Dra.Tatiana e o medicamento que pode fazer pessoas recuperarem os movimentos
Desenvolvida no Brasil, a polilaminina é capaz de regenerar neurônios danificados
O Brasil, que nos últimos anos vem se destacando mundialmente em vários esportes com medalhas olímpicas, inclusive na neve, pode entrar para um seleto grupo de países ganhadores de outro prêmio: o “Nobel de Medicina”. Prêmio, aliás, que outros médicos brasileiros, como Carlos Chagas e Osvaldo Cruz, chegaram bem próximo.
Pela primeira vez, uma mulher é responsável por criar essa expectativa. Trata-se da bióloga, professora e pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Dra. Tatiana Coelho de Sampaio.
A bióloga lidera uma pesquisa inédita no mundo, em parceria com o Laboratório Farmacêutico Cristália, 100% nacional, capaz de estimular a regeneração de neurônios danificados com o uso da polilaminina. A descoberta pode representar o maior avanço da medicina na área de regeneração de células, já que, até então, as células nervosas (neurônios) eram consideradas com capacidade extremamente limitada ou nula de se dividir para repor perdas. A pesquisa acende uma enorme esperança para pacientes com traumatismo raquimedular (TRM) recente (até 72h da lesão).
As lesões raquimedulares interrompem a comunicação entre o cérebro e o corpo, trazendo limitações severas como a paraplegia (perda dos movimentos dos membros inferiores) ou a tetraplegia (comprometimento dos movimentos do pescoço para baixo). Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, entre 250 mil e 500 mil pessoas no mundo sofrem lesão medular a cada ano — condição, até então, sem tratamento medicamentoso efetivo. Essas lesões são frequentemente causadas por acidentes de trânsito, quedas ou mergulhos. A polilaminina surge como uma alternativa promissora para reverter esse cenário.
Em duas décadas e meia de estudo — quase metade de sua vida —, a Dra. Tatiana descobriu, quase por acaso (conforme contou em recente entrevista, já que seu estudo inicial era focado na maneira como as proteínas se associavam e se dissociavam), que a laminina atua diretamente na regeneração da região da medula espinhal afetada. “A laminina tem três partes e eu estava tentando separá-las usando algumas substâncias, mas, ao invés disso, percebi que a proteína estava se juntando a outras”. Segundo a Dra. Tatiana, esse fenômeno de a laminina se juntar a outras substâncias era algo desconhecido da medicina. “Essa foi a grande descoberta”, afirma.
A pesquisadora admite que estava usando a proteína sem saber que era ela que auxiliava na formação das células nervosas ainda no período de gestação. “Foi somente uma semana depois que descobri para o que de fato servia essa substância. Não foi nada compulsivo, foi sorte. Foi como achar o segredo de um cofre quando se coloca lá um número qualquer e dá certo”, comparou. A partir daí, a pesquisa foi redirecionada para a produção da laminina em laboratório. A substância foi batizada de polilaminina.
Testes em humanos já permitiu que pacientes paraplégicos e tetraplégicos recuperassem parcialmente os movimentos. Os resultados repercutiram fortemente entre especialistas e na comunidade científica mundial, a ponto da Dra. Tatiana aparecer nas pré-listas de potenciais candidatos ao Prêmio Nobel de Medicina.
O que é a polilaminina?
A polilaminina é uma proteína produzida em laboratório a partir da laminina — uma proteína natural do corpo humano que se forma na placenta e desempenha papel fundamental no desenvolvimento das células nervosas. A Dra. Tatiana descobriu que é possível produzir a laminina fora do corpo humano e aplicá-la por meio de injeção diretamente na região lesionada da medula espinhal. A substância cria um ambiente favorável para o crescimento de novos axônios e a reconstrução dos circuitos nervosos rompidos, devolvendo a conexão entre a medula e o cérebro. A substância (ou medicamento), ainda chamada de experimental, atua diretamente no local da lesão medular e funciona como uma espécie de “cola biológica”. “É uma alternativa mais acessível e segura do que as células-tronco. Nossos estudos estão em estágio mais avançado, pois as células-tronco possuem imprevisibilidade após a aplicação”, explica a Dra. Tatiana.
