Um em cada três estudantes já sofreu bullying

Por trás desse levantamento do DataSenado estão histórias de sofrimento, isolamento, depressão e até suicídio

Por Kassiani Borges

Quando os casos chegam até os educadores, as partes envolvidas são chamadas

O bullying, termo que ganhou notoriedade mundial a partir da década de 1970, deixou de ser visto como uma simples “brincadeira entre crianças” para ser reconhecido como um comportamento violento, capaz de gerar sérias consequências emocionais e sociais. No Brasil, essa percepção resultou na criação da Lei 13.185, em 2015, que instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática. A legislação transformou o tema em prioridade, mas os números mostram que, mesmo com avanços, o problema só aumenta.

Levantamento do DataSenado apontou que, em 2023, cerca de 6,7 milhões de estudantes brasileiros afirmaram ter sofrido algum tipo de violência escolar. Um em cada três alunos no país já foi vítima de bullying, o que corresponde a mais de 20 milhões de jovens. Os cartórios de registro civil também registraram, no ano passado, 121 mil notificações de bullying e cyberbullying, uma média de 10 mil casos por mês. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania revelou que a violência escolar saltou de 3,7 mil registros em 2013 para 13,1 mil em 2023, demonstrando a gravidade da situação. Por trás desses números, estão histórias de isolamento, depressão e até casos de suicídio, que alertam para a urgência do enfrentamento. Embora seja uma realidade nacional, Gaspar também não está imune a esse cenário. Nas escolas do município, situações de intimidação e humilhações constantes chegam com frequência à Secretaria de Educação, e em alguns casos já se transformam em episódios de violência física.

A secretária de Educação, Andréia Symone Zimmermann Nagel, reconhece a dimensão do problema e afirma que o poder público tem buscado respostas. “Nós temos recebido relatos que já não são apenas de provocações, mas de situações de violência. Isso nos preocupa e exige medidas mais efetivas.

Recentemente, reunimos representantes da Polícia Militar, Polícia Civil, Conselho Tutelar e da assistência social para discutir protocolos de atendimento, porque hoje ainda não temos um fluxo estruturado para lidar com esses casos”, explica. Esses encontros, segundo a secretária, devem resultar em um plano de ação com participação de órgãos como OAB, Ministério Público e programas de prevenção, como o Proerd.

A ideia é que o combate ao bullying envolva não apenas a escola, mas toda a rede de proteção social.
Para a psicóloga Cristiane Lorenzi Junges, que atua na Secretaria de Educação, a prevenção é a palavra-chave. “O trabalho precisa começar dentro das escolas, com projetos que estimulem a empatia e a cooperação entre os estudantes. Ter profissionais de psicologia atuando de forma mais próxima é fundamental, porque conseguimos identificar precocemente situações de sofrimento e trabalhar junto às famílias”, afirma.

Ela ressalta, no entanto, que ainda há resistência por parte de algumas famílias. “Muitos pais enxergam o bullying como uma ‘brincadeira de criança’, ou até defendem os filhos mesmo quando são os agressores. É preciso desconstruir essa visão, porque o bullying não é apenas uma fase, é um comportamento que machuca, que deixa marcas.”

A assistente social Tiele Alexandrino complementa, destacando a importância da rede de apoio em casos mais graves. Segundo ela, muitas situações de bullying refletem problemas que se originam fora da escola. “Às vezes, o aluno convive com conflitos familiares, violência doméstica ou negligência. Isso se reflete no comportamento dentro da sala de aula. Por isso, é essencial que tenhamos o apoio do CRAS, do CREAS e também da saúde para oferecer acompanhamento completo”, explica.

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Em Gaspar, os episódios mais frequentes acontecem entre estudantes do 6º ao 9º ano, fase marcada pelas transformações da adolescência. Mas crianças menores também não estão livres de sofrer intimidações. A escola, nesses casos, aplica medidas que vão desde advertências e suspensões até mudanças de turma, de turno e, em algumas situações, de unidade escolar. A intenção, contudo, não é apenas punir, mas buscar soluções que ajudem a interromper o ciclo de violência.

