A Eleição do Vazio e o Dilema da Sobrevivência
A campanha deixou mais ataques do que soluções para os problemas do país
As urnas serão novamente ligadas neste domingo, dia 25, para a escolha do Presidente da República e dos governantes de cinco estados e do Distrito Federal, mas o sentimento dominante no país passa longe da expectativa transformadora, da mudança que todos aguardam. O pleito que se encerra daqui quatro dias não deixará saudades ao povo brasileiro pelo nível da campanha e dos debates, nem tampouco pelo alcance das ideias apresentadas. Chegamos ao ápice do processo democrático de mãos vazias: assistimos a uma disputa marcada pela pequenez programática, pela incorerência e pela hegemonia do ataque pelo ataque. Da troca de acusações e de muitas fakenews.
O Brasil é a décima maior economia do planeta, mas foi tratado ao longo desses quatro meses de campanha como um grande balcão de ressentimentos. Enquanto a população busca respostas reais para o encarecimento do custo de vida, as fissuras na saúde pública, a necessidade de investimentos estruturantes e a persistência da fome e da desigualdade, os candidatos ao poder preferiram o atalho mais raso. Trocaram o dever de propor pela facilidade de agredir; substituíram projetos de governo por estratégias de desinformação digital.
Do primeiro para o segundo turno, o rebaixamento foi ainda mais acentuado. O pouco que restava de conteúdo se dissolveu em um mar de denúncias, ataques pessoais e retórica de palanque. A gravidade da situação obrigou a Justiça Eleitoral a agir no limite de suas forças para conter os excessos, revelando a urgência de se conter raivas e rancores políticos que beiram o absurdo.
Ficou evidente a incômoda verdade: a obsessão maior das cúpulas político-partidárias voltou-se para a conquista e manutenção do poder, alheia às reais necessidades da população. Benefícios inatingíveis ao povo fora de campanha eleitoral. Entretanto, a segunda-feira chegará inexoravelmente para todos. Quando a poeira da apuração baixar e o show dos horrores se encerrar, a realidade baterá à porta sem filtros. O trabalhador continuará a acordar cedo para garantir o sustento de sua família, ciente de que o país real se constrói no esforço cotidiano, e não nas promessas vazias de palanque. Resta ao cidadão a amarga constatação de que a própria sobrevivência depende, muitas vezes, de conseguir avançar apesar dos governos, e não por causa deles. Votar continua sendo um gesto necessário de cidadania e de soberania popular.
Mas, se esta campanha nos deixou uma lição, é a de que não podemos nos conformar com o mero papel de espectadores a cada quatro anos. O voto concede um mandato, mas não deve conceder um cheque em branco. Diante de candidatos que entregaram tão pouco, caberá à sociedade civil a tarefa de cobrar, fiscalizar e exigir que o país tome, finalmente, um rumo à altura das expectativas de seu povo, o que não nos parece ser desta vez.