Ao contrário da década de 70, quando havia seis casas na rodovia Ivo Silveira
Ao contrário da década de 70, quando havia seis casas na rodovia Ivo Silveira
Uma fase peculiar da história dos bairros Barracão e Bateias foi a das boates que se instalaram à beira da rodovia Ivo Silveira nos anos 70. Durante muito tempo a região ficou conhecida por concentrar muitos desses estabelecimentos, cujo produto principal eram bebidas e mulheres. Houve um época em que os bairros chegaram a ser o endereço de seis ou mais casas assim. Hoje, restam apenas duas pequenas boates.
Nomes como Bataclan, Caera e Casarão ganharam fama na cidade. As boates atraíam pessoas de toda a região, além da própria Gaspar, e renderam muito dinheiro para seus proprietários. "Com o dinheiro que ganhei naquela época, poderia ter comprado metade de Gaspar", revela Manoel Dorval da Silva (foto acima), primeiro proprietário da mais famosa casa da cidade, o Bataclan.
Segundo Maneca, como é conhecido, as boates chamaram atenção por serem novidade na região. A primeira casa foi criada em 1968 por Osni da Luz, e chamava-se , curiosamente, Salário-Mínimo. Em 1974, Maneca, inspirado por um amigo, abriu o seu estabelecimento. O nome foi inspirado em uma novela que passava na época, onde havia uma boate de luxo chamada Bataclan. Maneca pegou emprestado o nome e o estilo. Em quatro anos, o Bataclan já possuía uma estrutura com bar, piscina, sala reservada, salão para baile, shows com música ao vivo e mais de 50 prostitutas.
Maneca sempre escolheu as mulheres que trabalhariam para ele. Mas garante que nunca precisou procurar, elas próprias se "candidatavam". A rotatividade era grande, poucas mulheres ficaram na boate por muito tempo. Todas as mulheres que trabalhavam no Bataclan também moravam lá. Nos fundos da boate, havia uma construção de dois pisos com vários apartamentos. Com o dinheiro que ganhavam nos programas, as mulheres mobilizavam suas moradias. "Tinha mulher que chegava a faturar o que hoje seriam R$ 15 mil por mês", conta Maneca.
A região do Barracão foi escolhida justamente por ser uma região central e de passagem para outros municípios. Era próxima de Gaspar, Brusque, Blumenau, Guabiruba e entre outras cidades. Mas, os frequentadores mais assíduos da casa eram os arrozeiros locais. "Tinha gente que vinha todos os dias", lembra Maneca. Outros chegavam a passar até três dias seguidos lá dentro. A boate funcionava de terça a domingo. Neste dia, havia bailão e o expediente terminava mais cedo. "Muitos homens vinham com as esposas, pra dançar e tomar cerveja nos bailões que a gente fazia", conta.
Maneca administrou a casa até 1978, quando resolveu arrendar para o irmão. Para ele, o negócio tornou-se desgastante, pois era quem abria e fechava a casa. "Naquela época eu ganhei muito dinheiro, mas hoje vivo muito melhor", compara e garante não sentir saudade daquele tempo. "O único ponto positivo foi que aprendi a lidar com todo o tipo de pessoa", observa Maneca.
Depois do Bataclan, surgiram outras boates nas redondezas, como o Caera, em 1976, o Casarão, em 1978, e mais tarde o Recanto dos Boêmios. O irmão de Maneca deixou o Bataclan e abriu em Brusque outra casa noturna, chamada Monteverde, que hoje se destaca como a maior boate da região. Maneca vendeu o Bataclan e os novos donos a administrataram até a década de 90, quando fechou em definitivo as portas. Hoje, o terreno voltou a pertencer à família de Maneca. O filho pretende demolir o prédio e construir ali a sua residênciauma casa para si.
Casa Verde é uma das poucas boates que ainda mantém as portas abertas
Volnei Zeitz é o proprietário de uma das duas boates que ainda existem à beira da rodovia Ivo Silveira. No ramo desde 1986, com sua Casa Verde, Volnei chegou a participar dos tempos áureos das casas noturnas, na mesma época em que seu irmão Valmir era o dono do Recanto dos Boêmios. Segundo ele, naquele período eram feitas grandes festas, verdadeiros bailões, com música ao vivo. Os pátios viviam cheios de carro e era preciso contratar até segurança para o estacionamento.
Hoje, isso não acontece mais. "Colocamos música mais baixa, até porque não queremos incomodar os vizinhos. É tudo bem mais tranquilo", compara. Agora, já existem moradores nas redondezas, que antes era ocupada apenas por boates. Mas, segundo Volnei, o convívio é pacífico. Na sua boate trabalham três mulheres, que também moram ali. Dependendo do movimento, Volnei contrata outras mulheres para trabalharem por noite. "Pago comissão a todas elas e o meu lucro vem das bebidas que vendemos", explica.
Na época áurea das boates, Volnei chegava a vender 50 caixas de cerveja por noite e a boate recebia mais de 30 mulheres. Atualmente, esse número não passa de cinco. Também era mais difícil lidar com os clientes. "Eles achavam que podiam fazer o que bem entendiam com as mulheres só porque estavam pagando", diz Volnei. Agora, ele observa que as mulheres de programa são mais respeitadas pelos clientes.
Volnei já presenciou muitas histórias, como a de um cliente que gastou todo o dinheiro de uma rifa de igreja com mulheres e bebidas no seu estabelecimento. Alguns casos são trágicos. "Um rapaz passou uma noite aqui e gastou todo o dinheiro que tinha ganho com a venda de uma moto. Durante a noite, ele se matou", recorda o empresário.
A Casa Verde funciona de terça a domingo, abre ao meio-dia e só fecha as portas de madrugada. "A boate é frequntada por homens de mais de 30 anos, na maioria, de Gaspar, Brusque e Guabiruba", revela Volnei.
Antigamente, segundo ele, o público era mais jovem. Segundo Volnei, o que acabou com as outras casas que existiam no bairro foi o envolvimento com drogas. "As casas que ficaram de pé foram as que não misturaram as coisas", acredita o empresário.
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