Um ano depois, as marcas da tragédia se apagam
Um ano depois, as marcas da tragédia se apagam
Um ano após a tragédia climática e ambiental que atingiu o Vale do Itajaí, aos poucos, as marcas se apagam. Seguramente serão necessários muitos anos para que a vegetação cubra novamente todas as encostas dos morros. O interior do município, conhecido por suas belezas naturais, atrai hoje muito mais a curiosidade das pessoas pela dimensão da tragédia.
Trafegar de carro pelas estradas do Arraial já não é mais um desafio. De um modo geral, os acessos estão em boas condições e a despeito das chuvas fortes que sempre trazem lembranças e apreensão, os moradores aprendem a viver com o perigo ao lado.
O maior problema dos agricultores é recuperar a renda que já não era das maiores antes da tragédia. Outra dificuldade enfrentada é a falta de apoio dos governos que exigem uma série de garantias para empréstimos financeiros.
Aníbal da Silva (foto ao lado), 74 anos, perdeu 10 mil pés de palmito e não tem esperança de voltar a plantar. A terra que desceu do morro junto com a plantação, ele havia comprado do irmão quatro meses antes pelo valor de R$ 200 mil. Aníbal olha para o morro ou o que sobrou dele e não sabe exatamente o que vai fazer. Ou melhor, sabe: absolutamente nada enquanto não quitar as dívidas. “O banco não perdoa nada”, lamenta o agricultor que já tomou uma decisão. “Daqui para frente não pago mais nada”. Aníbal está cansado e proibido de trabalhar em função de uma doença. Os filhos é que cuidam da lavoura de 50 mil pés de cana numa área não atingida pelos deslizamentos de terra. É da cana que vem a principal renda da família. Aníbal e os filhos produzem 15 mil litros de cachaça por ano, mas nos primeiros meses pós-tragédia não venderam um único litro até porque o acesso ao Arraial estava interrompido (foi a última estrada a ser liberada). A lagoa de peixes, ele desmanchou com receio que a água pudesse levar mais um pedaço do seu terreno. “Vou fazer uma horta no terreno”, revela.
A volta
O drama da família Silva é maior. Na casa ao lado, a filha Ana Cecília Borges passou a morar com os dois filhos desde a tragédia. Viúva há dois anos, ela vivia no Alto Baú, em Ilhota – uma das regiões mais atingidas pela tragédia. Ana diz que gostava muito do Alto Baú, mas tem medo de voltar para lá. Um dos filhos enfrenta problemas de saúde. Ela perdeu a casa que havia construído em cima do terreno do cunhado. “Preciso me adaptar à nova realidade”, diz ela conformada com a volta ao Arraial. Ana está na fila para ganhar uma casa, mas até agora não foi chamada e não alimenta a esperança que isto aconteça tão cedo.
“Temos muita saudade e tristeza pela ausência do nosso filho, mas por outro lado precisamos levantar a cabeça por que temos duas filhas para criarmos”.
Leonida Oeschler
Pesqueiro São José comemora a volta dos clientes, mas os problemas persistem
O segundo fim de semana de novembro foi o de melhor movimento no Pesqueiro São José, no Arraial, desde a tragédia. O proprietário, Blassios Knoth, comemora a volta dos clientes. Cerca de 7.500 quilos de tilápias, carpas capim, traíras, pintados e outros peixes estão à espera dos pescadores.
Há um ano, ao invés de peixes havia lama, pedras e paus nas cinco lagoas. A força da água levou 9.500 quilos de peixes para longe. Já a terra que desceu do morro passou a poucos metros da casa da família. Blassios, a esposa, filhos e sogra trabalharam sete meses para recuperar os estragos. “Só para retirar o barro da lagoa foram dois meses”, conta Blassios. O custo da recuperação passou de R$ 50 mil. Já o prejuízo da perda do patrimônio, ele calcula em R$ 500 mil. O campo de futebol, vestiários, alambrados, material esportivo e 48 postes de iluminação estão sob uma enorme montanha de terra. Parte dela formou-se com a enxurrada, o restante fica por conta da obra que desobstruiu a Estrada Geral em frente ao pesqueiro. A terra foi levada para o terreno de Blassios. O comerciante admite que autorizou a colocação da terra, mas mediante promessa que logo seria retirada. Ele já fez vários contatos com a Secretaria de Obras para que se cumpra o acordo, mas até agora só promessas. Impaciente, o comerciante avisa que vai retirar a terra do seu terreno e recolocá-la na estrada. ]
Além do campo de futebol, Blassios perdeu uma plantação de dois mil pés de eucaliptos. A sogra, Elvira Schmitz, 80 anos, diz que a vida mudou no Arraial. “Antes, a gente produzia tudo na propriedade, hoje tem que comprar até o leite”.
Prefeitura
O secretário de Turismo, Indústria e Comércio, Rodrigo Fontes Schramm lembra que a responsabilidade pela desobstrução foi da Secretaria de Desenvolvimento Regional. Ele admite que Blássios foi parceiro no momento em que autorizou a colocação do material removido em seu terreno, porém explica que existem limitações por força da Lei de Responsabilidade Fiscal e orçamentária de atender ao pedido aind este ano.
“No próximo ano ele poderá encaminhar a solicitão ao Conselho Municipal de Desenvolvimento Econômico”, acrescenta Schramm. Em 2010, ele garante que a Secretaria vai investir na retomado do roteiro de agroturismo no Arraial e Belchior.
Casal reconstrói a vida em novo lar
Se para a maioria dos moradores do Arraial, a perda foi apenas material o mesmo não se pode dizer do casal Pedro e Leonida Oeschler. Além da casa, eles perderam o filho Luiz Fernando, 10 anos, o irmão de Pedro, o motorista Alcido Oeschler, 51 anos, e o seu genro Ordilei Bachmann, 30 anos. A quarta vítima foi Orestes Guido Wociekowski, 60 anos, que saiu de sua casa para se abrigar na de Alcido.
Pedro, Leonida e duas filhas somente se salvaram porque atenderam ao pedido do vizinho, o agricultor Aníbal da Silva, para que dormissem todos na sua casa naquela noite chuvosa. Luiz Fernando também estava na casa, mas aceitou o convite do tio e de Ordilei para irem apanhar o dinheiro da passagem de ônibus que Alcido havia recolhido no seu turno de trabalho. Como era tarde e chovia muito, decidiram dormir na casa. A tragédia aconteceu na madrugada do dia 28 de novembro.
O casal tenta retomar a rotina em uma nova casa no terreno da mãe de Leonida, na rua Hilário Schmitz, a pouco mais de 2km do local da tragédia. Eles terminaram de construir a casa há dois meses. “Temos muita saudade e tristeza pela ausência do nosso filho, mas por outro lado precisamos levantar a cabeça porque temos duas filhas para criarmos”, diz Leonida. Ela admite que à noite dá medo e desânimo, e a cada chuva a família entra em pânico, mas ela diz que somente sairão da casa se chover bastante. Pedro Pedro gastou R$ 15 mil em materiais. A mão-de-obra ele conseguiu com amigos.
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