O simpático Debortoli

Ele chegou de bicicleta a Gaspar, fez fama e patrimônio

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Em 1928, o filho de imigrantes italianos, Augusto Debortoli, juntou uma muda de roupas, pegou a sua bicicleta e rumou de Nova Trento (SC) para Gaspar. Parte do trajeto ele carregou a bike nas costas porque a estrada estava um lamaçal. Augusto havia completado 14 anos. A primeira morada foi na casa da família Wehmuth, no bairro Figueira, onde a dívida de gratidão foi trocada por uma grande amizade.
Este é o prefácio da aventura de Augusto em Gaspar e que ele gostava de narrar para seus onze filhos. O resto da história muita gente conhece. Ele se tornou conhecido, fez muitos amigos e juntou um bom patrimônio em terras. Um sucesso impensável nos dias de hoje para quem se aventura na profissão de pedreiro. Seus três filhos homens seguiram o mesmo caminho.
Da cidade de onde Augusto veio tem um ditado que se diz toda vez que nasce um filho homem: - joga na parede, se grudar será pedreiro. O motivo é que por lá, o ofício de pedreiro passa de pai para filho. Óbvio que Augusto e nem um outro recém-nascido foram jogados contra a parede, afinal, tudo não passa de uma brincadeira dos moradores da cidade da primeira santa brasileira Madre Paulina, mas a verdade é que ele acabou seguindo a profissão da maioria dos homens neotrentinos. Em Gaspar, Augusto fez fama como pedreiro. Ele assina obras como a do prédio onde hoje está localizada a Panificadora Coração do Vale e dezenas de casas antigas, como a da dona Mimi, no Gaspar Grande. Porém, a obra que mais se orgulhava de ter ajudado a erguer foi a da igreja Matriz São Pedro Apóstolo. “Todas as pedras da Via Sacra foram colocados pelo meu pai. Ele trouxe as pedras de Nova Trento”, recorda Maria Helena Debortoli Daroxi, a sétima filha do casal. Ela conta que o pai era muito religioso. “Rezávamos todos os dias e, aos domingos, ele reunia a família e todos seguiam para a igreja”. 
Segundo Helena, Augusto tinha o hábito de tocar músicas religiosas usando uma folha de laranjeira entre os lábios. O Natal e a Páscoa eram ocasiões para grandes festividades na família. Filhos, tios, primos, avós, netos, genros e noras se reuniam para a confraternização. A tradição ainda se mantém, mas apenas entre os filhos de Augusto, em encontros que acontecem, no final de ano, na casa de praia que ele deixou como herança para a família.
Há dois anos, Helena decidiu procurar outros Debortoli espalhados por Santa Catarina e até fora do estado. Ela organizou, em Gaspar, o primeiro encontro da Família Debortoli. Apareceram cerca de 80 pessoas. Já no ano passado, eram mais de duzentos no evento realizado em Nova Trento. Helena tem um acervo de fotos antigas que ela sempre leva para os encontros dos Debortoli, assim como o faz nos da família Schmitt da qual descende a sua mãe. Se Augusto estivesse vivo, iria gostar dos encontros e reencontros de seus parentes porque ele era muito brincalhão e comunicativo. Além disso, era um habitual ouvinte de rádio. 

Lembranças
Helena e seus dez irmãos lembram com muito carinho do pais. Ela foi uma das últimas filhas a sair de casa, e lembra que durante este tempo aprendeu muito com os pais. “Devemos a eles a educação, a religião e a honestidade que sempre marcaram a trajetória da família”, afirma Helena.

Augusto se tornou proprietário de uma grande faixa de terra no bairro Sete
Pedreiro de “mão cheia”, como se diz, Augusto trabalhou durante muitos anos como prestador de serviço para uma empresa de construção de Blumenau. Reuniu um bom patrimônio.
Ele era proprietário de uma grande extensão de terras na entrada do bairro Sete. Augusto foi adquirindo as áreas aos poucos. Maria Helena conta que o terreno fazia limites com a Rua do Centro Cívico, terreno da Dietrich Materiais de Construção, já no bairro Santa Terezinha, até o começo da Rua Sete de Setembro. “O trem passava no meio das nossas terras”, lembra a filha.
O tamanho e o valor de todo este patrimônio? Ela nem imagina. Parte das terras foi desapropriada quando a Rodovia Jorge Lacerda foi construída, mesmo assim Augusto ainda ficou com uma grande área. No meio do terreno ele construiu a casa da família, onde nasceram seus onze filhos. A casa foi vendida e passa por reformas. Já quase no fim da vida, Augusto dividiu as terras em lotes e doou para os filhos e filhas, porém nada foi mexido até a sua morte em 1991. Há cerca de quatro anos, a família pagou, em terras, uma empresa para que instalasse infraestrutura na área para transformá-lo em um loteamento comercial. O local foi batizado de Loteamento Augusto e Helena Debortoli.  Além do loteamento, três ruas do bairro homenageiam a família Debortoli: Augusto Debortoli, Helena Debortoli e Flávio Cáudio Debortoli.

Centro Comercial
Numa parte do lote que lhe coube da herança, Helena repassou aos seus dois filhos para que erguessem um conjunto de lojas: o Centro Comercial Dois Irmãos, inaugurado em 2009. Ela e outras duas irmãs moram em casas construídas nas terras que eram do pai, além da família do irmão já falecido, Flávio Cláudio Debortoli.