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Mapa do planeta sob efeito do El Niño (Fotos: WIKIPEDIA)
Previsão é de chuva acima da média para os próximos meses, o que preocupa principalmente no Vale do Itajaí
Nas últimas semanas, multiplicaram-se notícias sobre a chegada do fenômeno El Niño, oscilação climática que altera o regime de chuvas e o padrão de temperatura em várias partes do planeta. No Brasil, o fenômeno costuma provocar estiagens severas em partes das regiões Norte e Nordeste e tempestades frequentes no Sul. A Região do Vale do Itajaí é sempre uma das mais vulneráveis aos elevados volumes de chuvas. Por isso, a preocupação da Defesa Civil com os efeitos que o El Niño pode provocar em Santa Catarina.
E motivos para preocupação não faltam. De acordo com projeções mais atualizadas do Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), a partir deste trimestre – maio-junho-julho, a probabilidade de formação do El Niño supera 60%. Já no trimestre junho-julho-agosto, esse percentual sobe para 79%, e chegando a mais de 80% no trimestre julho-agosto-setembro. A partir do trimestre agosto-setembro-outubro, o CPC calcula que a chance de formação do El Niño é igual ou maior a 90%, perdendo força somente a partir de 2027.
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Defesa Civil segue monitorando o avanço do El Niño em todo o Sul do País (Fotos: SECOM/SC)
Entenda o El Niño
Maior dos oceanos, o Pacífico cobre cerca de um terço do planeta. Sua extensão é superior à de todos os continentes somados. Há pelo menos nove décadas, os cientistas vêm acumulando evidências de que flutuações naturais, de periodicidade irregular, nos ventos e na temperatura das águas superficiais do Pacífico Tropical, em especial perto da costa do Peru e do Equador, estão associadas a mudanças no regime de chuvas e secas em várias partes do globo. Essas variações constituem o que os meteorologistas denominam hoje como El Niño Oscilação Sul (Enos).
Essas flutuações apresentam três situações. Quando as águas dessa região se mantêm por mais de cinco meses seguidos ao menos 0,5 grau Celsius (ºC) mais quentes do que a média histórica, a Enos está em sua fase conhecida como El Niño, exatamente a que está provavelmente se formando a partir do mês de maio. Se elas se encontram 0,5 ºC mais frias por igual período, a oscilação está em seu estágio de La Niña, que é o fenômeno inverso ao El Niño. Caso as temperaturas permaneçam dentro da média histórica, a Enos está em seu regime neutro.
Fórum Climático debate o fenômeno e seus efeitos
Durante o 241º Fórum Climático Catarinense, que reuniu meteorologistas e pesquisadores da Secretaria da Proteção e Defesa Civil de SC, da Epagri/Ciram, do AlertaBlu, do IFSC e da UFSC o assunto El Niño foi amplamente discutido. “É importante destacar que um El Niño forte não implica, necessariamente, na ocorrência de eventos extremos. No entanto, a atmosfera fica mais favorável à ocorrência desses eventos”, afirma a meteorologista Nicolle Reis, da Secretaria da Proteção e Defesa Civil de Santa Catarina.
O que esperar nos próximos meses
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A tendência é um volume alto de chuva e muita nebulosidade nos próximos meses (Fotos: DIVULGAÇÃO SECOM/SC)
Para os próximos meses, a tendência é de mudança gradual no clima. Em maio, as chuvas seguem irregulares e com volumes ainda abaixo do esperado para o período, mesmo com a passagem frequente de frentes frias e ciclones extratropicais.
A virada de tempo se torna mais evidente a partir de junho, com aumento da frequência de instabilidades em todo o estado. Em anos típicos, os acumulados para junho e julho variam entre 100 e 150 milímetros na maior parte das regiões, superando esse patamar no Grande Oeste. Para este ano, as previsões indicam chuvas mais frequentes e temporais mais intensos, com volumes que podem ultrapassar esses valores em grande parte do território catarinense.
Santa Catarina adota medidas preventivas
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Barragem de Ituporanga passou por investimentos em 2025 (Fotos: Reprodução/SECOM GOVSC)
A partir deste mês de maio ocorrerá um declínio gradual das temperaturas com as primeiras incursões de massas de ar frio. Junho tende a ser um dos meses mais rigorosos, com mínimas abaixo de 10°C frequentes e máximas próximas dos 20°C. Ao longo deste trimestre, entretanto, os episódios de frio devem ser menos frequentes do que o habitual para uma estação como o outono.
Diante do cenário previsto de El Niño, a Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil intensificou as ações de prevenção, que poderão minimizar os efeitos do El Niño em todo o território catarinense. O Vale do Itajaí, região mais afetada pelo fenômeno em 2023, conta ainda com três barragens de contenção de cheias em condições de operação. Segundo a Defesa Civil, a Barragem Sul, em Ituporanga, passou por revitalização completa, com substituição de equipamentos, modernização e automação do sistema de acionamento.
