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A vocação nasceu no silêncio de uma casa humilde (Fotos: Fotos: Duda Muller)
A trajetória de um padre que escolheu servir a Deus com humildade e obediência, fazendo com que as pessoas se sintam tocadas pela simplicidade do Evangelho
Há religiosos que traçam sua caminhada pelo mármore dos altares e pela brancura impecável da túnica usada nas missas. E há outros, como o padre diocesano Idonizete Krüger, que simplesmente preferem ter a sola dos sapatos gasta no chão batido do povo, trazendo nas vestes simples o cheiro das periferias, a marca do acolhimento e da simplicidade. “Eu sempre fui assim, desde o início da minha caminhada religiosa, sempre preferi a simplicidade”, conta Padre Krüger, que no dia 29 de outubro completou 43 anos de sacerdócio.
Há dois anos, ele está à frente da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - a 13ª na sua caminhada religiosa, em Gaspar. Ao celebrar mais de quatro décadas de sacerdócio, Padre Krüger estava, como sempre, cercado pelos fiéis. O espaço da Capela São Francisco de Assis foi quase todo ocupado para a histórica celebração, seguida de homenagens de grupos pastorais comunitários de diversas igrejas da região, por onde padre Krüger passou.
A semente na terra crua
A história que culminou na noite de lembranças e homenagns, celebrou mais do que o tempo: a vida de um religioso que nunca teve medo de ir onde a dor e a esperança se encontram.
E tudo começou nas montanhas de Urubici, onde Padre Krüger nasceu. Foi sob o olhar terno de Dona Angelina e o exemplo de trabalho do pai que o filho aprendeu o primeiro mandamento de sua vida: o carinho e o respeito ao próximo. A vocação não nasceu sob holofotes, mas no silêncio de uma casa humilde. Quando o coração do menino, aos 12 anos, balançou e a cartinha enviada ao padre do Seminário de Azambuja, em Brusque, voltou acompanhada de uma lista de enxoval e materiais para ingressar no colégio, o sonho esbarrou na condição financeira da família, e a mãe foi sincera. “Ah, meu filho, o pai e a mãe são muito pobres, não dá para arrumar tudo isso”, relembra padre Idonizete.
A vontade de seguir a vida religiosa foi momentaneamente sepultada e o jeito foi seguir na roça, ajudando o pai e os irmãos a plantar e colher o alimento do dia a dia. Porém, o jovem passou a trabalhar com grupos de jovens na Paróquia Divino Espírito Santos, em Camboriú, para onde a família havia se mudado. Mas a vocação para o sacerdócio é como semente sob a terra seca: só espera a chuva certa para florescer. E floresceu.
Ao se formar no curso ginasial, a vontada de ingressar no seminário renasceu. Pelas mãos de um padre, o menino foi levado a conhecer o Seminário de Azambuja. “Ele ainda perguntou se eu estava querendo fugir do namoro ou de fato queria ser padre”, revela Padre Krüger.
Isso bastou para reacender a chama que jamais se apagaria. “Eu fui para conhecer o seminário e nunca mais saí”, recorda o religioso. Foram dez anos de estudos intensos - o científico, a filosofia vivida ao lado dos padres diocesanos. “Eu ia de bicicleta do centro de Camboriú até o Seminário em Brusque”. Outros quatro anos de Teologia foram concluídos em Florianópolis. Em 1983, na Paróquia Divino Espírito Santo, o jovem Krüger disse o seu primeiro “Sim” definitivo no altar, tornando-se padre diocesano. Ele ainda retornaria ao Santuário de Azambuja, onde por dois anos deu aula aos futuros padre antes de assumir a primeira paróquia.
"Não tenhas medo, porque eu estou contigo.”
Isaías, capítulo 41, versículo 10" – LEMA DE ORDENAÇÃO: Escolhido por Padre Krüger na sua ordenação sacerdotal
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A ordenação sacerdotal em outubro de 1983 (Fotos: Arquivo pessoal)
O “Quebra-Galho” de Deus e o abrigo dos esquecidos
Foram 13 paróquias, muitas delas como o verdadeiro “quebra-galho” do bispado: onde havia crise, escassez ou feridas abertas, lá ia o Padre Krüger erguer paredes. “Eu sempre tive a coragem de dizer: eu vou, como agora eu aceitei vir para a Bela Vista. Eu já estava designado para outra paróquia, mas o bispo disse: - eu preciso que você vá para lá”, revela o religioso.
