Do lado de fora da porta blindada
Escrevo com a caneta enlameada de mundo. A realidade não se deixa alinhar como xadrez de salão: ela prefere os becos, onde a luz falha e os de sempre puxam o gatilho, batizando o estampido de ordem.
A Venezuela surge nesse beco como corpo sitiado. As sanções chegam vestidas de virtude, mas trazem no bolso o cheiro da asfixia econômica. O discurso se lava em palavras puras; a prática, não. O dedo que acusa aponta para dentro, enquanto o cerco se fecha por fora. Não é descuido: é técnica, ensaio repetido.
A Ucrânia sangra à vista de todos, convertida em fronteira viva de uma guerra por procuração. O mapa vira contrato; o povo, cláusula miúda. Fala-se em soberania com a boca ocupada de armas e pactos militares, enquanto a fatura desce em caixões e deslocamentos. Ali, a guerra não disputa só terra: ela ensina. Dá aula ao mundo sobre quem manda e quanto custa esquecer a lição.
No centro desse tabuleiro em chamas, está o povo da Palestina, vivendo sob ocupação, bloqueio e bombardeio recorrente. A desproporção deixou de ser acidente: virou política. Cada ataque se vende como defesa; cada massacre, como dano colateral. O apoio irrestrito dos Estados Unidos a Israel escancara a hipocrisia do discurso liberal: direitos humanos emagrecem quando atrapalham alianças estratégicas. A resistência palestina, criminalizada, é sobretudo a recusa em desaparecer — um teimoso gesto de existir. E o silêncio do velho mundo é ensurdecedor.
Do outro lado do ringue, Rússia e China jogam pesado. Não são santos, ninguém é, mas reduzir o conflito a duelo entre civilização e barbárie é infantil. O que está em jogo é a recusa de um mundo de dono único. Washington veste o paletó da democracia e esconde no bolso a mão invisível do mercado, essa que estrangula direitos, privatiza o necessário e chama miséria de ajuste.
Os movimentos sociais sabem: não há neutralidade quando a fome tem CEP. A esquerda aprende na rua que imperialismo não é palavra antiga; é prática cotidiana. Defender a multipolaridade não é fazer festa para autocratas: é pedir fôlego. É dizer que povos não são peças, que petróleo não é destino, que sanção mata tanto quanto bala. Só faz menos barulho. Vista de perto, a geopolítica não joga xadrez. Mora num prédio velho, de elevador quebrado, onde alguns vivem na cobertura e outros nunca passam da escada de serviço. As decisões se tomam lá em cima, mas o impacto estoura sempre no térreo: no preço do pão, no corpo que corre da bomba, no país que aprende a sobreviver com pouco. No fim, o mundo se organiza assim: poucos escrevem as regras, muitos pagam a conta. E não é difícil escolher o lado quando o tilintar das chaves denuncia quem tranca e quem fica do lado de fora.
Escolho a rua e o ar está cada dia mais denso.
Doutorando em Patrimônio Cultural (Univille/SC) Historiador (UFSM/RS), e mestre em Educação (UFSC/SC), é escritor e editor. Tem diversos títulos publicados. Destacamos seus mais recentes livros: DOBRAS (editora Traços & Capturas, 2021); Palavra d’Água (editora Traços & Capturas, 2022); Fio do Silêncio, em parceria com a escritora Kátia Nascimento (Kotter Editorial, 2023). Seu livro mais recente foi Tic, Tempo Tem? ( Traços & Capturas, 2024).