Sociedade Harmonia completa 65 anos com lançamento de livro

Com pesquisa de Leda Maria Baptista e redação de Gelásio Hames, morador do Belchior, a obra conta a trajetória de seis décadas e meia da sociedade.

Por Alexandre Melo

A sede da Sociedade Harmonia nos dias de hoje (2025)

O Distrito do Belchior, em Gaspar, celebra mais uma importante data na sua história. No próximo domingo, sócios da Sociedade Harmonia e convidados se reúnem para celebrar 65 anos de fundação.
A Sociedade Esportiva Cultural Tiro e Caça Harmonia - esse foi o nome original - não apenas festeja seu jubileu, mas também o lançamento do livro “Sociedades de Caça e Tiro em Belchior - Resgate Histórico”, que conta a trajetória de seis décadas e meia da entidade. Sob a coordenação da historiadora Leda Maria Baptista e com redação de Gelásio Hames, o livro revela que o espírito associativo do Belchior é mais antigo que a Sociedade.

A pesquisa documental e iconográfica revelou memórias que remontam a 1912. O que hoje é conhecido como Sociedade Harmonia teve seu embrião na família Oechsler, sob o nome de Gemütlichkeit.
Naquele início de século, a habilidade com a espingarda era uma necessidade de subsistência e defesa para os colonos vindos de São Pedro de Alcântara e Blumenau. Com o tempo, a prática transformou-se na base da Schützenverein (Sociedade de Atiradores).

A trajetória, porém, não foi isenta de sobressaltos. No livro, relata-se que durante a era Vargas (Presidente Getúlio Vargas) e a Segunda Guerra Mundial, a Campanha de Nacionalização impôs o silêncio à língua alemã. Foi um período de resistência: para evitar a destruição por motivos políticos, a bandeira da sociedade precisou ser escondida em um estábulo, enquanto o nome era alterado para Sociedade de Atiradores Concórdia – Belchior Alto.

A reorganização definitiva ocorreu em 1961. Com o apoio de lideranças locais e a influência de Frei Modesto, a entidade consolidou-se sobre o tripé esporte, cultura e tradição.

O levantamento destaca que a Sociedade Harmonia nunca se limitou ao tiro. Ela sempre foi a referência social do Belchior, abrigando o time de futebol Avaí - homônimo ao existente hoje na capital -, que marcou época; o jogo de bolão, cujas pistas eram palcos de competições acirradas e integração comunitária, e as artes por meio do canto lírico e do teatro, que davam vida ao salão da sede.

“Baú de Relíquias”

Para o autor, Gelásio Hames, o mais gratificante foi o contato com os moradores. 

Entre os colaboradores, destacam-se Leoberto Simão Schmitt e Ademar Mannrich, além de Lauro Oechsler, o único sócio-fundador ainda vivo, cuja memória empresta autenticidade e “alma” ao texto. O trabalho também alcançou documentos de outras entidades, como a Sociedade Patriota Belchiorense e a Sociedade Carolina, esta última notável por preservar seu estatuto original em língua alemã até os dias atuais.

Para o atual presidente da Sociedade Harmonia, Fulgencio Koser, e para os pesquisadores envolvidos, esse resgate histórico representa um sentimento de dever cumprido. “Mais do que listar datas de fundações ou mudanças de sede, a obra honra o esforço das famílias que, entre valsas em assoalhos de figueira e porões de pedra, mantiveram viva uma identidade por mais de um século”.

O evento comemorativo acontece no domingo (19), com missa celebrada na Igreja Matriz Sagrado Coração de Jesus, seguida de reunião da diretoria e almoço por adesão aos sócios e familiares da Sociedade, quando então o livro será oficialmente lançado.

 Quem é o autor

Quando aceitou o convite da historiadora gasparense Leda Maria Baptista para redigir o histórico da Sociedade Harmonia, Gelásio Hames, sabia que não estava apenas assumindo um compromisso literário, mas mergulhando nas raízes da sua própria existência.

Nascido há 69 anos, criado no Distrito do Belchior e casado com Maria de Lurdes H. Hames, Gelásio, um servidor público da Prefeitura de Gaspar, viu sua própria trajetória familiar se entrelaçar com a da Sociedade.

Com fortes raízes na cultura germânica, o autor dedica-se à pesquisa sobre a colonização na região há muitos anos, lançando um olhar atento aos elementos que moldam a identidade local.

Descedente de família enraizada no Belchior, Gelásio escreve não apenas como pesquisador, mas como integrante de uma comunidade que preserva, há gerações, os costumes e valores trazidos pelos colonizadores. Em Sociedades de Caça e Tiro em Belchior - Resgate Histórico, essa vivência fica evidente e se traduz em autenticidade.

Seu trabalho se torna um tribuito coletivo à memória daqueles que mantêm viva a herança germânica na região, transformando o resgate histórico em memória compartilhada.