O brasileiro descobriu uma tragédia moderna: trabalhar menos talvez obrigue muita gente a conviver consigo mesma.
Durante anos, a jornada 6x1 vendeu a ideia de que cansaço era virtude.
A pessoa acordava antes do sol, enfrentava ônibus lotado, oito horas de trabalho (às vezes dez) e voltava para casa com energia suficiente apenas para duas coisas: reclamar da vida e assistir alguém ensinando “como ficar milionário antes dos 30” em vídeos de 45 segundos. A leitura? Ficava para “quando sobrasse tempo”. Uma entidade folclórica brasileira, ao lado do dinheiro no fim do mês e da promessa de entrega da transportadora.
Mas agora surge um detalhe inconveniente nessa discussão sobre o fim da escala 6x1: o que acontece quando o trabalhador finalmente recupera algumas horas da própria vida?
Talvez ele descubra que não desaprendeu a ler. Apenas desaprendeu a parar.
Os números ajudam a contar essa história. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024 mostrou que apenas 47% dos brasileiros podem ser considerados leitores. Pior: 53% não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. O país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores em quatro anos.
E há um dado particularmente cruel: a principal justificativa para não ler é “falta de tempo”.
Veja a ironia. O mesmo país que transforma café em combustível emocional e chama exaustão de “correria” também cobra pensamento crítico, criatividade e qualificação profissional. Queremos inovação de pessoas que mal conseguem terminar um capítulo antes de dormir sobre o celular. Não se trata de romantizar livros. Ninguém vira filósofo automaticamente porque comprou um clássico na promoção. Há gente que usa Dostoiévski apenas como apoio para notebook. O ponto é outro. Leitura exige um recurso que a escala 6x1 sequestra diariamente: disponibilidade mental.
Ler é um ato estranho no século da pressa. Você senta, silencia o mundo e passa vários minutos ouvindo uma única voz sem interrupções, anúncios ou dancinhas explicativas. Para muita gente, isso já parece quase subversivo. Talvez o debate sobre jornada de trabalho nunca tenha sido apenas sobre descanso. Talvez seja sobre recuperar aquilo que o excesso de trabalho também rouba: curiosidade, imaginação, repertório e até capacidade de atenção.
Porque um país que não tem tempo para ler acaba terceirizando suas ideias. E isso nunca termina bem.

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