O despertar para o futuro
Gaspar levou muito tempo até perceber que a propriedade rural também poderia ser explorada pelo turismo
Por décadas, Gaspar pareceu ignorar suas belezas naturais. O olhar da cidade estava voltado para a terra que produzia e para os engenhos e alambiques, até o dia em que alguém percebeu que o verde exuberante da Mata Atlântica e o frescor cristalino de seus rios, córregos e cascatas não eram apenas cenários, mas um patrimônio a ser compartilhado.
A cultura pulsante e os hábitos herdados dos colonizadores revelaram-se um produto turístico de valor inestimável, capaz de atrair visitantes de todos os cantos do país e do exterior. Essa virada de chave não ocorreu por acaso, mas por necessidade. A agricultura e a pecuária, até então pilares da economia local, enfrentaram uma forte crise por conta da falta de incentivos governamentais e a mecanização galopante.
O campo passou a perder mão de obra para a indústria. Os filhos dos agricultores não queriam mais trabalhar na terra. Esse movimento começou a ganhar corpo no final da década de 1930, quando a Linhas Círculo marcou o início de uma nova era: a Gaspar industrial, com foco no ramo têxtil.
No entanto, o despertar para o turismo rural foi um processo de maturação lenta, levando quase meio século. A cidade mergulhou tão profundamente na expansão fabril e na prestação de serviços que o potencial turístico permaneceu na sombra, como uma promessa adormecida.
O Retrato da Mudança
Os números ajudam a contar essa história de resistência e adaptação:
Em 2009: O município ostentava mais de 346 km² de área rural, com 1.200 propriedades onde o arroz irrigado, a cana-de-açúcar, o gado e a piscicultura ditavam o ritmo da vida na zona rural.
Esses cenário é completamente diferente no dias atuais. Menos da metade das 300 famílias que antes viviam exclusivamente da agricultura permanecem na atividade, forçando uma diversificação criativa para se sustentar na zona rural.
Nesse vácuo entre o declínio da agricultura tradicional e o futuro, o turismo se mostrou como uma boa oportunidade das famílias se manterem no campo. As porteiras das propriedades começaram a ser abertas para os visitantes, com a instalação de pousadas, hoteis, restaurantes, parques aquáticos, cervejarias entre outros empreendimentos. Pequenos negócios, que cresceram e se transformaram em grandes empreendimentos ao longo das últimas quatro décadas. Iniciativas que geraram atrativos internacionais como o Rota das Águas, no Distrito do Belchior, no começo dos anos 1980, e mais tarde o Roteiro Vila D’Itália em terras colonizadas por italianos.
Gaspar finalmente compreendeu que o turismo não era apenas lazer de famílias e amigos, mas uma engrenagem poderosa de arrecadação, geração de empregos, renda e, acima de tudo, de preservação da própria identidade do povo colonizador.
De lá pra cá, o turismo em Gaspar evoluiu bastante, mas ainda precisa crescer mais ainda para que a presença do turista na cidade não seja apenas sazonal e que outros setores da economia também possam aproveitar economicamente da presença do visitante na cidade. Para atual secretária de Desenvolvimento Econômico, Renda e Turismo, Katiani Zimmermann, em entrevista a página 20, falta uma maior união dos empresários do setor e principalmente a maior presença do poder público na infraestrutura, como uma sinalização turística e boas estradas.
Lazer onde antes era lavoura
O turismo rural em Gaspar nasceu há mais de 40 anos. A ideia saiu da cabeça de um agricultor: Albano João Thais, morador do Belchior Alto, região privilegiada pela vegetação abundante e o extenso lençol d´água existente no subsolo.
Enquanto os vizinhos represavam toda essa água para irrigar as lavouras de arroz, milho, feijão e produzir uma das melhores aguardentes do Vale do Itajaí, Albano decidiu explorá-la como atrativo turístico, já que na propriedade, localizada na Estrada Geral da Carolina, havia uma represa e uma cascata. A ideia parecia meia maluca. Mas, confiante, Albano persistiu.
Ele foi até um antigo refúgio, do outro lado cidade, no Bairro Gaspar Alto, conhecer o único local do gênero no município. Albano viu quiosques e churrasqueiras em volta da represa e fez a mesma coisa na sua propriedade. Batizou o seu empreendimento de Cascata Carolina.
No início, a propaganda foi no boca-boca, mas já no primeiro dia o movimento foi acima do esperado. Por cinco anos, a represa e os quiosques foram os únicos atrativos aos visitantes, a maioria moradores do Belchior e de cidades vizinhas, que entre um jogo de truco e outro petiscavam, bebiam e jogavam conversa fora.
Percebendo que o negócio ia prosperar, em 1988 a família Thais investiu na construção de uma piscina de água natural no formado do mapa de Santa Catarina. De lá pra cá, o empreendimento não parou mais de crescer. Nos anos 1990, mais duas piscinas foram construídas – uma no formato de uma flor e outro lembrando um pinheiro – juntamente com os famosos toboáguas, chafarizes, a famosa “Ponte do Rio que Cai”, quiosques com churrasqueias, trilhas ecológicas, espaço para eventos e toda a infraestrutura de serviços.
Uma das prioridades do Parque sempre foi a preservação do meio ambiente e oferecer qualidade e pureza nas águas naturais que abastecem as piscinas. Assim o Parque Aquático Cascata Carolina segue com a mesma missão desde a sua origem: Proporcionar experiências únicas de lazer e diversão em família e integração com a natureza.
O banho em água na cascata, que deu origem ao parque, é um ritual quase obrigatório para quem visita o empreendimento que assim preserva uma tradição dos primeiros moradores do Belchior.