Vítima relata abuso sexual sofrido de homem que se dizia "líder religioso" em Gaspar
Em relato ao Jornal Metas, mulher conta como foi manipulada pelo homem que se dizia "líder religioso" em Gaspar
Preso preventivamente no último dia 11 de fevereiro em Gaspar, um homem de 63 anos, que se apresentava como médium de Umbanda, utilizava-se da vulnerabilidade emocional das vítimas e de supostas orientações espirituais para cometer abusos sexuais. As denúncias começaram a chegar à Delegacia de Polícia de Gaspar em 2024, quando foi aberta uma investigação. No final do ano passado, mais mulheres registraram boletins de ocorrência contra o homem, o que levou à abertura de uma nova investigação e a um pedido de prisão preventiva contra o suspeito, que já responde a dois processos pelo mesmo crime no estado do Paraná desde 2024.
A redação do Jornal Metas procurou uma das vítimas, que sofreu abuso sexual, assim como sua filha, na época com 13 anos. Ela aceitou dar entrevista desde que o seu nome e o da filha não fossem divulgados — optamos pelo nome fictício Patrícia para a mãe. Ela também aceitou falar para encorajar outras mulheres, vítimas do mesmo abusador, a também procurarem a polícia. Durante o relato, a mulher revelou ter sofrido outro abuso sexual na infância.
A reportagem também não irá divulgar o nome do suspeito, baseando-se no princípio da presunção de inocência, que encontra respaldo no Art. 5º, inciso LVII, da Constituição Federal, o qual estabelece que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Além disso, a investigação ainda está em andamento. A reportagem não conseguiu localizar a defesa do suspeito, mas o espaço segue aberto para manifestações.
O relato da vítima
Em novembro de 2019, a única filha de Patrícia, na época com 13 anos, enfrentava um quadro grave de depressão e havia acabado de sobreviver a uma tentativa de suicídio. “Ela vinha de um quadro depressivo muito forte, fazendo acompanhamento com psicólogo e psiquiatra. Eu cheguei a pedir demissão do meu trabalho para ficar mais perto da minha filha e acompanhá-la até resolver o problema. Ela não queria tomar banho, não queria ir à escola e ficava no quarto debaixo das cobertas, mesmo no calor do verão. Ela começou, então, a se cortar. Nunca tínhamos passado por nada parecido na família. Levei-a ao médico, que receitou medicação”, conta Patrícia.
Nova tentativa de suicídio
A doença parecia controlada até o dia em que a menina tentou novamente o suicídio dentro de casa. Ela acabou internada no hospital por alguns dias, mas, segundo a mãe, repetia sempre que queria ir para uma clínica psiquiátrica.
Por meio de familiares, Patrícia soube do líder religioso, que se apresentava como médium de Umbanda e atendia em Gaspar, no bairro Poço Grande, onde também residia, e na Região Metropolitana de Curitiba (PR). A esposa e o cunhado do irmão de Patrícia pediram autorização para enviar uma foto para o homem realizar a benzedura. Alguns dias depois, ele entrou em contato dizendo que a menina precisava ser levada ao terreiro em Gaspar, porque estava sob “ataque espiritual”.
Patrícia, a filha, o pai e uma tia viajaram até Gaspar. “Quando chegamos lá, a entidade já estava incorporada, como se diz na linguagem da Umbanda”, relembra Patrícia. Ela, porém, estranhou o fato de o líder religioso ter falado baixinho no seu ouvido que “os homens só queriam usá-la e ninguém nunca ficaria com ela”. “Ele falou isso no momento em que benzia a minha filha; o meu pensamento estava todo direcionado para ela”, recorda. O líder religioso insistiu: “Vamos ajudar a menina e depois, se você quiser, vou ajudar você”.
No final da sessão, o homem disse que precisava ir até a casa da menina para benzer o quarto dela. Segundo Patrícia, passados alguns dias, ele apareceu na porta da sua casa. Neste dia, a filha estava na escola.
Dizendo-se já incorporado, o homem afirmou que a menina havia "pego" a depressão no útero de Patrícia e que as mulheres de outras gerações da família haviam sido abusadas sexualmente; por isso, o espírito da avó da menina, já falecida, estaria sendo usado para induzi-la ao suicídio.
O suposto espírito disse ainda que Patrícia deveria fazer tudo o que ele mandasse. “Hoje, eu entendo que ele estava simulando a incorporação, mas eu não sabia nada dessa religião, por isso não percebi. Além disso, eu estava em um momento de absoluto desespero pela minha filha. Se ele dissesse que eu tinha de matar uma pessoa para salvá-la, eu teria matado, com certeza”, admite.
