Terapia em jornal

Conheça o trabalho de Lindomar Vieira

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Lindomar Vieira, 46 anos, é a prova de que a arte pode ajudar no tratamento de todos os tipos de doenças, principalmente a depressão. Morador do Santa Terezinha, ele trabalhou em uma empresa do bairro durante dez anos, cumprindo expediente à noite. Este detalhe começou a prejudicar sua saúde até que decidiu parar. “Estava com depressão e, se eu não melhorasse, teria de ser internado”, conta. Lindomar não precisou ir para uma clínica porque redescobriu a vontade de viver por meio de uma terapia simples: o artesanato.

Por orientação médica, ele procurou algum curso para aprender novas atividades e se ocupar. Frequentou várias oficinas da Casa das Oficinas Culturais Dagoberth Günther, e outras aulas oferecidas por grupos da terceira idade das redondezas. E foi num destes cursos, oferecido por uma escola do bairro, que Lindomar encontrou a sua vocação dentro do artesanato. Ele aprendeu a transformar papel jornal em belas peças decorativas e utilitárias para o lar.

O curso terminou, mas o artesão seguiu produzindo, porque gostou muito da atividade. E enquanto se dedica às peças, mantém a mente ocupada, livre dos pensamentos depressivos que o deixaram doente. É um mundo de criatividade, onde o artista se encontra com a sua produção. Lindomar começou fazendo senta-pratos com jornal, e pouco a pouco foi aprimorando sua técnica. Dos apoios de panelas ele passou para charmosas cestas e vasilhas, que usa para enfeitar a casa, combinando com galinhas feitas de tecido, ovos de páscoa, flores e todo tipo de decoração que a criatividade permite. Até lindas guirlandas de Natal ele já sabe fazer.

Lindomar aprendeu rápido a técnica de fazer arte com jornais, começou no ano passado e hoje até cria algumas peças sozinho. Um exemplo disso é um chapéu feito com papel jornal e também um porta-guardanapos. Como o curso não continuou, ele mesmo teve de ousar e aprender a fazer outras peças. “Fiquei bastante tempo tentando descobrir como faria o chapéu e isso foi um estímulo para mim”, relata.

Após “quebrar a cabeça”, Lindomar percebeu que poderia usar um molde arredondado, também feito de jornal que o ajudaria a fazer o encaixe do chapéu. Depois foi outro processo de análise para conseguir fazer as abas. O chapéu, todo pintado de azul, parece feito de fibra. Quem não sabe da história, não encontra pistas de que foi confeccionado com papel, tamanha a perfeição dessa e de outras as peças que Lindomar tem decorando o ambiente de casa.

O artesanato funciona para ele como terapia. “Quero continuar fazendo isso, porque gosto e me ajuda muito”, afirma. Atualmente, ele frequenta aulas de tear para aprender a confeccionar flores de tecido. “Quando estou produzindo as peças, a hora passa e nem percebo. Mantenho minha cabeça ocupada e assim não penso mais besteiras”, declara.

Como se faz
O jornal, além do importante e principal papel de informar, ganhou nas mãos de Lindomar também as nobres funções terapêuticas e de encantamento. Com agilidade, o artesão prepara, com as páginas que já não serão mais lidas, canudinhos com o papel enrolado. E é com esses canudos que ele dá forma as peças.

A base de qualquer produção é trançar esses canudos. E tudo o que se precisa é de jornal e cola, além de certa coordenação motora e capricho para fazer o trançado correto. Lindomar acorda às 5h da manhã, para enrolar o papel do jornal até as 7h. Depois vai se dedicar a outras atividades, como ajudar a mãe nas tarefas da casa. Ele retoma a produção do artesanato somente à tarde. “Quando os rolinhos já estão prontos, é rápido para fazer as peças. Em uma tarde, eu faço até três cestinhas se quiser”, garante Lindomar.

O único problema é que o papel não pode estar úmido, se não fica difícil de manusear. E a montagem das peças deve ser feita com cuidado para não rasgar e dobrar nenhuma ponta.

Os artesanatos de jornal ficam tão bonitos quanto os feitos com qualquer outro material. A única ressalva é que, por serem feitos de papel, não podem molhar ou ficar expostos à umidade.