Os desafios físicos e emocionais de vencer o câncer
Há dois anos e meio, Karla Weber, moradora de Gaspar, finalizou o tratamento contra o câncer de mama. Hoje, ela valoriza ainda mais as pessoas que ama e as histórias de cada uma
A rotina acelerada, os compromissos diários e a preocupação com a família muitas vezes fazem com que as mulheres deixem a própria saúde em segundo plano. Para Karla Margareth Weber, moradora do bairro Gaspar Grande, foi preciso enfrentar um diagnóstico de câncer de mama para perceber o quanto o cuidado consigo mesma não pode ficar para depois. Casada com Pedro Pereira da Silva e mãe de Maria Eduarda, Karla vivia entre as responsabilidades da casa, do trabalho e da família. No início de 2023, havia realizado mamografia e ultrassonografia, que, segundo ela, não apontaram alterações preocupantes.
No fim daquele ano, porém, percebeu sinais que a levaram a procurar atendimento médico e realizar uma biópsia. O resultado chegou em 3 de janeiro de 2024. Sozinha em casa, ela acessou o resultado do exame e encontrou a palavra que mudaria sua vida: carcinoma. “Na hora, parece que eu não tive reação. Fiquei meio paralisada, sem acreditar que era aquilo”, relembra. Ao compartilhar a notícia com a família, que estava em Porto União, a emoção tomou conta. “Eu queria entender e não sabia como”, conta sobre os primeiros momentos após o diagnóstico.
O início do tratamento
e a perda do cabelo
Inicialmente, a expectativa era realizar uma cirurgia para retirar o tumor. Exames complementares, entretanto, identificaram lesões suspeitas em outras partes do corpo, incluindo fígado, ossos e coluna. Com a confirmação das metástases, o planejamento mudou, e a equipe médica indicou um tratamento sistêmico. Karla iniciou a quimioterapia e passou por seis sessões. A queda do cabelo foi um dos momentos mais difíceis da jornada. Diante da situação, decidiu raspar a cabeça em casa, enquanto o marido e a filha estavam fora. “Foi uma sensação muito boa de não ver mais o cabelo cair”, recorda. Ela preferiu viver aquele momento sozinha para evitar que o sofrimento fosse ainda maior para a família. Outro desafio foi conseguir acesso ao ribociclibe, medicamento indicado no tratamento. Segundo Karla, o custo era elevado, e a liberação ocorreu por meio de um processo judicial, com auxílio de um advogado. Em menos de um mês, ela conseguiu a medicação.
Durante toda a caminhada, o apoio do marido, das irmãs e dos demais familiares foi fundamental. A fé também ganhou ainda mais espaço na rotina, assim como as orações e as mensagens de pessoas que se mobilizaram por sua recuperação.
Efeitos colaterais e impactos emocionais nem sempre são visíveis
Além dos desafios impostos pela doença, Karla chama a atenção para uma realidade que nem sempre é percebida por quem está de fora: os efeitos colaterais das medicações, entre eles o cansaço e a fraqueza, que podem comprometer a rotina e o bem-estar de quem está em tratamento. Segundo ela, muitas vezes, as pessoas encontram pacientes com câncer na rua e, por vê-los aparentemente bem, acreditam que não estejam enfrentando dificuldades. No entanto, a aparência nem sempre revela o que acontece por trás da rotina de quem convive com a doença.
Karla lembra que somente quem passa pelo tratamento conhece, de fato, os desafios físicos e emocionais dessa experiência. Além dos efeitos das medicações, há a expectativa pelos resultados dos exames, um período que pode ser marcado pela ansiedade, pelo medo e pela insegurança. Cada nova investigação médica traz a expectativa de respostas.
E cada resultado tem o potencial de mexer profundamente com o emocional, especialmente para quem já enfrentou um diagnóstico difícil e precisa continuar em acompanhamento. A experiência fez com que Karla passasse a valorizar ainda mais a empatia e o respeito às histórias individuais.
Exames de acompanhamento trouxeram esperança
Em 2024, exames de acompanhamento trouxeram um resultado positivo: não havia sinais de doença ativa nas áreas anteriormente afetadas. Karla lembra da emoção ao receber a notícia da médica. “Eu não tenho mais nada”, disse à cunhada ao compartilhar o resultado. A trajetória, no entanto, exigiu que ela continuasse em acompanhamento médico. Mais recentemente, uma suspeita de comprometimento pulmonar levou a novas investigações, mas outro PET-SCAN também não apontou sinais de doença ativa.
Apoio da Rede
Karla não esquece o apoio recebido da Rede Feminina de Combate ao Câncer de Gaspar, que esteve presente durante todo o seu tratamento. Entre as recordações especiais, guarda o carinho das pessoas que ofereceram ajuda, orações e palavras de incentivo. Há cerca de dois anos e meio, Karla está em remissão. “Na medicina, eles falam que não existe a cura, que a gente está em remissão. Então, eu estou em remissão há dois anos e meio. Mas aqui dentro eu me sinto curada”, afirma.
Depois de enfrentar o câncer, Karla prefere viver o presente e valorizar os momentos ao lado de quem ama. Seu maior desejo é ter saúde para continuar cuidando da filha e aproveitando a convivência com a família. Para Karla, a fé, o apoio da família e a esperança foram fundamentais para atravessar os momentos mais difíceis.
Outubro Rosa” alerta para a importância do diagnóstico precoce
O diagnóstico precoce e o acesso à informação confiável são fundamentais para aumentar as chances de cura do câncer de mama. Durante o Outubro Rosa, especialistas reforçam a importância de identificar sinais da doença, realizar os exames recomendados e manter o acompanhamento médico. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil estima 78.610 novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028. Dados do Observatório de Oncologia apontam que 70% das mulheres de 20 a 29 anos diagnosticadas com câncer de mama chegam ao SUS nos estágios 3 ou 4. Entre as mulheres de 30 a 39 anos, o índice é de 62,7%; de 40 a 49 anos, 54,6%; e de 50 a 69 anos, 47,9%. Entre os sinais de alerta estão caroços, alterações no tamanho ou formato das mamas, vermelhidão persistente, feridas que não cicatrizam e mudanças nos mamilos. Essas alterações devem ser avaliadas por um profissional de saúde. A desinformação e fake news, também preocupa. Um estudo publicado em dezembro de 2025 na revista JAMA Network Open, com 997 pessoas nos Estados Unidos com histórico de câncer de mama, identificou que 76% haviam sido expostas a informações falsas ou enganosas sobre a doença. Especialistas alertam que conteúdos sem comprovação científica podem levar ao adiamento de consultas e exames. Por isso, a campanha reforça que hábitos saudáveis não substituem o rastreamento recomendado nem o tratamento médico. Informação de qualidade e diagnóstico precoce salvam vidas.
“Estimativa 2026–2028: Incidência de Câncer no Brasil” revela que, no triênio de 2026 a 2028, são esperados cerca de 78.610 novos casos de câncer de mama no Brasil, em um risco estimado de 71,57 a cada 100 mil mulheres. O estudo foi organizado pelo Inca (Instituto Nacional do Câncer) em parceria com o Ministério Público.