Por uma nova vida
Casa atende pessoas com dependência química
Há 13 anos, o Arraial abriga uma comunidade terapêutica para dependentes químicos, a Novo Rumo Casa de Recuperação. Fundada pelo casal Marina e Gert Hausmann, juntamente com Elizabete e Dietter Kemmelmeier (mãe e filho), que trabalham voluntariamente, a casa hoje tem capacidade para atender a 15 pessoas. As internações, atualmente, são pagas pelas famílias, ou pela Prefeitura de Gaspar, quando são dependentes encaminhados pelos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Inicialmente, a entidade atendia gratuitamente, mas diante da falta de apoio e do alto custo do trabalho, o casal teve de estabelecer mensalidades. “Na época em que era gratuito, chegamos a ter 25 residentes, porém não conseguíamos fazer um trabalho que realmente alcançasse a todos”, lembra Marina.
Este também foi o motivo pelo qual o número de residentes foi reduzido. Para o casal, existe uma dificuldade grande de reconhecimento deste tipo de trabalho pelo poder público, principalmente a nível nacional. “Faltam políticas públicas voltadas para a recuperação de dependentes. Por isso é muito difícil mantermos o trabalho. No município até que estamos bem, temos apoio do prefeito e das secretarias de Saúde e Desenvolvimento Social. Mas ainda falta muito investimento nessa área”, observa Gert.
Além dos quatro fundadores, trabalham na casa de recuperação uma enfermeira, uma cozinheira e um técnico em agropecuária. Há também o trabalho de psicólogos e pastores que vêm semanalmente para conversar com os residentes e auxiliá-los em sua recuperação, principalmente no fator emocional. Atualmente, a entidade está com sua capacidade lotada. Dos 15 residentes, nove estão ali por dependência de drogas e os outros seis por alcoolismo.
Segundo Gert, o programa terapêutico da casa tem duração de 6 a 9 meses. Mas, na prática, um cada caso é diferente do outro. “Quando o residente tem família que participa, tem para onde voltar, a recuperação é mais fácil. Mas, na maioria dos casos, os laços familiares não existem mais”, lamenta Gert.
Existem situações de pessoas que já passaram quatro ou cinco anos na entidade, por não terem para onde ir. “Tem alguns residentes cuja família tem dependentes, ou mesmo traficantes, e então eles não podem voltar para casa, pois certamente voltarão para as drogas”, observa o fundador da comunidade. Entre as pessoas que já passaram pela entidade nesses 13 anos, Gert calcula que o índice de reincidência ainda é muito alto. Ele calcula em torno de 70%. Um dos principais motivos é que os ex-dependentes não encontram um ambiente seguro para viver quando saem da casa.
“Para mim, o pior de tudo é a ignorância de não querer aceitar a necessidade de mudar. Tanto do dependente como da família e até dos médicos que atendem essas pessoas. Isso atrapalha muito a recuperação”, diz.
Neste ano, a casa Novo Rumo está revitalizando seu modelo de atendimento e estabelecendo parcerias com algumas entidades como os Narcóticos Anônimos de Blumenau e a Cruz Azul, um braço da Igreja Luterana especializada no combate à dependência química. “Estamos buscando a filiação à Cruz Azul Mundial e acredito que isso nos ajudará bastante”, prevê Gert. Além disso, os residentes da casa também participam do grupo de apoio do CAPS.
Outra iniciativa da casa para ampliar seu trabalho é condicionar a permanência dos residentes à participação das famílias no tratamento. “A participação familiar é fundamental no tratamento e, infelizmente, poucos familiares fazem esse acompanhamento”, afirma Gert. Apesar das dificuldades, ele ainda tem um pensamento otimista e sabe da necessidade do trabalho que realiza com a esposa.
“É um trabalho que tem que continuar e precisam ser repensadas outras alternativas. Algo tem que ser feito para abrir mais espaço para esses tratamentos”, conclui Gert.