Jornal dos jornais (1)
Com o título Jornal dos jornais, o veterano Alberto Dines manteve uma coluna em que analisava com perspicácia e algum humor as principais publicações do Brasil. Depois, passou para a tevê com o nome de Observatório da imprensa. Com cinquent´anos de atividade jornalística, tentaremos relembrar episódios ocorridos nos periódicos do Vale e do Estado.
Numa de suas tiradas geniais, Millôr Fernandes conta breve instante de sua infância, quase juventude. Sua família obrigou-o a tomar lições de piano com um velho alemão, brabo como ele só. Toda vez que o futuro humorista errava uma nota, o professor dava-lhe com um jornal dobrado na cabeça. E Millôr conclui: "Foi assim que eu aprendi jornalismo!".
Graças ao bom Deus, nunca estudei instrumento musical de espécie alguma. E a paixão pelos jornais nasceu assim: sem dores nem coações maiores. Desde garoto, na terra natal, Rio do Sul, vivia de olho, com um estranho interesse nos chamados órgãos de comunicação impressos. E, nas retinas, hoje fatigadas, inda vem a imagem daquele jornal imenso (no tamanho), o mais standard possível, o Nova Era. Persiste, em formato tabloide, no cumprir seu papel de jornal das famílias do Alto Vale do Itajaí.
Seu contraste se chamava A Verdade, não tão família assim. Papai o trazia da Capital, de quando em quando. O hebdomadário do Manoel de Menezes (pai do Cacau) tinha uma característica: falar mal de todo mundo, sem restrição alguma.
A capa e a contracapa do Nova Era abrigavam todo tipo de notícia: nascimento, batizado, comunhão, noivado, formatura, casório e falecimento. E com o toque da época: farta adjetivação. Um exemplo: "Colhe hoje mais um botão no jardim de sua existência a senhorinha Maria das Graças Florêncio, fino ornamento de nossa sociedade, dileta filha do casal Ambrósio e Felisbina Florêncio".
Atualmente, a palavra "aniversaria" resolve o problema. Sintetiza tudo. E nas folhas internas, só tinha anúncio. Leitura dinâmica, pois. Consumia alguns minutos. Meu pai, o advogado Ademar Luz, irônico de nascença, cutucava com vara curta o proprietário: "Pedro Paulo Cunha, deixei de trabalhar ontem por tua causa. Tirei o dia para ler o teu jornal!". Observação que em nada, nadinha mesmo, abalava a velha amizade.