O primeiro deles mora sob a pele, entre o que escolho mostrar ao mundo e aquilo que silenciosamente me habita. É um território feito de lembranças, medos, desejos, cicatrizes e pequenas esperanças que insistem em florescer mesmo nas estações mais secas da vida. Carrego um mundo secreto dentro de mim, com fronteiras móveis, guerras íntimas e seus raros acordos de paz. Estou aqui depois de muitas batalhas íntimas.
Vivo cercado por exteriores que disputam nossa atenção: fachadas, vitrines, perfis, discursos. Mas a vida verdadeira acontece nos bastidores do corpo. É ali que amadurecem as perguntas que ninguém ouve e nascem as respostas que mudam destinos.
Talvez por isso os interiores das cidades me fascinam tanto. Há algo familiar nas ruas menos apressadas, nas casas de portas abertas, nos lugares onde as pessoas ainda conhecem os nomes umas das outras. Os interiores geográficos parecem guardar uma memória do que fomos antes da velocidade transformar tudo em passagem. Minha rua de infância mudou, minhas memórias dela, não. Ainda piso no chão de terra e minhas mãos cheiram a bergamota roubada do vizinho e o dedão do pé dói quando penso em jogar bola nas pedras da rua. Também as casas onde morei possuiram seus interiores reveladores. Uma estante desarrumada, uma mesa marcada pelo tempo, uma fotografia esquecida sobre um móvel dizem mais sobre uma vida do que muitos discursos. Os objetos contam histórias quando as pessoas silenciam. Tenho um lenço deixado na minha casa pela mãe amada, tenho um livro rasgado e esquecido pelo filho que cresceu, tenho uma folha rabiscada com as primeiras letras do filho que hoje lê deitado na rede. E há, ainda, os interiores invisíveis das relações que tenho e tive. Toda amizade, todo amor, toda família possui cômodos que só quem permanece por tempo suficiente aprende a conhecer. Existem corredores de afeto, quartos de silêncio e janelas de compreensão que levam anos para se abrir. É disso que somos feitos afinal, a vida dá lições de serenidades.
Talvez a maturidade seja isso: aprender a visitar interiores sem a arrogância de quem chega para julgar. O nosso e o dos outros. Com serenidade. Porque o mundo anda cheio de especialistas em superfícies. Mas a existência continua acontecendo em profundidade mesmo que o algoritmo continue produzindo padrões em cada um desses cômodos da vida. No fim, cada um de nós carrega um lugar que passa a vida tentando conhecer. Alguns passam por ele às pressas. Outros decidem entrar. E nunca mais enxergam o mundo da mesma maneira.

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