A revolução discreta numa fatia de goiabada
Há ideias que mudam o mundo; outras apenas fazem fila em congresso atrás de uma fatia de goiabada talvez porque, como diria o velho Deleuze, tudo no fim deseje escapar: o sentido, o controle, o queijo e até a dignidade acadêmica.
Descobri a falência parcial da cultura contemporânea num congresso acadêmico. Um professor explicava “as performatividades líquidas da subjetividade pós-digital”, frase tão sofisticada que ninguém ousava admitir não entender. Outro denunciava o capitalismo de plataforma enquanto atualizava o Linkedin no celular. A plateia fazia aquela expressão intelectual que mistura sofrimento e prisão de ventre. Então veio o intervalo do café.
Uma senhora pousou um tabuleiro de goiabada cascão sobre a mesa. E aconteceu a revolução. Doutorandos atropelaram discretamente suas teorias críticas para pegar dois pedaços. Uma pesquisadora perguntou se o doce possuía “rastreabilidade ética da fruta”. Um especialista em inteligência artificial fotografou a sobremesa antes de comer. Hoje ninguém mastiga sem antes informar o algoritmo. Foi ali que entendi: a goiabada venceu.
Enquanto o mundo discute metaverso, pós-humanismo e ansiedade climática, a goiabada permanece intacta, sem precisar de atualização, senha ou tutorial em vídeo. Nunca enviou notificação perguntando se ainda estamos acordados. Apenas existe, o que atualmente já parece um gesto revolucionário.
A cultura contemporânea inventou pessoas que não almoçam: “experienciam narrativas gastronômicas”. Não envelhecem: “ressignificam o corpo”. Não sofrem: “produzem conteúdo sobre vulnerabilidade.”
A goiabada não. Ela segue democrática e pegajosa. Não importa quantos artigos você publicou sobre colonialidade do saber: o queijo sempre escapa da faca e cai no chão da cozinha.
No fim, talvez a civilização não seja medida pela inteligência artificial que produzimos, mas pelas receitas simples que ainda conseguem nos devolver à condição de humanos.
Quer uma fatia?