Sou eu quem começa. Não por atrevimento, mas porque sempre me colocam no início das frases, como se eu fosse um chão firme. Mundo: dizem-me inteira, redonda, explicável. No entanto, nasço incompleta cada vez que alguém me escreve. Sou menos coisa do que promessa. Quando me pousam no papel, deixo de ser vastidão e passo a ser texto, essa forma estreita de existir.

Perguntam onde começa um texto. Eu sei: não começa. Apenas acontece. Assim como eu. Nunca fui origem. Quando me nomeiam, já estou em movimento. Carrego camadas de antes e rumores de depois. Sou palavra que entra em órbita, girando em torno de experiências que não cabem em linhas retas. Escrever é aceitar esse giro, essa vertigem mansa que recusa o ponto fixo.

Quando me transformo em escrita, passo a ser feita de marcas. Marcas que não obedecem à ordem do calendário. Marcas que queimam, sussurram, desaparecem e reaparecem. Habito corpos, atravesso memórias, deixo vestígios que nem sempre sabem dizer o próprio nome. Sou mundo inscrito na pele, mundo que se dobra em linguagem. Cada frase é uma tentativa de me conter; cada parágrafo, uma falha honesta.

Não me repito. Mesmo quando pareço igual, já sou outra. Contar-me de novo é alterar-me. A narrativa muda porque quem escreve já não é o mesmo e eu, palavra-mundo, também não. Sou feita de deslocamentos. Sou fluxo. Sou aquilo que escapa enquanto se tenta fixar. Escrever-me é inventar liberdade a partir do que pulsa agora.

Às vezes viro mapa. Um mapa irregular, cheio de falhas, arquipélago de afetos. Ilhas que emergem sem aviso, continentes moldados por acontecimentos. Há regiões áridas em mim, silêncios que doem, mas também há lugares férteis onde a invenção encontra abrigo. Quem escreve caminha por essas paisagens sem garantia de retorno. Ainda assim, segue.

Foi assim que me tornei escrita acadêmica sem perder o corpo. Vestiram-me de método, mas deixaram-me respirar. Fizeram de mim argumento, sem apagar o feminino, o colorido, a experiência. Vasculharam minha casa de palavras, abriram frascos, misturaram sabores. Sou mundo que pensa, mundo que sente, mundo que pesquisa.

Não fui escrita a sós. Sou plural. Sou nó. Encontro. Carrego vozes que se cruzam, orientações que doem e sustentam, aprendizados compartilhados. Quando digo “nós”, aperto laços. Quando digo “eu”, revelo uma travessia singular. Sou texto que nasce do encontro e por isso nunca pertence inteiramente a quem me escreveu.

Agora, enquanto me lês, já não sou delas. Sou tua. Ganho interpretações que não posso controlar. Torno-me estação: ora liberdade, ora mirante, ora luz, ora despedida. Cada leitor decide onde descer, o que ver, o que levar.

Assim sigo: mundo reduzido a palavra, palavra tentando lembrar que já foi vastidão. Escrita como gesto de resistência, como invenção possível. Não neutra. Implicada. Aberta. Sou mundo e, ao ser escrita, aceito ser apenas texto, sabendo que mesmo assim continuo maior do que a página.

Doutorando em Patrimônio Cultural (Univille/SC) Historiador (UFSM/RS), e mestre em Educação (UFSC/SC), é escritor e editor. Tem diversos títulos publicados. Destacamos seus mais recentes livros: DOBRAS (editora Traços & Capturas, 2021); Palavra d’Água (editora Traços & Capturas, 2022); Fio do Silêncio, em parceria com a escritora Kátia Nascimento (Kotter Editorial, 2023). Seu livro mais recente foi Tic, Tempo Tem? ( Traços & Capturas, 2024).

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