A Ladra Perfeita

Por Greyce Sansão

Conversações

A pior ladra não entra pela janela. Ela chega com um projeto de pesquisa aprovado.
A tese nunca arromba a porta. Ela bate baixinho, pede licença e entra com um sorriso de quem promete não incomodar. Você acredita. Afinal, ela só quer alguns anos da sua vida.
No começo, é uma companhia encantadora. Faz você comprar cadernos novos, sublinhar livros, imaginar descobertas capazes de mudar o mundo ou, pelo menos, uma banca examinadora. Ela se mostra discreta. Só preciso de algumas horas por dia, diz. Você concorda.
Acontece que a tese tem um talento raro: ela não rouba horas. Rouba aquilo que existe entre elas.
É a primeira a acordar e a última a dormir. Senta-se à mesa durante o café da manhã, acompanha o almoço, aparece no banho com uma ideia genial e insiste em deitar ao seu lado quando a única coisa que você gostaria era desligar o pensamento.
Ela não leva apenas o seu tempo. Leva o tempo da respiração funda. O tempo da pausa. O tempo do silêncio que não precisa produzir nada. Aquele silêncio fértil que, curiosamente, costuma ser o começo das melhores ideias.
A tese é ciumenta. Não gosta quando você sai para caminhar sem convidá-la. Faz cara feia diante de um jantar entre amigos. Tolera mal um fim de semana em família. Sempre encontra uma forma de lembrar que existe um capítulo incompleto, uma referência esquecida, um parágrafo que ainda pode melhorar. E você, que passou anos aprendendo a desconfiar de hipóteses fáceis, acredita em todas as promessas dela. Depois da qualificação, descanso. Depois deste capítulo, volto a viver. Depois da entrega...
A tese adora a palavra depois. Ela mora nela. O curioso é que a universidade ensina a identificar caminhos metodológicos, mas diz muito pouco sobre o longo tempo da própria dedicação. Há uma cultura silenciosa que aplaude quem responde e-mails à meia-noite, quem transforma férias em revisão bibliográfica e quem exibe olheiras como se fossem títulos honoríficos. A exaustão, às vezes, ganha um prestígio que nunca mereceu. E não tem espaço no Lattes. Mas a tese não precisa de um mártir. Precisa de um pesquisador. Um pesquisador que caminhe. Que almoce sem culpa. Que aceite o escândalo de passar uma tarde sem produzir uma única linha. Que preserve amigos, afetos, sono e o direito de ficar em silêncio. Porque nenhuma ideia amadurece apenas sob a luz fria da tela e os olhos atentos de um tal Qualis. Algumas precisam da conversa despretensiosa, da janela aberta, da música, da vida acontecendo. A tese vai embora um dia. Ela é entregue, encadernada, arquivada e, com sorte, citada. Você, não.
Por isso, enquanto ela insiste em querer todos os seus dias, tenha a deselegância de negar alguns deles. Reserve-os para a vadiagem, para a preguiça, hummm para uma rede. A tese pode esperar algumas horas.
A vida, nem sempre.