A secretária Andréia reforça que a família é um elo essencial nesse processo. “A escola sozinha não dá conta. Precisamos de pais e responsáveis atentos, dispostos a dialogar e a acompanhar de perto a vida escolar dos filhos. É dentro de casa que os valores de respeito e empatia começam a ser construídos”, afirma.

Na Escola de Educação Básica Norma Mônica Sabel, uma das maiores de Gaspar, a realidade do enfrentamento ao bullying é vivida no cotidiano. Segundo a diretora, Maria Rogéria Silva Müller, as situações chegam até a equipe principalmente por meio dos próprios estudantes.

Quando isso acontece, a escola segue protocolos claros: o primeiro passo é reunir os envolvidos para uma conversa imediata. “Nossa ação é chamar imediatamente as partes envolvidas. Conversamos, eles refletem e, na grande maioria das vezes, se desculpam e percebem o erro grave que cometeram”, relata Maria Rogéria.

Esse diálogo é inicialmente conduzido pelas professoras em sala de aula, mas quando a situação não se resolve, a coordenação e a direção assumem a mediação. A diretora reforça que a escuta é constante e que os estudantes demonstram confiança em procurar ajuda. “Aqui em nossa escola eles nos relatam sim, nos procuram, contam o que está acontecendo e tentamos sempre da melhor forma resolver.”

O trabalho preventivo também ocupa espaço na rotina pedagógica, com ações que buscam sensibilizar a comunidade escolar. “Estamos sempre buscando temas para que todos compreendam que bullying é algo muito sério, e pode fazer muito mal para a vida das pessoas”, afirma. Palestras com a Polícia Militar, encontros com representantes da OAB e até peças teatrais sobre o tema são algumas das iniciativas já realizadas.

Os pais, por sua vez, também participam ativamente do processo. Segundo Maria Regina, existe uma boa receptividade da comunidade familiar. “Sempre que possível, os pais nos procuram para relatar se algo de errado está acontecendo. Atendemos todos com muito carinho e respeito, tentando entender e resolver cada caso.” Diante desse quadro, Gaspar se une a tantas outras cidades brasileiras na tentativa de enfrentar um problema complexo, que não tem solução imediata. Mas especialistas e gestores concordam em um ponto: mais do que punição, o caminho está na prevenção, no diálogo e no fortalecimento dos vínculos entre escola, família e sociedade. Transformar a escola em um espaço seguro, de aprendizado e inclusão é um desafio coletivo, que exige ação conjunta e constante vigilância.

Preconceito por causa da cor da pele

Entre os casos já registrados na Escola de Educação Básica Norma Mônica Sabel, está o de Ytielle Rocha da Silva, hoje com 13 anos. Aos 11, a estudante enfrentou episódios de bullying diretamente ligados à sua identidade e à valorização da cultura negra. Seu pai, Ailton Zoelio da Silva, de 44 anos, relembra a dor vivida pela filha. “Manter essa identidade já estava um tanto difícil, pois assumir os fios naturais virava motivo de piadas e apelidos. Ela era discriminada e o preconceito persistia de forma direta”, conta.

A pressão fez com que a menina, mesmo acolhida pela escola, tentasse esconder quem era. “Já exausta de tanta exposição, procuramos a direção, que nos acolheu de forma generosa, resolvendo os fatos. No entanto, Ytielle insistia em remover os cachos e alisar o cabelo, para dessa forma ser melhor aceita e inserida nos grupos de amizade”, recorda o pai.

O caminho para a reconstrução da autoestima veio com a soma de esforços entre família, escola e acompanhamento psicológico. A instituição promoveu palestras e rodas de conversa, buscando conscientizar alunos sobre o impacto do bullying e da discriminação na vida de quem sofre. Aos poucos, Ytielle encontrou forças para reafirmar sua identidade. “Ela entendeu que a beleza da vida não está apenas na aparência ou no que possuímos, e sim no valor e nos sentimentos que carregamos, representando o verdadeiro ser humano que somos”, destaca Ailton.

Hoje, a estudante segue firme em sua trajetória escolar, com notas de excelência e um posicionamento maduro sobre o tema. “Ela se sente segura de si e leva suas experiências para quem aceita sua ajuda”, afirma o pai. Natural de Florianópolis, Ytielle continua matriculada no Norma Mônica Sabel e vive em Gaspar sob os cuidados do pai, que a acompanha de perto em cada etapa.