O Brasil e o RS de lutos
Como abrir essa coluna escrevendo sobre esportes, se o Rio Grande do Sul, minha terra natal, e o Brasil choram a morte de 231 jovens na tragédia da Boate Kiss, na madrugada do último domingo. Não tem clima para falar de esporte, e até entendo que diante da dimensão da tragédia de Santa Maria, todos os eventos esportivos do final de semana deveriam ter sido cancelados, e não apenas a rodada do Campeonato Gaúcho. Não havia clima para mais nada, os olhos do Brasil e do mundo estavam voltados para a cidade gaúcha. Mas, enfim, havia compromissos comerciais inadiáveis e o tempo era curto para se reprogramar o domingo esportivo.
Havia me preparado para escrever sobre a grande final da Taça José Censi no Óleo Grande, a qual estive lá, na tarde de sábado, e vi um público alegre e vibrante, muita gente jovem confraternizando com amigos e familiares em um evento bem organizado pelo amigo Ademir Schuart e sua família. Mas não dá, admito. A tragédia de Santa Maria, que enlutou o Brasil ainda está bem viva na minha memória e de todos os brasileiros, e precisava escrever sobre isto, desabafar.
Por dever profissional, acompanhei todas as notícias (TV, rádio, internet e jornais), desde as 9h da manhã de domingo quando soube do fato e, diante do horror das cenas, não tive como segurar a emoção. Penso que essa tragédia jamais será esquecida pelos brasileiros, assim como meu pai, aos 80 anos de vida, tão logo soube do acontecido apressou-se em lembrar-me de outra tragédia, ocorrida há mais de 40 anos, quando um incêndio criminoso em um circo no Rio de janeiro matou mais de 500 pessoas, a maioria crianças.
Entre os mortos da tragédia de Santa Maria, havia desportistas como um jovem que chegou a defender a Seleção Brasileira Juvenil de Basquete. Nos velórios e enterros vi, sobre alguns caixões, camisas e bandeiras de Inter e Grêmio, revelando que além da paixão pela vida, muitos jovens também eram apaixonados pelos dois maiores clubes do futebol gaúcho.
A maioria era universitários, alguns recém-matriculados na faculdade, outros praticamente formados. Perdas irreparáveis de futuros profissionais que certamente poderiam escrever outra história para esse Brasil de tantas desigualdades e injustiças. A minha tristeza é também porque sou pai e sei da angústia e apreensão quando o filho sai para a balada, embora todas as recomendações sejam feitas. Para esses pais enlutados, não haverão mais noites de angustiante espera, só de saudades pela lacuna deixada no adeus prematuro.