O fim da 'Era Lula'
Lula é apenas uma gota no oceano de corrupção que se instalou nas instituições públicas do país. A prisão do petista tem apenas o peso maior de ser o condenado uma das maiores lideranças políticas que esse país já teve, responsável por grandes transformações que beneficiaram as classes menos favorecidas e incomodaram as oligarquias.
Por outro lado não deixa de ser a sua prisão a reafirmação de que cadeia no Brasil é coisa para pobre. Lula, o nordestino retirante, o ex-metalúrgico, de pouco estudo, de fala muito parecida com a do povo, mas que conseguiu se projetar politicamente justamente por causa dessa afinidade com a linguagem da massa, acabou atrás das grades.
Independente da culpabilidade, já comprovada em diversos depoimentos e julgamentos, a prisão fecha um ciclo político importante do país e põe fim a "Era Lula", iniciada em 2003, com a sua primeira eleição e a manutenção do PT no poder por quase de 15 anos. O ex-presidente, porém, é mais um exemplo que só popularidade não basta para escapar das armadilhas do poder. Lula se enrolou na teia que ele mesmo construiu. Confiou demais em assessores, deu poderes a quem não deveria dar, aliou-se a cobras e lagartos para manter a si e o seu PT no topo e, por fim, aceitou o jogo da corrupção que infesta todos os cantos da pátria amada idolatrada.
Diante de tanta corrupção, havia a necessidade urgente do país ser passado a limpo sob pretexto de sofrermos novamente uma intervenção militar e/ou internacional ou, ainda, cair nas mãos de aventureiros e oportunistas, como Jair Bolsonaro, já vistos no poder em outros momentos da nossa história. Era o momento das corrompidas instituições darem uma resposta aos brasileiros para as intermináveis negociatas que proliferam nas mais altas rodas dos poderes constituídos.
Tudo que envolve a administração pública tem sempre a dúvida da legalidade. Em um país desacreditado, dentro e fora de suas fronteiras, era preciso criar um fato que sacudisse a nação adormecida e que os brasileiros voltassem a discutir o Brasil. Pela primeira vez no período da Nova República, a população está saciada da sua sede de vingança contra aqueles que roubam, corrompem e se locupleteiam do poder
O Brasil precisava de um "peixe grande" atrás das grades, pois não bastava mais ex-assessores, ex-diretores, ex-empresários e ex-amigos. Para o povo brasileiro, o culpado pela atual onda de corrupção é o ex-presidente Lula e o seu PT, "o chefão do esquema", como ele vinha sendo tratado nas elites.
Diante desse cenário, a decisão do Supremo Tribunal de Justiça não poderia ser outra se não acatar o apelo das ruas, impulsionada por uma elite ameaçada pela manutenção do operariado no poder.
A prisão do ex-metalúrgico sacude de vez o mofo que se acumula nas togas do judiciário brasileiro, sempre complacente com as elites e duro com os pobres e desassistidos. O recado para a justiça brasileira é claro. A partir de agora, ela precisa ser rápida, justa e igual para todos, inclusive para os já condenados que hoje gozam dos benefícios de uma legislação ultrapassada, afinal, repetindo um bordão dos últimos meses: "ninguém está acima da lei". A condenação e prisão de Lula não deve, portanto, servir apenas para mostrar à sociedade e governantes que quem rouba também vai para cadeia no Brasil. O julgamento maior ainda está por vir, no próximo dia 7 de outubro.