O estudo passa pela fase 1 dos testes clínicos, que avalia a segurança e os primeiros sinais de eficácia do método. Até o momento, 15 pacientes brasileiros receberam a medicação, sendo oito em estudos clínicos. Dois desses pacientes eram casos de acidentados graves que estavam na emergência do hospital e acabaram falecendo por outras complicações. Outros seis recuperaram o movimento e a sensibilidade. Sete pacientes receberam a medicação em uso compassivo (autorização para aplicação em pessoas fora do estudo clínico, sob critérios rigorosos). Até o final do ano passado, os testes estavam suspensos aguardando autorização formal da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para a continuidade dos estudos, o que ocorreu no dia 5 de janeiro.
Pacientes voltam a ter movimentos
O primeiro paciente, de 37 anos, tratado com o medicamento ficou tetraplégico após um acidente automobilístico no Espírito Santo. Menos de 48 horas após a aplicação da polilaminina, ele relatou o retorno da sensibilidade. Outro caso é o de um homem de 35 anos que sofreu uma queda de moto e voltou a apresentar movimentos no pé e sensibilidade nas pernas após o uso. Também apresentaram melhora nos movimentos um homem de 35 anos e um jovem de 24 anos que sofreu um acidente em uma cachoeira.
Mas o caso mais incrível é o de Bruno Drummond de Freitas, de 31 anos, diagnosticado com tetraplegia após um acidente automobilístico. Bruno recuperou completamente os movimentos depois de receber a aplicação da polilaminina. O caso de Bruno era bastante grave, pois ele fraturou a vértebra C6 em uma região muito próxima ao pescoço, o que tornava a recuperação impossível.
Logo após dar entrada no hospital, ele foi levado para a mesa de cirurgia para a implantação de um pino na coluna fraturada — um procedimento ortopédico que, por si só, não devolveria os movimentos, já que a medula fica dentro do osso da coluna. Enquanto os médicos preparavam a cirurgia, um membro da equipe comentou sobre o medicamento desenvolvido pela equipe da Dra. Tatiana. Um tio de Bruno, que é médico, fez uma rápida pesquisa na internet e consultou outra pessoa da família, uma médica neurocirurgiã, que já conhecia o estudo e disse que valia a tentativa, já que o quadro era considerado irreversível. “Pior do que eu estava, não poderia ficar”, contou Bruno em entrevista ao jornalista Danilo Gentili, no programa “The Noite” (SBT).
Bruno acordou três dias depois, quando soube que havia perdido os movimentos do pescoço para baixo. “No início fiquei bem triste, só tomava Rivotril e dormia, mas depois acabei me conformando; eu estava vivo e iria aproveitar a vida como desse”, relembrou. Três semanas depois do acidente, Bruno começou a sentir sensibilidade e mexeu o dedo de um dos pés. “No início não dei muita importância, mas depois os médicos me disseram que, quando o sinal do cérebro vai até uma extremidade do corpo, é porque está conectando o corpo inteiro. Os médicos mudaram o diagnóstico: de um cadeirante totalmente dependente, passei a ser um cadeirante independente”, relatou.
As surpresas continuaram: aos poucos, Bruno foi sentindo os músculos das pernas e braços. Em seis meses, ele estava novamente caminhando. A Dra. Tatiana acredita que a rapidez na cirurgia e na aplicação do medicamento foram fundamentais. “A medula, quando sofre um trauma, incha, e essa compressão dentro do osso da coluna faz com que a lesão se perpetue. O ideal é liberar essa compressão o mais rápido possível. O fato de ele ser jovem e a lesão ter sido 'fechada' (comprimida, não rompida totalmente) também foram fatores importantes”, observa a bióloga.
Orientações e Futuro
A Dra. Tatiana explica que a polilaminina não é recomendada para casos de desgaste ósseo ou hérnia de disco (doença de coluna muito comum), já que a finalidade não é regenerar ossos, mas reconectar o "fio condutor" medular. Sobre a aplicação em pessoas com traumas antigos (crônicos), a pesquisadora esclarece que, embora teoricamente possível no futuro, ainda faltam respostas. “Acredito que vá funcionar, mas como já existe uma cicatriz no local, o efeito pode não ser o mesmo. Ainda precisamos de mais estudos”.
