Há quase um século ele aportou em terras do Belchior

Há cerca de um século, um imigrante alemão aportou em terras catarinenses. Como muitos da época, vinha trabalhar no então chamado novo mundo. O sonho era ter uma vida um pouco melhor do que a que tinha na Europa dilacerada pela guerra. Chegando a Florianópolis, Bernardo Hörst começou a prestar serviços de marcenaria aos seminários e conventos da região.
Depois de certo tempo, mudou-se para Rio Negrinho, no Norte do Estado, onde trabalhou por mais alguns anos. Finalmente, veio para Blumenau. Nesta época, conheceu a região do Belchior Alto, onde se instalou com a esposa. Após trabalhar durante muitos anos no ramo madeireiro, Bernardo abriu a sua própria marcenaria, ao pé do morro da bela região do Belchior, próximo onde hoje fica a beneficiadora Arroz Belchior.
Em um pequeno rancho, ele produzia os mais belos móveis de madeira maciça, com detalhes que só um marceneiro de talento saberia fazer. Acabou conhecido em toda a região pela qualidade do seu trabalho. Na época, a matéria-prima existia em abundância na região e não havia fiscalização ambiental. Logo, o filho, João Bernardo, começou também a trabalhar com o pai, aprendendo o ofício. Juntos, os dois mobiliaram muitas casas do bairro. Além dos móveis, os dois faziam esquadrias e portas por encomenda.
O filho cresceu, casou e teve outros sete filhos - cinco mulheres e dois homens. Os dois netos, por sua vez, seguiram o mesmo caminho do pai e do avô, e desde cedo aprenderam a arte de trabalhar com madeira.
Francisco e Quirino formaram assim a terceira geração da família Hörst a atuar no ramo da marcenaria.
Com o passar dos anos, o avô deixou o serviço. Mais tarde foi o pai. Os dois herdeiros assumiram o negócio já consolidado. Em 1970, construíram um novo rancho para trabalhar, um pouco mais a frente e do outro lado da rua. Mas, mantiveram boa parte do maquinário utilizado pelo pai e o avô, inclusive algumas máquinas feitas por eles. No novo rancho, a empresa passou a focar na produção de esquadrias e os móveis foram ficando de lado.

Restauração
Hoje, os irmãos Hörst fazem apenas a restauração de móveis antigos. Alguns deles fabricados pelos seus antepassados. “Muita gente que mora há muito tempo no bairro vem aqui nos dizer que possui móveis feitos por eles”, conta Francisco, expressando satisfação e orgulho.
Os filhos de Francisco e Quirino estão trabalhando com eles. E a fábrica de esquadrias completa a quarta geração. 
 

Netos preservam documentos que pertenceram ao avô

Francisco e Quirino guardam, com carinho, alguns pertences que revelam parte da saga do avô em terras brasileiras. A máquina circular feita pelo avô e pelo pai e documentos quase centenários. Entre eles, a carteira de trabalho do avô, uma foto antiga e uma nota de 100 marcos (moeda alemã). A cédula circulou na Alemanha entre as duas grandes guerras.
“Meu avô contava que seu irmão tinha ganhado essa nota num dia pela manhã, e à tarde ela já não valia mais nada”, revela Quirino. Essa era a realidade da Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, por isso muitos deixaram o seu país para tentar a sorte no Brasil.
Quirino conta, ainda, que seu avô guardou a cédula como recordação daquele tempo de dificuldade. “Ele passou muita dificuldade na Alemanha, mas também quando chegou ao Brasil”.
Além dessa, outras histórias vêm com as lembranças do velho Bernardo Hörst.
Entre elas, o fato de que o avô saiu da casa dos pais com apenas 17 anos, e durante um bom tempo ficou trabalhando em navios pela costa da Europa. “Só depois de algum tempo é que ele decidiu vir para o Brasil”, completa o neto.
São lembranças de um tempo de dificuldades ainda maiores, onde homens de muita coragem, como Bernardo, recomeçaram suas vidas em uma terra distante. O desenvolvimento econômico do Belchior, onde o ramo móveis ainda é bastante forte, se deu graças a coragem e determinação de homens como Bernardo. Por isso, a família conta, com orgulho, a sua história.

Família mantém a tradição de bom acabamento

A empresa da família Hörst atende a Gaspar, Blumenau e região. Eles fabricam desde as portas simples, até as mais elaboradas, como as mexicanas, que são várias tábuas presas uma ao lado da outra por uma outra tábua encaixada por dentro. Os marceneiros também fabricam portas de correr e laqueadas - que são as portas pintadas. “Hoje, as laqueadas são as que mais saem. A cor da moda é o branco”, diz Francisco, que cuida da parte de produção.
Além disso, eles fazem janelas e também prestam serviços de consertos em portas e janelas em geral. “Fazemos mais esses serviços em produtos que não são nossos, porque cuidamos muito da qualidade das nossas esquadrias”, afirma Quirino, responsável pela entrega e montagem dos produtos.
Até hoje, os irmãos nunca ficaram sem serviço. Eles explicam que o processo de produção de portas e janelas é praticamente o mesmo. “A madeira vem, então lixamos, plainamos, cortamos na medida que precisa”, diz Francisco, detalhando o beneficiamento da madeira maciça. Depois eles furam para colocar as dobradiças e a fechadura. Encaixam a porta no caixilho e fazem as vistas, que dão o acabamento final na instalação das portas. “Se quiserem pintadas, pintamos, fazemos verniz, ou então entregamos crua e a pessoa decide o que vai fazer”, completa.
Uma porta laqueada, que é a que recebe pintura, leva até 10 dias para ficar pronta. “O mais demorado é a pintura”, explica o marceneiro. Já as janelas dependem muito do tamanho. Mas, Francisco calcula que leva em média 2 a 3 dias para deixá-las prontas.
As madeiras que eles trabalham são, na maioria, itaúba, Angelina e canela. “Usamos só madeiras boas, mais resistentes ao cupim e assim têm uma vida útil maior. O eucalipto e o pinus são as madeiras preferidas dos cupins”, diz. Diferente da época de seu avô, as madeiras vêm hoje do Mato Grosso e regiões próximas.

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