila, os pais e amigas são clientes da Bike Pão
  • Sheila, os pais e amigas são clientes da Bike Pão (Fotos: MARIA EDUARDA MULLER/JORNAL METAS)

O dia de trabalho de seu André é um ciclo quase infinito que desafia o relógio e a exaustão. Começa na madrugada escura e só encontra trégua lá pela meia-noite, quando ele prepara a massa dos pães que serão assados antes do amanhecer. São muitas horas dedicadas inteiramente ao sonho de trabalhar por conta própria, empurrando com o suor do rosto e a força do coração uma rotina onde o que menos pesa é o cansaço, diante da grandeza de quem construiu a própria liberdade metro a metro, pedalada a pedalada. E assim ele pretende continuar, se a clientela assim desejar.

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