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Estamos caminhando para a perigosa situação de não retorno (Fotos: freepig)
Nesta sexta-feira (5), é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Mas não há nada a comemorar. Enquanto o Hemisfério Sul, mais especificamente a América do Sul, se preocupa com um super El Niño — que pode trazer muita chuva para a Região Sul e seca para as regiões Norte e Nordeste —, o Hemisfério Norte enfrenta uma onda de calor sem precedentes. Em países como França, Espanha e Reino Unido, maio foi o mês mais quente da história.
Diante desse cenário, o planeta está evoluindo rapidamente para uma mudança de classificação quanto ao clima. Em vez de “emergência” ou “crise climática”, como conceituam os cientistas, caminhamos para um desastre climático.
Em artigo para o site Sou Ciência, o professor Zysman Neiman, do Departamento de Ciências Ambientais e coordenador da Cátedra Sustentabilidade e Visões de Futuro da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), alerta que a crise climática atual reflete o rompimento de 7 dos 9 limites planetários que garantem a sobrevivência da raça humana na Terra, incluindo a recente entrada dos oceanos na zona de perigo devido à acidificação das águas. Segundo o professor, além do aquecimento linear, o planeta se aproxima perigosamente de pontos de não retorno (tipping points), que podem disparar reações irreversíveis em cadeia.
Ele aponta três situações graves:
"Savanização da Amazônia: O desmatamento e o calor ameaçam transformar a maior floresta tropical do mundo em uma savana degradada, fazendo com que ela emita mais carbono do que absorve.
Colapso de Correntes Oceânicas: O derretimento do gelo na Groenlândia ameaça paralisar a AMOC (corrente do Atlântico), o que congelaria o norte europeu e desregularia as chuvas na África e na Ásia, gerando crises de fome.
Refugiados Climáticos: O Banco Mundial projeta que desastres climáticos e secas podem forçar mais de 216 milhões de pessoas a abandonar suas casas nas próximas décadas.
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O sinal mais claro da crise climática
Em 25 de maio de 2026, o Reino Unido registrou o dia mais quente de maio de sua história, com temperaturas chegando a 34,8 °C nos Jardins Botânicos Reais de Kew, em Londres, quebrando o recorde anterior em 2 °C. O país também vivenciou uma “noite tropical”, com a mínima não sendo inferior a 20 °C. No dia seguinte, 26, o recorde foi quebrado novamente, com 35 °C. A temperatura máxima média em Londres para o mês de maio gira em torno de 20 °C, ou seja, os londrinos tiveram de enfrentar uma temperatura 15 °C mais alta do que estão acostumados.
A população da Europa não está preparada para esse calor sufocante. No Reino Unido, a maioria das casas não possui isolamento térmico adequado e apenas cerca de 5% dos lares têm ar-condicionado. Um relatório divulgado pelo Comitê de Mudanças Climáticas do Reino Unido alertou que o país foi “construído para um clima que não existe mais”.
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O aquecimento global é uma realidade (Fotos: rawpixel.com)
O Reino Unido não é o único lugar que está sofrendo com o calor. Grande parte da Europa Ocidental enfrenta temperaturas entre 10 e 15 graus Celsius acima do normal. Na França também houve quebra de recorde para o mês de maio, segundo informou o serviço meteorológico Météo-France.
“Foram registradas sete mortes ligadas ao calor, incluindo pelo menos cinco por afogamento, além de mortes relacionadas ao calor extremo durante eventos esportivos”, informou Maud Bregeon, porta-voz do governo francês, à emissora francesa TF1.
O calor é um dos sinais mais claros da crise climática. Pessoas morrem por exaustão térmica, desidratação e agravamento de problemas cardiorrespiratórios, além de afogamento e acidentes à medida que buscam rios e lagos para se refrescar. Mais de 62 mil pessoas morreram de causas relacionadas ao calor na Europa no verão de 2024, o ano mais quente já registrado no planeta.