O homem voltou a perguntar se ela estava disposta a fazer tudo pela filha. “Eu respondi que sim, com certeza”, recorda Patrícia. Ele então explicou que o útero dela precisava ser “limpo” e que, quando a entidade incorporava, o corpo ficava puro por três dias; que o corpo era algo sagrado e abençoado e que precisava realizar um benzimento.
“Eu fiquei assustada, apavorada... Pensei: 'eu estou misturando as coisas?'. Perguntei então: 'Você está falando que eu tenho que transar com você?'. Ele falou, sempre simulando a voz da entidade: 'Sim'”. Ele explicou que essa limpeza deveria ser feita perto de água: um rio, riacho ou lagoa. O homem, dono de um sítio no Paraná, insistiu para que Patrícia o acompanhasse até lá.
Chantagem emocional
Segundo Patrícia, o homem disse que ela não era obrigada a fazer nada, mas lembrou que a filha já havia tentado o suicídio e insistiu: “Ele disse: 'se você negar agora, ela vai tentar de novo e vai conseguir se matar, porque daí os orixás não vão mais ajudar. A decisão é tua. Mas a tua filha pegou isso no teu útero'. Se você fizer tudo que precisa ser feito, as próximas sete gerações de mulheres da tua família não vão mais passar por isso”, revela a mãe.
Desesperada para salvar a filha, Patrícia acabou cedendo. “Foi tudo muito rápido, ali mesmo. Hoje, me sinto uma idiota... me dá vergonha, nojo de pensar que passei por isso, que caí no golpe desse maldito mentiroso”, desabafa.
O líder religioso abusou de Patrícia mais duas vezes porque, segundo ele, para que o “trabalho” desse certo, seriam necessárias três vezes. “A gente se culpa, se julga... E durante todo esse tempo eu queria falar, queria perguntar: 'Tá, mas por que tinha de ser assim?'. Só que toda vez que eu pensava em desabafar com alguém, lembrava das palavras dele: 'A tua filha não está bem? Ela não foi ajudada?'.
O suspeito também disse que ela jamais poderia falar para ninguém o que havia acontecido, pois as entidades iriam se revoltar e o trabalho seria desfeito. “Ele sempre me ameaçava dizendo que a minha filha iria tentar novamente o suicídio, e que desta vez ia dar certo porque eu havia revelado o que aconteceu”.
Denúncia e outras vítimas
Patrícia contou que a família frequentou o terreiro do suspeito em Gaspar por quatro anos (2021 a 2025). A farsa começou a ruir em novembro do ano passado, após uma discussão familiar em que surgiram relatos de que outras mulheres haviam sofrido tentativas de abuso no local sob o mesmo modus operandi: o argumento de que os úteros estavam “sujos” e precisavam de limpeza. “Eram histórias muito parecidas, o benzimento tinha a mesma dinâmica”, afirma a mãe.
Ao saber dessas histórias, a filha de Patrícia acabou revelando à mãe e ao padrasto que também foi abusada sexualmente pelo suspeito. Ele a teria chantageado dizendo que havia um vídeo íntimo dela na internet e que, para “limpá-la”, precisava tocá-la e receber fotos íntimas.
Patrícia e o marido decidiram procurar a polícia. Depois disso, começaram a contatar outras mulheres que frequentavam o terreiro. “Pelo menos cinco registraram boletins de ocorrência por estupro consumado e outras por tentativa”, conta. O suspeito escolhia as vítimas pela fragilidade emocional. “Muitas ainda têm medo de depor por receio de julgamento social ou represálias”, admite Patrícia. Ela acrescenta: “Se não bastasse a gente se culpar, ainda sofre prejulgamentos. Estão falando que as vítimas foram buscar ajuda para 'abrir caminho'. Não tem nada a ver com prosperidade financeira. As pessoas foram lá em situações de desespero”.
Sobre a prisão, ela se diz aliviada. “Não vai mais cometer esse tipo de crime. Eu só sinto muito que tantas mulheres, que tantas vítimas, que tantas pessoas tiveram que passar pela mão desse homem, eu sinto muito pelas entidades da Umbanda, por ele estar sujando o nome da religião, que é maravilhosa. Eu sinto por todas essas vítimas e pelo que a minha filha teve que passar na mão dele, eu quero que ele nunca mais saia da cadeia e que passe pelo mesmo mal que fez a todas essas mulheres, por toda a pressão psicológica, por todo terrorismo, por todos os abusos que ele cometeu. Que ele pague na pele. Eu não posso dizer que estou feliz por ele estar preso. O que a gente sente é alívio. Só alívio”, finaliza”.