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(Fotos: Pedro Paulo F. Schmitt/JM)
“Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único”. As seis liras, em harmonia, tocam “Imagine”.
A música, ou um hino à vida como preferem os fãs do ex-Beatle John Lennon. A canção fala de sonhos, sendo tocada por um grupo que sonha um dia crescer.
O projeto de musicalização com teclas iniciou no ano passado, a partir da ideia do professor Felipe Corrêa Santiago. O número de pessoas do grupo é limitado a seis, porque existe a disponibilidade de apenas seis liras - emprestadas pela fanfarra da escola Norma Mônica Sabel, que não estava usando os instrumentos por seguir agora um modelo de fanfarra de percussão sem lira. O grupo dá os primeiros passos, com os olhos no futuro e sem tirar da cabeça seu maior sonho: tornar-se uma orquestra de teclas. No entanto, sem mais instrumentos é impossível atingir esse objetivo. Felipe destaca que há crianças esperando por mais liras para também participar do projeto.
Para tentar um apoio financeiro, Felipe inscreveu o projeto no edital do FIA - Fundo da Criança e do Adolescente. Ele afirma que o edital constava que tanto órgãos públicos quando organizações não-governamentais poderiam se inscrever para tentar receber recursos do fundo. A resposta, negativa, chegou, com o argumento de que o grupo é governamental (faz parte do Departamento de Cultura) e, portanto, o município deveria arcar com os custos. O departamento oferece a sala em que o grupo ensaia toda semana, paga o professor e conseguiu o empréstimos das liras. Felipe aguarda agora uma iniciativa do Departamento de Cultura para poder ampliar o grupo. “Procura tem, o que não temos são instrumentos. Sem o incentivo financeiro, ficamos sem a possibilidade de crescer”, afirma o professor.
O grupo é formado por cinco adolescentes e a mãe de uma das alunas que assistiu a um ensaio e se apaixonou pelo som das liras. “A musicalização traz muitos benefícios, entre eles eu poderia citar a inclusão social e a ampliação de repertório”, argumenta Felipe. O grupo de musicalização costuma se apresentar em eventos do Departamento de Cultura e toca desde MPB, pop estrangeira até música erudita. A ideia do professor é que o número de músicos e instrumentos amplie, formando uma orquestra que explore a família de teclas de madeira e metal. Além das liras, há uma marimba, comprada pelo Departamento de Cultura há quase dois anos, quando foram adquiridos instrumentos para as fanfarras de Gaspar. No entanto, a marimba veio desafinada e precisa ser mandada novamente para a fábrica. Para formar uma orquestra de teclas completas, além de uma marimba com a afinação correta, seria necessário um xilofone sinfônico, um metalofone sinfônico e um glockenspiel.
Um som diferente
Karolayne Espíndola, 11 anos, é a responsável por tocar as primeiras notas da música “Rolling in the deep”, da inglesa Adele. Aos poucos, as notas das outras liras se juntam e assim todos os tons da música se completam. Ela entrou no grupo em março deste ano, depois que seu amigo, Bruno Diego da Silva, a chamou para participar. “É um instrumento com um som diferente, feito de teclas. Eu sempre via a lira nas fanfarras que participam dos desfiles cívicos e achava o instrumento mais legal. Quando vim para o grupo, treinei muito, pois queria muito aprender a tocar este instrumento”, conta a menina.
Sua dedicação em aprender fez com que ela hoje faça parte também da fanfarra de sua escola, Zenaide Schmitt Costa. Ela comentou que conhece mais pessoas que gostariam de participar do grupo de musicalização, porém a quantidade limitada de instrumentos as impede. Karolayne gosta das músicas escolhidas para o repertório, das aulas e de poder trabalhar em equipe.
A única adulta do grupo é a mãe de Karolayne, Alessandra Espíndola, de 34 anos. Ela conta que sempre gostou de música, o que costuma usar bastante em seu trabalho na Educação Infantil. Para ela, a música tem poder transformador, sendo benéfica tanto para o trabalho quanto para outros aspectos da vida, o que faz a pessoa interagir e viver melhor. “No começo foi difícil aprender a tocar a lira. Fiquei apavorada na primeira aula, então vi que somos nós mesmos que colocamos obstáculos na nossa frente. Aprende-se com esforço e disciplina e, quando a música sai perfeita, é uma felicidade”. O som das teclas das liras já é suficiente para mostrar a Alessandra que o obstáculo foi superado.
Instrumento
John Lennon Barbosa, de 16 anos, é mais um dos integrantes do grupo trazido por Bruno. Aliás, quase todo o grupo é formado por amigos, que moram em local próximo e que foram levados ao grupo pelo aluno. John Lennon tocou na fanfarra da escola Zenaide Schmitt Costa por cinco anos, porém, quando passou para o ensino médio começou a estudar no Frei Godofredo. Ele conta ter ficado feliz por encontrar um local para tocar. O próprio grupo e as músicas são o que o garoto mais gosta durante os ensaios de quinta-feira.
Tocar lira foi algo que Bruno Diego da Silva, de 16 anos, sempre quis. Ele não chegou a tocar o instrumento na escola, mas ao entrar para o projeto de musicalização pode realizar este desejo. Ele se encantou pela lira e convidou os amigos para participar também. “Gostaria de poder chamar mais gente ainda”, conta o garoto, que sonha em ver a orquestra formada. Quem lhe contou sobre o projeto foram duas amigas que faziam parte, porém abandonaram para se dedicarem exclusivamente à fanfarra. No grupo de musicalização, todos se conhecem e uma forte amizade já se firmou.
“É um instrumento com um som diferente, feito de teclas. Sempre quis tocar” Karolyne Espíndola
“Fico feliz em poder encontrar um local onde possa tocar um instrumento”. John Lennon Barbosa
“Gostaria de chamar mais gente para tocar lira”. Bruno Diego da Silva
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