A Espanha também enfrenta “temperaturas extraordinariamente altas para esta época do ano”, segundo o serviço meteorológico AEMET, com previsão de temperaturas no sul do país chegando a 40 °C.
"A defesa do meio ambiente no Brasil segue como um projeto inacabado." – Zysman Neiman: Professor da Unifesp
O grande vilão
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O controle da emissão de gases ficou de fora do documento final da COP30 (Fotos: Freepic)
Os gases que aquecem o planeta, expelidos pela queima de combustíveis fósseis, envolvem a Terra como um cobertor, ou como se estivéssemos todos dentro de uma enorme panela de pressão. Os cientistas são unânimes em afirmar que as mudanças climáticas estão intensificando as ondas de calor extremas — e a Europa é o continente que está aquecendo mais rapidamente.
Quais medidas estão sendo adotadas?
Os debates sobre as mudanças climáticas tomam conta do planeta, porém sem se chegar a um consenso. A Conferência do Clima da ONU (COP30), realizada no Brasil em 2025, voltou a colocar na mesa os dois temas centrais para enfrentar a crise climática: o uso dos combustíveis fósseis e o desmatamento. No entanto, os mapas de caminho para pôr fim à destruição das florestas e para iniciarmos o afastamento definitivo dos combustíveis fósseis ficaram de fora da decisão final — apesar dos esforços do governo brasileiro e da presidência da conferência.
As recomendações dos cientistas para manter o mundo dentro do limite de 1,5 °C em relação ao período pré-industrial foram ignoradas no texto final da COP30. Isso porque os países que mais contribuem para o aquecimento global — e os que mais emitem hoje os gases de efeito estufa — agem para bloquear avanços essenciais. Continuam também resistindo a financiar e apoiar os países e populações mais vulneráveis, que já sofrem — e seguirão sofrendo — os impactos mais graves dos eventos climáticos extremos.
“Ao longo do próximo ano, até a COP na Turquia, esperamos que esse processo avance, ganhe força política e construa o consenso indispensável para proteger vidas, assegurar qualidade de vida e evitar novas tragédias climáticas”, afirmou o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, ao final do encontro de Belém (PA).
“O Estado brasileiro continua se movendo com a velocidade de um navio cargueiro”
“A crise ambiental não espera. Enquanto discutimos procedimentos e disputas políticas, o planeta continua esquentando, os rios secando e as florestas desaparecendo. Ou transformamos nossa maneira de fazer política ambiental, ou seremos lembrados como a geração que tinha todo o conhecimento necessário para agir, mas preferiu procrastinar até o ponto de não retorno. O momento de agir é agora — com continuidade, integração e urgência”, afirma o professor Neiman.
Segundo ele, a crise climática exige ações rápidas do governo brasileiro: “Enquanto o mundo enfrenta ondas de calor recordes, enchentes devastadoras e incêndios florestais sem precedentes, o Brasil continua patinando na implementação de políticas ambientais eficazes. Pior, vem retrocedendo em uma pauta que já foi muito mais robusta em nosso país”.
Para Neiman, apesar do atual avançado grau de conhecimentos técnicos sobre o tema e de uma legislação que se aprimorou ao longo do tempo graças à militância do movimento ambientalista brasileiro, o país ainda enfrenta três grandes obstáculos estruturais que perpetuam a crise que vivemos: a falta de continuidade nas políticas, a ausência de transversalidade entre órgãos governamentais e a lentidão burocrática diante da emergência climática.
“A defesa do meio ambiente no Brasil segue como um projeto inacabado. Décadas após sua inclusão como direito fundamental na Constituição Federal de 1988, por meio do Artigo 225, os princípios de justiça ambiental e sustentabilidade continuam a depender de circunstâncias políticas, em vez de constituírem um compromisso inegociável de Estado. É hora de confrontar os limites estruturais que comprometem a efetividade das políticas ambientais no país”, afirma Neiman.
