Cliente foi induzida a solicitar um empréstimo de R$ 10 mil, mas percebeu a fraude a tempo e acionou o banco

O nome da advogada Simone Makki foi usado, mais uma vez, em uma tentativa de golpe virtual. A diferença desta vez é que os criminosos utilizaram Inteligência Artificial para clonar a voz dela em uma conversa pelo WhatsApp.

De acordo com a advogada, o golpista se apresentou como “Dr. Felipe”, suposto colega do escritório, e entrou em contato com uma cliente dizendo que o número do telefone da Dra. Simone havia mudado. Ele informou que o processo da cliente havia sido ganho e que ela teria um valor a receber. Para liberar o repasse, pediu que ela fizesse um empréstimo bancário de R$ 10 mil e disponibilizou um link para a suposta operação.

Durante a conversa, o criminoso enviou ainda um áudio com a voz clonada de Simone. Na mensagem, a voz falsa dizia estar em reunião, mas confirmava que a Justiça havia dado parecer favorável ao processo.

Ao ouvir o áudio, a cliente desconfiou e entrou em contato direto com a advogada.
“Ela me ligou perguntando se o empréstimo havia dado certo”, conta a Dra Simone. “Eu respondi que não estava sabendo de nenhum empréstimo e que provavelmente se tratava de um golpe. A orientei a entrar em contato com o banco e bloquear o valor. Por sorte, o banco também percebeu a movimentação estranha e já havia bloqueado a transferência”, relata a advogada. Em seguida, a cliente registrou um boletim de ocorrência.

O alerta da advogada

Simone alerta que o golpe do falso advogado é comum, mas a utilização de voz clonada por IA torna a abordagem mais convincente e perigosa.

Simone: "Os golpistas estão cada vez mais sofisticados, com ligações de vídeo e áudios falsos
  • Simone: "Os golpistas estão cada vez mais sofisticados, com ligações de vídeo e áudios falsos (Fotos: Divulgação)

"Os golpistas estão cada vez mais sofisticados, com ligações de vídeo e áudios falsos. Eles informam falsamente o êxito em processos e solicitam pagamentos via Pix, empréstimo ou link." – Simone Makki, advogada

Simone reforça que seu escritório trabalha com contrato de honorários, onde os valores e forma de pagamento são pré-definidos com o cliente. “Não solicitamos valores por ligação, vídeo, mensagem de voz ou escrita, nem pedimos que o cliente faça empréstimo”, afirma.

Especialista em soluções antifurtos virtuais explica como se prevenir

Rafaela Helbing, especialista em crimes financeiros virtuais e cofundadora da Data Rudder, explica que os criminosos acompanham os avanços da tecnologia para aprimorar as abordagens.

 Rafaela Helbing – CEO da Data Rudder
  • Rafaela Helbing – CEO da Data Rudder (Fotos: DIVULGAÇÃO)

"À medida que surgem novos meios de pagamento e canais digitais mais rápidos, também aparecem novas formas de explorar vulnerabilidades."

Segundo a especialista, o perfil da fraude mudou. Antes, os golpes dependiam mais de invasões técnicas. Hoje, combinam engenharia social, IA e dados públicos para criar abordagens personalizadas, com falsos atendimentos, mensagens convincentes e até simulação de voz.

“Com a IA, os criminosos aumentam a escala e a precisão dos ataques. Conseguem criar mensagens personalizadas, simular conversas reais, produzir imagens e áudios falsos e automatizar tentativas de fraude”, afirma.

A especialista explica que a engenharia social continua sendo uma das principais armas dos golpistas. “Em vez de atacar apenas sistemas, os fraudadores passaram a convencer suas vítimas a entregar informações, realizar pagamentos ou aprovar transações financeiras.”

Cruzamento de dados ajuda a identificar riscos

A análise de dados auxilia na identificação de sinais de fraude. Ao cruzar milhares ou milhões de transações, é possível aos bancos detectar comportamentos que fogem do padrão esperado, como mudanças repentinas no valor das operações, horários incomuns, acessos por dispositivos desconhecidos, movimentações incompatíveis com o histórico do cliente ou relações entre contas que indicam uma possível rede de fraude.

“Além dos dados da própria transação, elas consideram o histórico de comportamento do cliente, informações do dispositivo utilizado, dados cadastrais, geolocalização, registros de autenticação e outras variáveis que ajudam a contextualizar cada operação e avaliar seu nível de risco”, revela.

Com modelos analíticos e inteligência artificial, essas informações são processadas em tempo real para calcular a probabilidade de fraude na transação financeira. Assim, as instituições bancárias conseguem priorizar os alertas mais críticos e interromper operações suspeitas antes que o prejuízo se concretiza. Foi esse tipo de monitoramento que ajudou a bloquear a transferência no caso relatado pela Dra. Simone.

A especialista lembra que redes sociais são fonte de dados que ajudam os golpistas a citar informações verdadeiras e ganhar confiança. Por isso, ela recomenda:

  1. Desconfiar de contatos inesperados, mesmo que usem nome de profissionais conhecidos
  2. Nunca compartilhar senhas ou códigos de autenticação
  3. Confirmar pedidos de transferência por outro canal oficial quando houver dúvida
  4. Verificar se sites, aplicativos e perfis são realmente oficiais antes de informar dados ou pagar  

Bancos também têm investido em sistemas antifraude que analisam histórico, dispositivo, geolocalização e padrões de comportamento em tempo real. 

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