Engenho do Nono mantém tradição secular
Gilmar Cezar prefere manter o mesmo processo de fabricação de cachaça artesanal a quatro gerações
Antes que a eletricidade chegasse a Gaspar, era a água ou os bois que geravam a energia dos engenhos para moer grãos, serrar madeira e destilar cachaça.
No Engenho do Nono, no Alto Gasparinho, Hulberto Marquetti, imigrante italiano, deu início à produção de cachaça em 1918. O antigo engenho começou movido pela tração animal, mas, em 1940, a produção passou a ser impulsionada por uma roda d’água — que, desde então, nunca parou de fornecer energia e vida ao local. Hoje, os irmãos Gilmar e Vandeir Cezar, a quarta geração da família, preservam essa herança, mantendo viva a receita artesanal do “nono” no agora conhecido Engenho do Nono, ponto de destaque do roteiro turístico Vila D’Itália.
Para Gilmar, a permanência na propriedade é uma questão de missão espiritual e familiar. Apesar de ter trabalhado fora por dez anos e recebido propostas tentadoras para vender a propriedade, o valor sentimental falou mais alto. A estrutura atual da roda d’água, a terceira na história do engenho, foi construída nos anos 2000 com um sacrifício pessoal: Gilmar vendeu seus bois por R$ 1.600 e contou com a ajuda do pai para completar o valor da madeira de itaúba.
Na época, o investimento era alto, mas a vontade de honrar a memória do bisavô foi maior. Mesmo com a modernização batendo à porta, o engenho optou por abdicar da energia elétrica, e foi justamente essa tradição secular que tornou a propriedade um atrativo turístico.
Manter a essência da produção artesanal
Gilmar reconhece que a eletricidade traria mais agilidade e volume, mas prefere manter a essência: “Tenho comigo que, enquanto essa roda girar, a história da nossa família não vai morrer”.
O som da água batendo na madeira é o barulho do trabalho em harmonia com a natureza, um relicário de um tempo onde o homem e o meio ambiente eram aliados próximos.
Nova geração quer seguir na atividade
Esse legado já floresce na próxima geração; a filha de Gilmar, ao testemunhar a dedicação do pai, já manifesta o desejo de nunca deixar a propriedade. Assim, o movimento da água garante que, mesmo em um mundo acelerado, a história de Gaspar continue sendo contada com a força e a alma de seus antepassados e, ao mesmo tempo, as propriedades rurais despertam a curiosidade dos visitantes.
No Engenho do Nono, além da produção e venda de cachaça, o local oferece espaço para eventos e um restaurante onde é servido, a cada 15 dias, almoço e um café colonial de dar água na boca. Tudo preparado pela família.