Fim de ciclo para Iron e Léia, depois de dezenas de missões de busca e salvamento
Os dois cães, ao lado de Brasil, outro membro da família, marcaram uma época na corporação catarinense
Na tarde de sexta-feira, dia 15, os cães Iron e Léia foram aposentados do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina. O ato simbólico ocorreu durante passagem de comando da OBM em Porto União, no Planalto Norte catarinense. A cerimônia marcou o fim de uma trajetória que começou em 2003 e atravessou três gerações de cães de trabalho na corporação catarinense.
Iron, labrador com mais de 10 anos, é filho de Brasil, o primeiro cão de busca certificado internacionalmente pelo Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina falecido em 2020. Léia, com quase 8 anos, é neta de Brasil.
Brumadinho, Petrópolis e outras missões históricas
Ao longo da trajetória como cão de busca e salvamento, Iron contabiliza mais de 70 ocorrências, conquistou sete certificações e integrou três missões nacionais que se tornaram parte da história dos bombeiros militares de Santa Catarina. Em Brumadinho, em 2019, Santa Catarina enviou equipes para apoiar as buscas após o rompimento da barragem da Vale, em Minas Gerais. Iron fez parte da missão.
O cão chegou ao local da tragédia com o cabo Josclei Tracz e voltou ao cenário em outra equipe. Durante a missão, Iron sofreu um ferimento na pata dianteira, passou por cirurgia emergencial em um hospital de campanha e retornou à atividade dez dias depois. Ao lado de Leía, o cão também participou de operações em Petrópolis, no Rio de Janeiro, e em ações de apoio em outros estados.
Léia também esteve em Petrópolis, em 2022, ao lado do cabo David Canever, em uma operação no Morro da Oficina, epicentro de deslizamentos que causaram mais de 200 mortes.
“Ficamos 10 dias ali na região do Morro da Oficina, onde teve o deslizamento que levou ao soterramento de mais de 50 casas, com múltiplas vítimas. Trabalhamos muito ali. Mas existem, claro, as ocorrências diárias, que são um papel contínuo e que trazem muita gratificação”, destaca o cabo Canever.
A cadela acumulou certificações em busca urbana, rural e de restos mortais, além de atuar em diversas buscas oficiais no Planalto Norte e na região serrana de Santa Catarina.
O trabalho diário e o vínculo com os condutores
Apesar da visibilidade de missões como Brumadinho e Petrópolis, a rotina dos cães de busca e salvamento se concentra em ocorrências diárias, especialmente em áreas de mata e regiões de difícil acesso. Iron localizou um idoso desaparecido em Xanxerê, em 2020, e encontrou um homem perdido em mata fechada em Luzerna, em 2023, mostrando a importância do trabalho silencioso e constante das equipes.
No CBMSC, os cães vivem nas casas dos condutores, treinam com reforço positivo e permanecem em prontidão permanente. O modelo, segundo os bombeiros, fortalece o vínculo entre homem e animal e contribui para a eficiência das buscas. A raça escolhida é o labrador, por reunir olfato apurado, docilidade e capacidade de atuar em situações de estresse extremo.
“Hoje, a Léia está comigo, na minha casa, com a certeza que ela deu o melhor por Santa Catarina, sabe? É merecido esse descanso. Ela ainda ama a busca, a sensação de encontrar algo, mantemos isso hoje, mas agora na brincadeira, sem os perigos da realidade, é um tempo merecido de recolhimento após tanto tempo servindo pela corporação”, conta o cabo Canever.
A linhagem de Brasil e o legado deixado na corporação
A história de Iron e Léia está ligada ao cão Brasil, que morreu em 2020, aos 16 anos de idade, vítima de câncer, após uma carreira marcante no Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina. Com mais de 100 buscas realizadas, Brasil ajudou a localizar vítimas em desastres como as enchentes e deslizamentos de 2008 no Vale do Itajaí, e abriu caminho para que a certificação internacional de cães de busca se tornasse referência no país.
Brasil também deixou outros descendentes, além de Iron e Léia. Os filhotes Chewbacca, Zaara e Barney (já falecido) são bisnetos. Dante é outro neto de Brasil. Portanto, são três gerações de cães de busca catarinenses descendendo do mesmo patriarca.
A aposentadoria da dupla encerra uma fase importante da história do CBMSC, mas também reforça o legado de uma família canina que marcou operações de resgate em Santa Catarina e em todo o Brasil.