A vocação para unir o povo em torno de causas sociais faz parte da personalidade do Padre Krüger. Em Navegantes, ergueu o teto da casa paroquial, mas seu olhar enxergou algo ainda maior e mais doloroso nas ruas: os dependentes químicos, os filhos esquecidos pela sociedade. Ali, com o coração pulsante de misericórdia, Padre Krüger começou o trabalho de acolhimento que daria origem ao Mosteiro da Ressurreição, na Pedra Amolar, em Ilhota.
Quando a obra floresceu e o coração do sacerdote se apegava ao povo, vinha o chamado do Bispo para o próximo desafio, como a Diocese de Blumenau, e as paróquias da Praia dos Ingleses, em Florianópolis, e Nossa Senhora da Glória e São Pio X, ambas em Ilhota.
Com a obediência de quem sabe a quem serve, juntava seus poucos pertences e partia novamente para mais uma missão. Padre Krüger admite que seu estilo e sua aparência causam certa desconfiança. O cabelo comprido, a longa barba e as túnicas usadas nas missas nem sempre com a brancura que o momento exige fogem ao rigor tradicional. Porém, ele diz que são vestes que carregam a memória e a identidade das periferias por onde andou. “Para que tanta frescura se Jesus nasceu numa manjedoura, no meio dos animais?”, questiona.
Ele também confidencia não gostar de celebrar missas em casas fechadas para que a pessoa não pense que o padre é dela. O religioso prefere as ruas e praças, porque são públicas, democráticas e de todos. Onde Padre Krüger chega, a comunidade sente a alma aquecer e retorna para a igreja. Não por imponência, mas pelo abraço sem julgamentos. No Bela Vista, em apenas dois anos de caminhada, o milagre da fé comunitária se multiplicou: os grupos bíblicos de reflexão saltaram do zero para mais de 50 espalhados pelas ruas, bairros e condomínios. “A palavra de Deus voltou a circular”, comemora.
"“Não Tenhas Medo, Porque Eu Estou Contigo”"
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Aos 70 anos de idade, ao olhar para trás e contemplar mais de quatro décadas de missas, confissões, abraços, tijolos erguidos e vidas resgatadas, Padre Krüger resume a sua existência nas palavras do profeta Isaías: “Não tenhas medo, porque eu estou contigo”. Esse, aliás, é o seu lema de ordenação sacerdotal.
A celebração na Capela São Francisco foi o eco de gratidão de uma comunidade que encontrou em seu pároco um pai, um amigo e um verdadeiro discípulo do Nazareno. O “Sim” do Padre Krüger, dado sem cálculos ou reservas desde a juventude, continua tão jovem e radiante quanto na sua primeira missa. “Eu sempre celebro como se fosse a primeira missa da minha vida, com o mesmo vigor, alegria e energia”, finaliza.
O reconhecimento da comunidade
Entre orações, cânticos e olhos marejados, Padre Krüger celebrou e ouviu depoimentos emocionantes que resgataram a trajetória de uma vida entregue a servir a Deus e ao próximo. O tom da celebração foi ditado pela virtude que sempre acompanhou seus passos: a essência da simplicidade. “Eu penso que é uma graça ter podido optar por ser padre. Eu não falo aquilo que eu não vivo e não faço aquilo que não vivo. Para mim, é uma marca de acolhimento e simplicidade. Eu sempre procurei fazer isso porque tento colocar Jesus na minha vida - um homem simples, acolhedor e de oração”, declarou emocionado.
Esse jeito próximo de caminhar ao lado do povo tem dado frutos visíveis. Fiéis dos bairros Bela Vista, Figueira, Águas Negras e cidades vizinhas, como Camboriú, Ilhota e Navegantes não esquecem o trabalho do padre e estavam lá para homenageá-lo.
Os fiéis, que ocuparam os bancos da capela, não é obra do caso: é a resposta ao testemunho diário de um pastor que prefere o calor humano aos formalismos. “Por onde quer que tenha passado ao longo de mais de quatro décadas, o carinho deixado nas comunidades sempre foi a confirmação da minha missão: fazer com que as pessoas se sintam tocadas pela simplicidade do Evangelho”, finalizou.
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A ordenação sacerdotal em outubro de 1983 (Arquivo pessoal)
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A celebração religiosa na Capela São Francsico e a confraternização. (JORNAL METAS)
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Grupo de Auto-Ajuda da Pastoral da Sobriedade da Paróquia São Pedro Apóstolo (JOSÉ ROBERTO DESCHAMPS/JORNAL METAS)
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