Anvisa autoriza estudos
Em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início de um novo estudo clínico para avaliar a segurança do uso do medicamento. Nesta nova fase, o estudo será realizado em cinco pacientes voluntários com lesões agudas da medula espinhal torácica, entre as vértebras T2 e T10. As pessoas incluídas no estudo devem ter indicação cirúrgica ocorrida há menos de 72 horas da lesão.
Segundo o diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, a aprovação do início de novos estudos clínicos da polilaminina foi priorizada pelo comitê de inovação da agência, com o objetivo de acelerar pesquisas e registros de amplo interesse público. “Uma pesquisa 100% nacional, que fortalece a ciência e a saúde do nosso país”, afirmou Safatle.
Polêmica em torno da patente
Nas últimas semanas, a grande mídia publicou matérias creditando à Dra. Tatiana a informação de que a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) havia perdido a patente internacional da polilaminina por falta de pagamento, em função de cortes de recursos do governo federal entre os anos de 2015 e 2016. Todo ano é necessário renovar a patente.
As publicações nas redes sociais informavam ainda que a Dra. Tatiana havia solicitado a patente do medicamento em 2007, mas o processo só teria sido concluído em 2025, e que o país só não perdeu a proteção nacional porque a pesquisadora teria pago as taxas do próprio bolso. Com a suposta perda da patente internacional, outros países poderiam produzir livremente a polilaminina, deixando de pagar royalties ao Brasil.
O Laboratório Cristália, porém, publicou em seu site uma nota de esclarecimento desmentindo as informações. O laboratório afirma que solicitou, em 2022, a patente nacional e, em 2023, a internacional do processo de extração, purificação e polimerização da polilaminina. “Trata-se de um processo complexo, que demanda alta tecnologia e que foi desenvolvido com exclusividade pelo centro de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação do laboratório Cristália. Como todas as patentes, as relativas ao processo de polimerização têm validade de 20 anos, vencendo em 2042 a patente nacional e em 2043 a internacional”, afirma o comunicado.
O laboratório esclarece, ainda, que assim que a polilaminina obtiver o registro da Anvisa, oferecerá o medicamento ao SUS e aos hospitais particulares. Ressalta também que o fornecimento para uso compassivo é gratuito e realizado unicamente por equipe treinada.
O Projeto
O projeto de desenvolvimento da polilaminina iniciou-se em 2007 com a equipe da Dra. Tatiana, sendo incorporado pelo Laboratório Cristália a partir de 2018. Em 2021, formalizou-se a parceria com a UFRJ. Para viabilizar o projeto, o Cristália firmou parcerias com a Santa Casa e o Hospital Municipal de Itapira para a coleta voluntária de placentas. “As doações atuais suprem nossa demanda, mas será necessário expandir a base de coleta com o aumento da produção”, afirma Rogério Almeida, vice-presidente de P&D do Cristália.
Eficácia e segurança
O Dr. Ogari Pacheco, presidente do Conselho e fundador do Cristália, ressalta: “Produzir a polilaminina e disponibilizá-la para hospitais brasileiros colocará o país na vanguarda da medicina”. A Dra. Tatiana reforça que todos os testes comprovam a segurança da substância para uso humano. A próxima fase contará com a parceria do Hospital das Clínicas da USP para as cirurgias e da AACD para a reabilitação.
O laboratório confirma que os dados disponíveis demonstraram eficácia apenas para uso em pacientes na fase aguda (até 72 horas da lesão). É possível que haja eficácia na fase subaguda (algumas semanas), porém a eficácia diminui quanto mais tempo se passa após o trauma.
No caso de lesões crônicas (mais de 90 dias), o laboratório é cauteloso: “Estamos conduzindo estudos experimentais em animais para definir como — e se — o tratamento poderá ser realizado em humanos. No momento, não recomendamos o uso em pessoas com lesões crônicas”. O Cristália informou ser o único produtor mundial da substância e alertou a população contra possíveis golpes e promessas falsas de venda do medicamento.