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O exercício da partilha deve substituir o consumo de alimentos que nos dão prazer (Fotos: Freepik)
Para os católicos existe diferença entre os dois atos, porém, a Igreja reforça que abrir mão de alimentos que nos dão prazer precisa ser revertido em um gesto de partilha com os mais necessitados
O período que sucede o Carnaval marca, para milhões de católicos ao redor do mundo, o início de uma jornada de 40 dias de introspecção. Conhecida como Quaresma, essa fase não é apenas um registro no calendário litúrgico, mas um tempo de reflexão que remete a passagens bíblicas centrais, como os 40 anos de Moisés rumo à Terra Prometida e os 40 dias de Jesus no deserto.
De acordo com a doutrina católica, a prática do jejum tem uma série de objetivos para a vida de quem a adota. Na Quarta-Feira de Cinzas, quando a Quaresma começa oficialmente, uma das palavras lidas nas celebrações religiosas é justamente “ordenai um jejum” (cf. Jl 1,14).
Essa é, por exemplo, uma forma de se solidarizar com a prisão, tortura e crucificação de Cristo. Por isso, muitos católicos costumam fazer algum tipo de jejum até mesmo fora do período da Quaresma, normalmente abdicando de um ou mais tipos de alimento ou passando determinados períodos do dia sem se alimentar.
A tradição de evitar a carne vermelha, especialmente na Sexta-Feira Santa, é fundamentada no respeito ao sacrifício de Cristo. Luzia Martins, coordenadora pedagógica para escolas confessionais conveniadas ao Sistema Positivo de Ensino,, explica que a renúncia tem um caráter educativo para a alma.
“A renúncia da carne nos lembra de que é o Espírito que vivifica a carne, não o contrário. É um exercício material e concreto para lembrar o homem de sua relação com o Sagrado”. Historicamente, a carne vermelha era associada a banquetes e celebrações; ao abdicar dela, o fiel escolhe a simplicidade e a humildade.
Jejum x Abstinência
O Código de Direito Canônico (Cân. 1251) estabelece normas claras, mas que ainda geram dúvidas entre os praticantes. No vocabulário da Igreja, há uma distinção técnica entre abstinência e jejum.
Abstinência é a privação de carne (vermelha ou aves), obrigatória para fiéis acima de 14 anos em todas as sextas-feiras da Quaresma. Já o jejum é a redução da quantidade de comida (geralmente uma refeição completa e duas leves), obrigatório apenas na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa para adultos entre 18 e 59 anos.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) permite certa flexibilidade. O fiel pode substituir a abstinência de carne por atos de caridade, obras de piedade ou abdicar de alimentos que lhe cause prazer, como doces, café ou álcool.
Oração, Jejum e Esmola
O “Tripé” Quaresmal é formado por oração, Jejum e Esmola. Para a doutrina cristã moderna, o jejum isolado corre o risco de se tornar apenas uma prática externa ou estética.
O sentido pleno da privação está conectado à esmolaA Igreja reforça que o “jejum que agrada a Deus” é aquele que resulta em justiça social. Se um fiel deixa de consumir um produto caro ou pula uma refeição, o valor poupado deve, idealmente, alimentar quem tem fome. Dessa forma, o jejum deixa de ser um sacrifício individual para se tornar um gesto comunitário de amor e partilha, preparando o espírito para a celebração da Páscoa — a vitória da vida sobre a morte.
O significado do peixe
A Igreja Católica não obriga o consumo de peixe A regra oficial é a de abstinência de carne de animais de sangue quente (mamíferos e aves). O peixe entrou na tradição por ser considerado um alimento “pobre” e “frio” em séculos passados, contrapondo-se ao luxo das carnes vermelhas. No entanto, muitos fiéis e comunidades mais rígidas levam o preceito além, optando por não comer nem carne, nem peixe. Nesses casos, a dieta da Sexta-Feira da Paixão baseia-se estritamente em pães, grãos e vegetais, buscando o máximo de sobriedade em sinal de luto pela morte de Jesus.
Alguns apóstolos de Cristo eram pescadores e os primeiros cristãos já incluíam o peixe entre os símbolos das suas crenças. Antigamente, como sinal de esperança na fé em Jesus, os primeiros cristãos costumavam presentear uns aos outros com peixes.
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