De segunda a sexta-feira, o pequeno João Victor Reinert, 6 anos, segue sua rotina escolar.
Acorda cedo, alimenta-se e toma um banho, para ficar bem acordado para ir à escola. É com sua inseparável parceira, a bicicleta, que também o acompanha nos finais de semana em passeios ciclísticos na região, que o pequeno estudante vai de sua casa, no Belchior Central, até a Escola Belchior, localizada no mesmo bairro, onde cursa o 2º ano matutino.
Victor aguarda pelas aulas de matemática, sua matéria preferida. “O que eu mais gosto é fazer cálculos. Quando chego em casa, sempre estudo o que aprendi na escola. Gosto de ler e escrever”, conta. Foi o ambiente familiar que fez com que João já fale sobre sua futura profissão: quer ser veterinário. Pode-se dizer que o casal de coelhos, as 16 codornas, o gato, o cachorro e a calopsita que tem em casa tiveram alguma influência nisto. Porém, João sabe que, até poder cuidar de outros animais de estimação, ainda precisará passar mais alguns anos na escola Belchior, depois em outra escola até chegar à universidade.
Victor gosta de estudar, mas também de brincar. Aproveita o recreio para jogar futebol com seus amigos. A brincadeira é bem diferente daquelas que seu pai, Edson Reinert, de 38 anos, nos tempos em que frequentava a escola Belchior, em 1982. Eram apenas duas salas de aula e o refeitório era feito de chão batido. “Nós comíamos a merenda bem rapidinho para poder jogar quilicas no chão do refeitório”, recorda Edson com um olhar perdido no passado. Outra lembrança que ele e todos os estudantes daquela época guardam é de um pé de ingá que havia no terreno antes de ser construída a quadra de esportes. Eram sob os frondosos galhos da árvore que os alunos se encontravam no recreio e, ao redor dela, aconteciam muitas brincadeiras. “Hoje, a escola tem uma boa estrutura, mas na minha época era diferente. Já não era mais uma escola multisseriada, mas havia apenas duas turmas na parte da manhã e duas à tarde. É visível que a escola cresceu”, observa Edson.
A merendeira
O educandário do Belchior não foi apenas ambiente de estudo de Edson e Victor, mas também de trabalho da avó Albertina Reinert, de 68 anos. Ela foi a primeira merendeira da escola. Começou a trabalhar em 1980, a partir de um convite feito por seu vizinho, que na época era o tesoureiro da escola. “Até então, quem fazia a merenda eram as próprias professoras. Ele me chamou para trabalhar de manhã, na parte da tarde ainda eram as professoras que faziam a merenda”, conta Albertina. Naquele tempo, a merenda se resumia basicamente a sopa, sobremesa e bolinho de chuva, conhecido na época como bolinho de frigideira. “O bolinho era um sucesso, as crianças comiam muito e sempre queriam mais. Nunca sobrava nada da merenda”, relembra. A maior parte da comida, relembra a ex-merendeira, vinha de casa. “Eram os pais quem doavam os alimentos para fazer a merenda escolar. A sobremesa era feita a partir de uma mistura de frutas cozidas com sagu”. Albertina ficou famosa no bairro, todos sabiam quem era aquela mulher, responsável por preparar as refeições das crianças da escola Belchior. Ela admite que sente ainda muita saudade dos seis anos que ficou à frente da cozinha da escola. “Era divertido trabalhar com as crianças”, acrescenta. Porém, em busca de um melhor salário,
Albertina largou o emprego de merendeira em 1986 para trabalhar em uma fábrica, mas ainda hoje, quando encontra alunos daquela época, é sempre reconhecida e o seus deliciosos bolinhos lembrados com água na boca.
Projetos em diversas áreas
A história da Escola Belchior começa bem antes de Victor, Edson e Albertina. A inauguração ocorreu em 1910. Na época, tratava-se de uma escola estadual multisseriada, chamada Escola Isolada Belchior. Na medida em que a demanda de alunos crescia, o pequeno educandário foi sendo ampliado. A escola de madeira virou um prédio de alvenaria em 1960 e, em seguida, um galpão foi erguido para receber a cozinha e refeitório. No final da década de 1980, passou a se chamar Escola Reunida Belchior, onde havia um responsável pela direção e um professor para cada série. A escola só passou a ser municipal em 1998.
Hoje, a Escola Belchior conta com 14 professores (todos com formação acadêmica na área), dois serventes, um zelador, uma coordenadora pedagógica, um bolsista e é dirigida por Giana da Costa. São, no total, 122 alunos que formam duas turmas de ensino infantil e do 1ª ao 5º ano, sendo que a escola abrange 101 famílias da comunidade. Na escola, os estudantes encontram atividades extracurriculares, como dança, ballet, apoio pedagógico, mosaico/artesanato. Há ainda aulas de informática e muitos projetos como o Horta e Jardinagem, implantado em 2012. O objetico é envolver os alunos mais com as questões ambientais e orientá-los para uma alimentação mais saudável.
Outros projetos importantes são o Magia da Literatura (que já acontece há seis anos) e o Espaços e Tempos na Escola.
“Mais famosa que o Pelé”
Dona Carmen Santos é quase um arquivo histórico vivo da Escola Belchior. Sua mãe estudou no educandário, ela também foi aluna e depois voltou para ocupar o cargo de professora, no qual permaneceu por 28 anos. De acordo com Dona Carmen, a primeira escola - em que sua mãe estudou - estava construída no mesmo terreno da atual, porém foi transferida várias vezes até que retornasse ao terreno original. A partir de documentos, ela afirma que a escola foi inaugurada por volta de 1910. Quando a escola voltou ao seu primeiro espaço, Carmem foi uma das primeiras professoras. Hoje, aposentada, não deixou de lado o seu talento de educadora e, apesar de não lecionar mais, faz parte do conselho escolar do educandário. Foram muitas as gerações que passaram pela sala de aula de Dona Carmen, o que a fez muito conhecida no bairro. “Aqui sou mais famosa que o Pelé”, brinca.
Ela era uma das únicas moradoras do Belchior que continuou seus estudos e fez o colegial; ia todos os dias a Blumenau de bicicleta para estudar no Colégio Pedro II. Por ter o colegial, ela foi chamada para lecionar na escola em 1960, trabalho que dividiu com irmã Bráulia a partir de 1963. “Como era muito longe, os professores ficavam pouco tempo. Eu já era do Belchior, portanto trabalhar na escola não era problema Trabalhei alguns meses na escola em 1959, eles gostaram e me chamaram de volta”, relata. Na época, a escola era multisseriada apesar de já atender a 60 alunos. Carmem era responsável por passar o conteúdo de todas as matérias para duas turmas, reunidas em uma só sala de aula. “Enquanto uma turma fazia atividades, eu expliva para outra. Era só se organizar que tudo funcionava.
Muita coisa mudou, mas para melhor. “Pelo o que se vê hoje, nossa escola está de parabéns, principalmente no quesito alfabetização e leitura”.
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