Novas moradias
Várias casas estão em construção no Nova Esperança
Os sons das betoneiras, do serrote e do martelo avisam que a vida ainda está em reconstrução em duas das mais castigadas ruas do bairro Margem Esquerda. Um ano e dois meses depois da enchente e deslizamentos de terras, a situação voltou quase ao normal nas ruas Francisco Lenfers e Diogo Teodoro Pereira, o conhecido loteamento Jardim Esperança, se é que se pode considerar como normal duas vias sem nenhuma drenagem pluvial e pavimentação. Em um cálculo aproximado, cerca de 100 casas ocupam as duas ruas.
A subida de 20 metros de chão batido até o contorno da rua (onde começa uma e termina a outra) é íngreme; quando chove forma-se um lamaçal e nem todos os veículos conseguem atingir o topo. Os buracos também estão por toda a parte. As valas improvisadas nas laterais das duas ruas é a única canalização quando a água da chuva desce ameaçadora.
Nos dias 22 e 23 de novembro de 2008, choveu o suficiente para a água invadir as casas, mexer com o morro e a vida de dezenas de famílias que abandonaram às presas suas casas. Muitas delas chegaram a perder a esperança de que pudessem retornar tão cedo para suas casas. Várias residências foram interditadas pela Defesa Civil. Ao que parece, hoje existe quase a certeza de que a tragédia de 2008 foi um fato isolado, embora as chuvas fortes revelem o contrário. Os moradores dizem que pequenos deslizamentos de terra são freqüentes, e até existe a promessa de uma obra de contenção por parte da empreiteira responsável pela abertura do loteamento. A prefeitura tentou reflorestar a encosta do morro, mas a terra voltou a ceder com as chuvas frequentes de janeiro deste ano. As mudas de árvores foram arrancadas pela lama que desceu.
Alheios às promessas e tentativas da prefeitura de implantar a infraestrutura nas duas ruas, os moradores reformam suas casas e o outros vão chegando na esperança de que o morro permaneça onde está, porém, a ameaça é constante e qualquer chuva liga-se o o sinal de alerta. A jovem Ana Cláudia da Costa mora há um mês e meio de aluguel no número 505, a penúltima casa da rua Francisco Lenfers, ou seja, é vizinha ao morro. A cada chuva, forte ou não, ela admite sentir medo, mas é o que pode pagar com o salário que ganha no comércio. Na enchente de 2008, ela vivia na casa dos pais, na Rua Niterói, no Margem Esquerda, onde a perda mais significativa foi a do seu cachorro. “Fiquei desesperada e adoeci”, conta Cláudia.
O vigilante Vanderlei Camargo não esperou pelas soluções. Ele, a esposa e dois filhos moravam na mesma casa dos pais que foi parcialmente atingida em novembro de 2008. Na época, a Defesa Civil chegou a cogitar que a casa deveria ser derrubada, mas pai e filho conseguiram colocá-la novamente em condições de moradia. Vanderlei aproveitou para construir a sua própria casa, no terreno ao lado que já era da família. Se existe perigo ou não de uma nova enxurrada, a família Camargo não sabe, mas que o casal está feliz com a nova moradia não resta dúvida.
Família constrói no pé do morro
O morro continua tão ameaçador quanto as nuvens escuras que se formam no céu toda vez que se prenuncia uma tempestade de verão. As famílias das ruas Francisco Lenfers e Diogo Teodoro Pereira já se acostumaram, e nem se preocupam mais com o perigo que vem de cima.
Sem outra saída, vão se adaptando às adversidades e rezando para que uma nova enxurrada não leve para longe seus sonhos. Em novembro de 2008, o paranaense Eliel Kuachinhk não morava na rua Francisco Lenfers, mas planejava construir a sua casa no loteamento. Ele e o pai pagaram R$ 15 mil pelo lote. Eliel passou a virada de 2009 para 2010 carregando tábuas, tijolos e argamassa para a casa que começou a erguer, literalmente, no pé do morro. Se o tempo ajudar, a nova moradia vai estar pronta até março, e Eliel vai poder desocupar a casa alugada na Rua Pedro Bonifácio Sabel. Pai e filho vão também dividir o mesmo teto.
Eliel pediu as contas do emprego para poder se dedicar exclusivamente à construção da futur casa. O tio Dinei Lima está ajudando na obra no período da tarde. Eliel diz que a planta da casa está aprovada na prefeitura, por isso não existe risco de embargo, embora saiba que o morro é sempre uma ameaça em dias de chuva.
A família terá, em breve, como vizinhos um outro parente que terá sua casa financiada pelos programas de habitação da prefeitura, em parceria com a Caixa Econômica Federal.
Secretaria libera área, mas casas permancem interditadas
A prefeitura de Gaspar, via assessoria de imprensa, informou que vem tentando solucionar o problema nas duas ruas. De acordo com o secretário de Obras, Joel Reinert, foram executados, no local, serviços de limpeza de tubulação e abertura de valas. Já Luiz Mário da Silva, agente de Defesa Civil no município esclarece que a parte do morro que estava interditado foi liberada, portanto, não existe mais nenhum risco. No entanto, ele grante que algumas residências nas duas ruas permanecem interditadas pela Defesa Civil de Gaspar.
Bairro foi bastante atingido
No fim de semana (22 e 23 de novembro de 2008) choveu o equivalente a quatro vezes a média histórica do mês (494,4 milímetros) no Vale do Itajaí. O resultado foram dezenas de ruas alagadas, enxurradas e deslizamentos de terra em cidades de toda a região.
No total, a tragédia fez 135 vítimas fatais. Gaspar foi uma das cidades mais castigadas pela chuva - 21 pessoas morreram, uma permanece desaparecida, 7.153 ficaram desalojadas e mais de 4 mil desabrigadas. Uma das últimas obras de recuperação foi justamente no bairro Margem Esquerda, na chamada Curva da Pedreira, na Rua Luiz Franzói, cuja metade da pista de rolamento cedeu.
As ruas Francisco Lenfers e Diogo Teodoro Pereira foram bastante atingidas pela enxurrada. Dezenas de moradores abandonaram suas casas. Hoje, todos já retornaram.
“No total, 20 ruas do bairro Margem
Esquerda foram atingidas pela enxurrada e deslizamentos de terra, segundo relatório de avaliação de danos da Defesa Civil de Santa Catarina”.