Relatos de um gasparense
O relato da vida em Gaspar no início do século XX
Os mais jovens talvez nunca tenham ouvido falar de Henrique Pedro Zimmermann. Este ilustre cidadão gasparense nasceu em 31 de março de 1900, e morreu em 1971 na cidade de Porto União. Era descendente de fundadores de São Pedro de Alcântara que por volta de 1835 se estabeleceram nas margens do Itajaí-Açu, no bairro Poço Grande. Henrique viveu somente até os 26 anos de idade em Gaspar. Depois, seguiu para Curitiba onde se dedicou ao magistério, lecionando alemão na Universidade do Paraná e várias outras matérias no Colégio Bom Jesus, dos padres franciscanos.
Embora tenha vivido apenas a primeira parte da sua vida em Gaspar, Henrique nunca rompeu os laços afetivos com sua terra natal. Tanto é verdade que em “Reminiscências” escreveu sobre a Gaspar dos primeiros anos do século XX. Os escritos de Henrique Zimmermann foram localizados no “Bumenau em Cadernos” dos anos de 1968 a 1971. Em abril de 1995, a professora e historiadora Leda Maria Baptista, republicou os importantes escritos de Zimmermann no volume 4 de Memória Gasparense.
Para quem tem interesse na história de Gaspar, os escritos de Henrique Zimmermann são preciosos, pois ilustram, em detalhes, o modo de vida da comunidade gasparense do início do século XX. Sobre a grande enchente de 1911, Zimmermann escreveu: “Ficamos oito dias em casa de nosso avô. Para onde se olhava, só se via água, circundada pelos morros. Quando retornamos para a nossa casa, ainda de canoa, esta nos ofereceu um aspecto desolador. O terreno ainda estava cheio de água; a casa estava coberta de grossas camadas de lama”.
Outra passagem importante descrito pelo professor foi a corrida atrás do ouro. Nesta época, teria vivido no município um misterioso americano chamado Richard Brown. A população dizia que ele era engenheiro ou geólogo. Brown era rico e vestia-se com elegância. O estranho morador do Poço Grande fez escavações na base do morro na margem esquerda do rio, tentando nele introduzir túneis. Não se sabe ao certo, mas a intenção poderia ser a de extrair carvão ou mesmo procurar ouro. Certo dia, o americano desapareceu, deixando para trás sua casa e seus pertences. “O ouro, porém, sempre foi e continua sendo a grande sedução do homem”, resumiu Zimmermann.
“Reminiscências de Henrique Pedro Zimmermann” traz ainda a primeira sessão de cinema, realizada num salão de baile no centro da cidade. O “extraordinário” acontecimento foi protagonizado por Frederico Guilherme Busch, proprietário do famoso Cine Busch que funcionou em Blumenau até meados da década de 1990. Zimmermann conta que a sessão foi interrompida várias vezes por rompimento das fitas ou por enguiço do motor. Busch foi também o primeiro a circular com um carro a motor em Gaspar, acontecimento descrito em detalhes pelo professor Zimmermann.
Fantasmas
A crendice do povo não tinha limites, conta Zimmermann. Segundo ele, muita gente afirmava que certas noites de luar, nos vazios ocos das janelas da casa do americano que misteriosamente havia desaparecido, surgia alguém de olhar fixo, mas que desaparecia quando alguém se aproximava da casa. Já no lado de cá do Itajaí, na entrada da propriedade de Pedro Schmitt havia uma porteira para impedir a saída do gado. Para prosseguir na estrada, era preciso abrir essa porteira. "Afirmavam muitos, que quando ali tinham que passar à noite, ouviam junto à porteira o choro doído de uma criança", conta Zimmermann em Reminiscências. Alguns moradores chegaram a pedir ao padre para que benzesse o lugar, o que este fez com certa relutância. Mas o choro não desapareceu. O fato misterioso durou anos sem uma solução, porém um grupo de pessoas que mudava uma cerca de lugar ouviu o "choro" da criança em plena luz do dia. Quase todos correram, menos um que se aproximou mais da picada de onde vinha o som. Confuso e espantado olhou para cima e então desvendou o mistério. Na verdade, era uma forquilha de galhos de uma árvore. Quando o vento os tocava friccionavam-se e produziam um ruído semelhante ao choro de uma criança, ora mais fraco ora mais forte, dependendo da intensidade do vento. "A árvore acabou derrubada, mas assim mesmo muitos ainda ouviam o choro da criança e sempre de novo afirmavam que a tinham ouvido quando por ali passaram", descreve Zimmermann.