Sempre gostei de ouvir histórias. Talvez por isso tenha escolhido estudar a memória. Não apenas aquilo que o cérebro arquiva, mas o modo curioso como ele decide o que merece permanecer. A ciência explica sinapses, consolidação, esquecimento. Mas há algo que escapa aos laboratórios: a necessidade humana de voltar ao passado para continuar existindo no presente.
Foi assim que comecei a entender por que tantos idosos repetem as mesmas histórias. Minha velha mãe, antes de partir, contava a mesma história 5 vezes em um dia. À primeira vista, parecia apenas um hábito. Um disco riscado. Um detalhe que se repete à mesa do almoço, na sala de espera ou durante uma visita de domingo. Mas, quando prestei atenção, percebo que nenhuma história era repetida por acaso. Ela é uma ponte. Uma tentativa delicada de atravessar a distância entre o que ela viveu e quem ainda pode ouvi-la. Eu ouvi ( e ouço) muitas velhas novas histórias. O verdadeiro peso da velhice raramente está nos joelhos cansados ou nas mãos que já não obedecem com a mesma precisão. O que pesa é o silêncio. Os amigos vão partindo um a um. Os vizinhos mudam ou morrem. O telefone toca menos. Os dias ficam compridos demais para quem passou a vida inteira cercado de gente.
Então a memória assume um papel que vai além da lembrança. Ela se transforma em morada. Quando um idoso conta, pela décima vez, como conheceu o amor de sua vida, como atravessou uma enchente ou como criou os filhos com tão pouco, talvez não esteja tentando impressionar ninguém. Está apenas voltando a um lugar onde ainda era indispensável. Onde seu nome era chamado. Onde sua presença fazia diferença. Cada repetição é uma forma de dizer: Eu estive aqui. Minha vida aconteceu.E, mesmo percebendo o cansaço nos olhos dos mais jovens, muitos continuam contando. Porque existe uma esperança silenciosa de que alguma palavra encontre abrigo em outra memória. Que alguém carregue adiante aquilo que o tempo insiste em apagar.
Vivemos celebrando a longevidade como quem exibe um troféu, mas esquecemos de cuidar da solidão que frequentemente vem junto com ela. Exaltamos a velocidade, a novidade, o brilho instantâneo. Perdemos a paciência para o tempo lento, justamente o tempo em que as histórias respiram.Talvez por isso os idosos sejam as últimas bibliotecas que ainda falam. Cada ruga guarda um capítulo. Cada pausa esconde um aprendizado. Cada repetição protege uma lembrança que teme desaparecer para sempre. Ouvir um idoso não é apenas um gesto de educação. É um encontro entre tempos diferentes. É impedir que uma vida inteira se transforme em silêncio. Porque, no fim, todos nós desejamos a mesma coisa: que, quando nossas histórias começarem a se repetir, ainda exista alguém disposto a escutá-las como se fosse a primeira vez. O contrário do esquecimento não é a memória. É alguém disposto a ouvir. Quer uma dica:
Dê uma espiada no livro Mesma nova história de Everson Bertucci, Mafuane Oliveira e Juão Vaz. Editora Peirópolis.

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