Ou aqui ou acolá

Por Kassiani Borges

Edição da semana 29/01/2026

No balcão engordurado de um bar de esquina, quatro copos suados de cerveja disputavam espaço com os celulares reluzentes. Entre goles e deslizes de tela, a conversa chegava àquele ponto inevitável, onde todo brasileiro um dia se vê: o país que temos e o país que poderíamos ter sempre comparado com aquele lá fora, que parece cintilante feito vitrine de shopping. “Se fosse na Europa, não tinha buraco na rua”, disse o primeiro, cutucando com o pé a rachadura do cimento. O segundo, mais exaltado, emendou: “Na América, tudo funciona. Até fila de banco tem respeito.” O terceiro sorriu com desdém: “O problema é a gente. Brasileiro não sabe viver. Por isso, se pudesse, já tinha ido embora.”

E todos se viraram para o quarto, que permanecia calado. Chamavam-no de Zeca, sujeito franzino, dono de um humor que ninguém sabia se era amargo ou sábio. Ele terminou o gole, limpou a boca com a manga da camisa e falou baixo, como quem não queria interromper o coro: “É curioso... a gente sempre acha que a felicidade mora em outro CEP. Aqui é atraso, acolá é futuro. Aqui é bagunça, acolá é ordem. Mas quem diz que o problema não vai na bagagem? Já pensaram que o Brasil que vocês renegam é o mesmo que habita dentro de vocês? O mesmo que atravessa o sinal vermelho, que fura fila, que compra pirata e chama de esperteza?”

O silêncio caiu mais pesado que o ar abafado da noite. O garçom, sem ser chamado, trouxe outra rodada, talvez para salvar a mesa do constrangimento. Zeca prosseguiu, agora mais firme:

“Não me entendam mal. Lá fora tem coisas boas, sim. Mas o tal acolá não existe sozinho. Ele só funciona porque alguém acredita nele, porque alguém insiste em cuidar da calçada, do ônibus, do voto. Aqui, a gente prefere acreditar que basta atravessar o oceano pra virar cidadão exemplar.” Um riso nervoso escapou do segundo. “E você, Zeca? Nunca pensou em ir embora?” “Claro que já pensei”, respondeu ele. “Todo mundo pensa. Mas, no fim, sempre fico com a mesma dúvida: se for pra ser estrangeiro em terra estranha, sem nunca me sentir de lá... não seria mais honesto tentar ser de verdade daqui?”

E, sem esperar réplica, levantou-se, pagou sua parte e sumiu pela rua mal iluminada. Os outros permaneceram, cada um diante do próprio copo, sem saber se o amargor vinha da cerveja ou da consciência.

Obra de Vick Muniz
Doutorando em Patrimônio Cultural (Univille/SC) Historiador (UFSM/RS), e mestre em Educação (UFSC/SC), é escritor e editor. Tem diversos títulos publicados. Destacamos seus mais recentes livros: DOBRAS (editora Traços & Capturas, 2021); Palavra d’Água (editora Traços & Capturas, 2022); Fio do Silêncio, em parceria com a escritora Kátia Nascimento (Kotter Editorial, 2023). Seu livro mais recente foi Tic, Tempo Tem? ( Traços & Capturas, 2024).