Papa Francisco e a globalização da humildade
06/08/2013 16:33
Enquanto se escutava o barulho da explosão de contentamento e júbilo que vinha da América do Sul, por causa da visita do Papa Francisco ao Brasil, a Inglaterra comemorava a chegada do novo príncipe - o bebê real, George Alexander Louis - filho do príncipe Williams e de Kate Middletone, que nascera no dia 22 de Julho no hospital de Sta. Mary’s, próximo à estação de Paddington. Como de costume, a corte inglesa desfrutou a oportunidade de mais uma festa. Ela começou com a colocação, fora do palácio de Buckingham, do boletim que anunciava o nascimento do novo Príncipe de Cambridge.
Mas não foram só os neo, mamã e papá da realeza britânica a celebrar a chegada do futuro rei da Inglaterra. Os sinos da torre de Westminter tocaram e foram imitados por outras igrejas do centro de Londres, e não faltaram as salvas de tiros. Do cimo do “Tower of London”, às 16 horas locais, daquela terça-feira, partiram 62 disparos de saudação e, ao mesmo tempo outros 41 eram disparados em Green Park, ali bem perto do palácio de Buckingham. O eco da boa-nova foi escutado através da Comonwealth desde o Canadá até as Ilhas Bermudas. Não se perdeu a oportunidade para se remendar um pouco os buraquinhos criados pela crise econômica que também grassa a Ilha britânica. Xícaras, bules de chá, chupetinhas, sapatinhos estampados com a bandeira inglesa apareceram em quantidades comerciais nas lojas de turismo e souvenires de Londres. Foram cunhadas 2.013 moedas de prata de 1 penny (centavo) para assinalar a data.
Inadvertidamente, os ingleses intentavam assim uma inversão da cruzada que Francisco, o Papa, exaltava ao mundo a partir do Brasil, enquanto transcorria a Jornada Mundial da Juventude - a cruzada contra a subjugação da vida humana pela cultura do dinheiro e do consumismo; a cruzada contra a idolatria da vida material, como um torquinete do valor da essência humana!
Porém, o grito contra a mercenarização da existência do Homem, que vem sendo emitido pelo jesuíta, que adotou a evangelização e o fervor missionário como a filosofia atuante na missão de líder da Igreja de Cristo, tende mesmo assim a provocar efeitos de consciência nas sociedades ocidentais modernas e laicas, porém escravas duma moral que, ao mesmo tempo, lhes dificulta os devaneios da vida terrena.
O Papa Francisco tinha chegado ao Brasil mostrando a sua simplicidade: todo de branco e apenas com um crucifixo pendurado. A moda foi afetada. Na Itália, a simplicidade entrou nas vestimentas do desfile de Outuno/Inverno 2013. Valentino transformou o “look” da modéstia em traços de vaidade e criou modelos inspirados nas batinas vermelhas dos cardeais, hábitos de freiras, com rendinhas brancas nos punhos, sem nenhum decote, túnicas e capas escuras, com arabescos dourados. Em suma, a moda também resolveu inverter a habitual tendência do glamour contemporâneo e tornar a beleza mais sóbria e recatada.
O já latente embaraço da política e da diplomacia na gestão da vida dos humanos do planeta fica igualmente mais sacudido na sua responsabilidade pelos ditos de inegável e insofismável verdade. Uma verdade que não precisa de nenhuma argumentação religiosa ou política, porque se encerra simplesmente na razão de todos e de qualquer humano. Parece ser por isso mesmo, que, por exemplo, a FAO (sigla em inglês, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) se propôs no recente meeting internacional, realizado entre o final de Junho e o início de Julho, em Addis-Abeba, na Etiópia, a indicar um prazo para a erradicação da fome no planeta. Acabar com a fome de 245 milhões de pessoas em 2025!
O romantismo, que emerge da realização desse desejo, ressalta a vergonha provocada pela absurda contradição entre o desenvolvimento sempre mais eloquente da vida material, no planeta, exibida pelos incríveis benefícios tecnológicos e os números indescritíveis de sofrimento, miséria e mal-estar vividos ao redor do mundo pelos seus habitantes. Traduzem espiritualmente a ambiguidade e a hipocrisia em que o Homem atual assenta à sua existência.
O encontro da FAO recordou a necessidade duma distribuição alimentar mais equitativa. Enfatizou ainda, a tendência do consumo exagerado no mundo ocidental, cuja gula e soberba conduz à retração da qualidade e da quantidade, importantes para saciar a fome dos pobres. Frisou-se também, ironicamente, que esse comportamento produz paradoxalmente o preocupante aumento de doenças resultantes dos abusos da alimentação farta que acabam ameaçando a continuidade da vida. Essa organização tem como diretor-geral, nomeado em 2011 José Graziano, um brasileiro, agrônomo, professor e escritor especialista na questão agrária brasileira.
A par da dinâmica exibida pelas responsabilidades de organismos tradicionais, como as Nações Unidas, os pronunciamentos de Bergoglio soam como recados e reparos recorrentes, que desligados da mera forma e conteúdo do verbo determinado pela conveniência sócio material, não podem senão ser entendidos como o apelo seco de que a insistência ou a continuidade dessa postura o levará a sucumbir.
De regresso à condução da vida da organização religiosa mais complexa e poderosa no mundo e na vida de muitos milhões de homens ao longo do planeta, o Bispo de Roma terá que prosseguir em sua determinação férrea, para extirpar as raízes que produziram máculas seculares, ao mesmo tempo em que, como São Francisco de Assis, de hoje, seguir na missão de globalizar a humildade.