Ele alerta que a crise ambiental não respeita fronteiras administrativas: afeta saúde, mobilidade, habitação e educação simultaneamente. Além da descontinuidade, o isolamento entre áreas do governo impede a abordagem integrada exigida pela complexidade da crise ambiental.
“A pauta ambiental é, por definição, transversal. No entanto, os ministérios e as secretarias estaduais e municipais ainda operam como ilhas, sem diálogo efetivo entre si. Enquanto mantivermos essa fragmentação, estaremos ‘enxugando gelo’”, afirma Neiman, que também culpa a burocracia letárgica por ignorar a emergência climática. “Enquanto cientistas alertam que temos menos de uma década para evitar os piores efeitos do aquecimento global, o Estado brasileiro continua se movendo com a velocidade de um navio cargueiro. Se nem as diretrizes mais elementares conseguem avançar em ritmo compatível com a urgência da crise, a confiança social nas instituições ambientais se esvai”, dispara Neiman.
Segundo ele, é necessário compreender que não há tempo para postergar decisões. “A crise climática exige respostas rápidas, baseadas em ciência e com participação social ampla e contínua. Ainda assim, estruturas administrativas operam como se houvesse margem infinita para deliberação. Projetos de lei essenciais ficam anos tramitando, licenças ambientais são emitidas sem os devidos cuidados e planos de adaptação climática sequer saem do papel. A recente flexibilização da legislação ambiental, em vez de modernizar processos, apenas enfraqueceu a proteção de nossos ecossistemas”, conclui.
"Durante décadas ouvimos que “nosso país não pode parar”, mas talvez o maior gesto de sensatez e coragem seja justamente parar. Parar para pensar. Parar de crescer sem controle, sem respeitar os limites de recuperação dos ciclos naturais. Parar de destruir os habitats de nossos animais, os rios, as florestas e bairros inteiros nas cidades em nome de um “progresso” que beneficia poucos e custa caro a todos. Parar, enfim, para construir uma sociedade que valorize a vida, o cuidado e a responsabilidade com o futuro." – Zysman Neiman: Professor da Unifesp
Orçamento baixo
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Desastres climáticos como o que aconteceu no RS em 2024 podem ocorrer com mais frequência (Fotos: GOVERNO DO RS)
Em 2025, o orçamento do Ministério do Meio Ambiente foi de R$ 3,72 bilhões, enquanto áreas como a Defesa receberam mais de R$ 120 bilhões. A lógica de priorização orçamentária não apenas ignora a gravidade da crise climática como revela um modelo de desenvolvimento ultrapassado. Esses fatores se alimentam mutuamente, criando um círculo vicioso de ineficiência. A descontinuidade impede a construção de expertise institucional, a falta de transversalidade gera soluções parciais e ineficazes, e a burocracia paralisa qualquer tentativa de resposta ágil. “O resultado é: aumento do desmatamento, colapso hídrico nas grandes cidades e tragédias anunciadas que se repetem ano após ano”, afirma o professor Neiman.
Há, porém, segundo ele, caminhos para romper esse ciclo. Primeiro, institucionalizar as políticas ambientais, tornando-as menos vulneráveis às mudanças de governo. Segundo, é urgente criar mecanismos de integração entre as diversas esferas e secretarias, com metas compartilhadas e orçamentos conjuntos. E, por fim, é preciso estabelecer prazos curtos e vinculantes para decisões sobre temas críticos, como licenciamentos e planos de adaptação climática. É preciso também dizer o óbvio: o crescimento econômico precisa ser repensado com base no desenvolvimento sustentável.
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O contro da emissão de gases ficou de fora do documento final da COP30 (Freepic)
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O aquecimento global é uma realidade (rawpixel.com)
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Desastres climáticos como o que aconteceu no RS em 2024 podem ocorrer com mais frequência (GOVERNO DO RS)
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