A rede de monitoramento também foi expandida e conta atualmente com 172 estações meteorológicas e hidrológicas distribuídas pelo território catarinense, além de quatro radares em operação. O quadro técnico foi reforçado com a ampliação de 25% na equipe de meteorologistas e a incorporação de um profissional ao serviço de previsão hidrológica. Coordenadores regionais participaram de treinamentos em Sistema de Comando em Operações e gestores municipais receberam formação em Gestão de Desastres.
Agricultura sente o maior impacto
O El Niño impacta sobremaneira na agricultura e de formas distintas, agravando a estiagem e o risco de perdas em culturas de sequeiro nas regiões Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste e Sudeste, enquanto favorece o excesso de chuvas na Região Sul.
O elevado volume de chuva provoca o encharcamento do solo, favorecendo doenças fúngicas e dificultando as operações no campo, com efeitos particularmente severos sobre os cereais de inverno, como o trigo. Ainda assim, a intensidade desses impactos depende da força do fenômeno e da interação com as condições térmicas dos oceanos Atlântico e Índico.
Culturas de inverno sofrem mais
Para as culturas de inverno, como alho e cebola – em sua maioria irrigadas – o excesso de chuvas pode ocasionar problemas fitossanitários, resultando em aumento nos custos de produção em função da necessidade de mais pulverizações com fungicidas, bem como problemas com erosão do solo decorrentes de enxurradas, que para regiões de maior declividade, como o Vale do Itajaí, podem trazer prejuízos econômicos significativos aos produtores.
Para os cereais de inverno, com destaque para a cultura do trigo, a preocupação de técnicos e produtores rurais é com a previsão de excesso de chuvas para os meses de outubro e novembro, período que coincide com as fases de maturação e colheita da cultura.
Culturas de verão também podem ter prejuízos
Segundo o analista de socioeconomia e planejamento agrícola da Epagri/Cepa, Haroldo Tavares Elias, a condição de chuva entre próxima e acima da média climatológica esperada para as regiões catarinenses nos próximos meses pode favorecer o cultivo de milho e desenvolvimento de pastagens nativas e cultivadas, se bem distribuídas ao longo da primavera. “Lembrando que nos últimos três anos tivemos períodos de estiagem prolongada, em especial no Extremo Oeste de Santa Catarina e na região do Vale do Rio Uruguai”, diz.
Ele explica que as regiões de Chapecó e São Miguel do Oeste concentram cerca de 50% da área cultivada de milho para fins de silagem em Santa Catarina. “Nessas regiões, o zoneamento agroecológico estabelece o cultivo favorável a partir de agosto e setembro. É importante salientar que o milho silagem é a base da alimentação para produção leiteira”, frisa o analista.
Ele lembra que o milho é uma cultura que demanda muita água, mas também é uma das mais eficientes no uso desse recurso. “Uma variedade de ciclo médio cultivado para a produção de grãos secos consome de 500 a 700 mm de água em seu ciclo completo, dependendo das condições climáticas", observa Haroldo.
O analista explica que período de máxima exigência é na fase do embonecamento ou um pouco depois dele, por isso déficits de água que ocorrem nesse período são os que provocam maiores reduções de produtividade. "Déficit anterior ao embonecamento reduz a produtividade em 20 a 30%; no embonecamento em 40 a 50% e após em 10 a 20%”. Haroldo reforça que a extensão do período de déficit hídrico também é importante, pois foi o que afetou de maneira importante a produção em 2021 e 2022 no Estado.
Arroz pode ser prejudicado pelo excesso de chuva
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O excesso de chuva pode prejudicar o período de semeadura do arroz irrigado (Fotos: ARQUIVO JORNAL METAS)
Dependendo da intensidade, o El Niño pode afetar negativamente a cultura do arroz irrigado, hoje a base da agricultura de Gaspar e outros municípios da região do Vale do Itajaí. O excesso de chuvas previsto para trimestre agosto-setembro-outubro dificulta a semeadura, aumentando a nebulosidade e reduzindo a radiação solar, o que prejudica o desenvolvimento da planta e reduz a produtividade.
Fatores relevantes de perdas
O excesso de umidade na Primavera impede a entrada de máquinas no campo, forçando o atraso da semeadura. A alta nebulosidade reduz a fotossíntese, afetando a fase reprodutiva da planta. Aumentam as chances de doenças fúngicas em função do clima úmido e quente, elevando custos com fungicidas. E, por fim, os riscos de enchentes, que podem causar inundações, resultando em perdas físicas da lavoura.
A soja
O período preferencial de cultivo da soja se inicia em outubro. Essa espécie é mais resistente a períodos curtos de estiagem. “Caso ocorra excesso de chuvas durante o ciclo de desenvolvimento, poderá ocorrer doenças fúngicas em maior intensidade e elevar os custos de produção em virtude da aplicação de fungicidas e outros agroquímicos”, observa o analista.
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Defesa Civil segue monitorando o avanço do El Niño em todo o Sul do País (SECOM/SC)
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A tendência é um volume alto de chuva e muita nebulosidade nos próximos meses (DIVULGAÇÃO SECOM/SC)
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O excesso de chuva pode prejudicar o período de semeadura do arroz irrigado (ARQUIVO JORNAL METAS)
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Barragem de Ituporanga passou por investimentos em 2025 (Reprodução/SECOM GOVSC)
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