Nacionalismo exagerado ?
Releio mais uma obra da biblioteca do tio Gusti (Frederico Augusto Luiz Thieme Júnior). Presente dele quando de sua mudança para Curitiba. Intitula-se Vale do Itajaí - Jornadas de civismo (Livraria José Olympio, Rio de Janeiro, 1939, 243 páginas). O autor, Hugo Bethlem, tenente do exército Brasileiro, aborda a Campanha de Nacionalização, instituída pelo Estado Novo de Getúlio Vargas.
Logo no início, percebe-se claramente que a campanha de abrasileiramento tem por alvo o médio Vale do Itajaí e as regiões de Curitiba e Joinville. Reinam pomposos e poderosos os alemães aqui no médio Vale do Itajaí. No Paraná, os poloneses, os ditos polacos.
Em Blumenau e cidades circunvizinhas, só se falava o idioma germânico. Usado em escolas, clubes sociais e em jornais. Quatro gerações só utilizavam a língua de Goethe. E na realidade por terem nascidas aqui são brasileiros, queiram ou não.
A viagem de verificação dos militares inicia-se em Curitiba, prossegue em Joinville, Jaraguá do Sul, Blumenau, Hamônia (hoje Ibirama) e finda em Florianópolis. O lema é um só: impor a língua brasileira, de um modo ou de outro. Na marra, se preciso. Sem conhecer o desejo de batizar nosso idioma de língua brasileira e não portuguesa, ficavam pé no estrangeirismo.
Mesmo nos encontros cívicos dos representantes do exército com o povo das cidades, o que se via era isso: aplausos aos símbolos nacionais, mas um ar de desprezo aos desfiles. Fingiam os moradores das cidades um deslumbramento com o que viam. Impossível, porém disfarçar a má vontade com os espetáculos.
Como os soldados da região teimavam em continuar falando o alemão nos quartéis e só pensando na grande pátria europeia, uma solução foi encontrada. Foram enviados contingentes de soldados rasos para o Rio de Janeiro, na época a Capital Federal. Longe das influências familiares e dos agentes estrangeiros, logo se mostram exemplos de brasileiros natos.
O autor se mostra racista quando afirma que os quarteis deveriam ser compostos somente de elementos de raça branca. Perguntamos: e onde fica o Brasil inzoneiro, do pandeiro, da cuica e do violão, tudo levando ao Carnaval total de uma nação?
Só para ilustrar como eram escritas certas palavras naqueles idos (depois vieram as reformas ortográficas e este livro, se reeditado, precisaria ser reescrito do começo ao fim), vamos relacionar alguns exemplos de palavras grafadas pelo tenente Bethlem, acentuadas ou não, seguidas de sua forma atual):
Cincoenta (cinquenta), Joinvile (Joinville), injustificavel (injustificável), quiz (quis), constitue (constitui), heróes (heróis), afóra (afora), afim de (a fim de), enfestado (infestado), emprêgo (emprego), Balkans (Bálcãs), prevêr (prever), quarteis (quartéis), civís (civis), êles (eles), surpreza (surpresa), despreso (desprezo), e paramos por aqui porque a lista total nem caberia neste espaço de jornal.
O que vale nesta obra é a acusação que o autor faz ao governo federal. Segundo ele, as regiões colonizadas por europeus fizeram o que quiseram. O governo brasileiro deixou-as à vontade, num total isolamento. Isso por mais de quarenta anos. Última frase do livro: Tudo pelo Brasil.