Ser ou não ser (2)
(Conclusão do discurso proferido por este cronista na inauguração do Espaço do Ser, em 21 de maio)
Vou dizer os poucos versos do poema O relógio, de Cassiano Ricardo:
Diante de coisa tão doída
Conservemo-nos serenos.
Cada minuto de vida nunca é mais, é sempre menos.
Ser é apenas uma face do não ser, e não do ser.
Desde o instante em que se nasce, já se começa a morrer.
Com o uso do contraste, da antítese (mais-menos, não ser-ser, nascer-morrer) leva-nos a ouvir o tique-taque do relógio.
Shakespeare cunhou a dúvida em uma de suas peças que atravessam séculos e são constantemente encenadas;
"To be or not to be, that is the question", ou seja, "Ser ou não ser, eis a questão".
Modernista de primeira hora, Oswald de Andrade parodiou:
"Tupi or not tupi, that is the question". Traduzido: "Ser tupi ou não ser tupi, eis a questão". A questão da brasilidade estava lançada.
A criação do Espaço do Ser nos faz lembrar com saudades de um local que fez parte da vida da vida do blumenauense pensante e sensível nos anos da repressão militar.
Daniel Curtipassi fez viver na Galeria Schadrack nos anos de 1960/1970 a Livraria Dom Quixote. Era o ponto de encontro de leitores - estudantes, adultos, escritores, jornalistas, um mundo todo.
Quem gostava de ler, tinha acesso a obras de autores proibidos e perseguidos pelo regime militar. Abriam-se cabeças. O bom papo imperava.
Vinícius, de novo. A vida é a arte do encontro. Dizemos: O Espaço do Ser cultivará a arte do encontro, sem desencontros.