Mais de um século de comércio

Filho e nora de Elói Porcino mantém as portas abertas do mais antigo mercado do bairro Gaspar Grande

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Filho e nora de Elói Porcino mantém as portas abertas do mais antigo mercado do bairro Gaspar Grande

Há 55 anos comercializando diversos produtos, o Comercial Elói Porcínio é um dos mais antigos mercados do Gaspar Grande. Seu fundador, Elói Porcínio da Silva, nasceu no Gasparinho Quadro e entrou no ramo comercial com uma venda em Vidal Ramos. Morou lá por um ano e depois voltou para Gaspar, se fixando no bairro onde permaneceu até o fim de sua vida.

As mercadorias que vendia, Elói buscava de carroça. O arroz era comprado dos produtores da cidade. "O mercado era referência, pois tinha de tudo: panela, ferramenta... tudo o que se precisasse, se encontrava aqui", lembra Márcio Lúcio da Silva, filho mais novo de Elói e hoje administrador do negócio da família. O feijão, no início, vinha a granel, de onde só era tirado para ser vendido.

Como pagamento, Elói aceitava outras mercadorias e até vendia fiado. "Ele anotava na caderneta, mas não cobrava. Temos até hoje contas de clientes dele que nunca foram pagas", revela Clarice Sinara Demmer da Silva, esposa de Márcio. A complacência de Elói virou até dito popular. Segundo Clarice, "dizia-se pelo bairro que enquanto seu Elói vivesse ninguém ali passaria fome ou frio".

Ao lado do mercado havia também uma cancha de bocha e, próximo a ele, o Clube América, onde aconteciam jogos de futebol nos finais de semana. Esse eram os dias de mais movimento no mercado. Elói aproveitava o jogo para vender pipoca, salgadinhos, balas e refrigerantes para os torcedores. "A venda ficava cheia naqueles dias", recorda Pedro Fantoni, antigo cliente do mercado e amigo de longa data da família.

Ele acompanhou o dono da venda em algumas viagens para a compra de mercadorias. "Viajávamos para comprar batatas, na volta parávamos em Curitiba, vendíamos tudo e pegávamos uva para vender no morro da igreja [Matriz São Pedro Apóstolo]", conta. Além disso, os dois eram colegas de futebol e viajaram várias vezes pelo Estado para competir, mas essa é uma outra história.

O comerciante era sempre pontual no horário de funcionamento da loja, acompanhado da esposa Olga Schramm da Silva. Um dia o casal foi assaltado na loja. "Ele ficou bem traumatizado depois daquela vez", conta Clarice. Elói permaneceu cuidando do mercado até adoecer quando o entregou ao filho e a nora.

Futuro

Márcio trabalhou no mercado com o pai desde pequeno e conta que hoje mantém clientes de mais de duas décadas. "A maioria dos nossos clientes vêm aqui desde a época do meu pai", observa Márcio. Alguns ainda exigem que se faça o mesmo procedimento de seu Elói. O dono do mercado costumava enrolar a linguiça em papel branco e entregava ao cliente. Hoje, tem cliente antigo que ainda exige que a linguiça seja embrulhada do mesmo jeito.

Com a experiência que adquiriu, Márcio afirma que gostaria que os filhos trabalhassem no comércio, como ele o fez com o pai. Mas entende que cada um tem a sua escolha. "Hoje a concorrência é muito grande. Vamos respeitar a escolha deles de trabalharem ou não aqui", conforma-se o comerciante. Enquanto isto não acontece, Márcio e a esposa vão administrando o mercado, que é referência no Gaspar Grande.

Comerciante era envolvido nas causas comunitárias

Márcio conta que o pai era um homem muito conhecido e respeitado no bairro. Foi Elói quem trouxe, com a ajuda dos demais moradores, a energia elétrica para o bairro, em 1964. Na cidade, todos conheciam a ele e ao seu comércio, pois era um homem muito ativo e envolvido com a comunidade. Elói trabalhou por 25 anos como caixa da tradicional Festa de São Pedro.

Mesmo com idade avançada, Elói continuou atendendo no mercado das 6h às 22h, de segunda a sábado, bem como aos domingos. Sua nora, Clarice, conta que ele costumava andar com o dinheiro no bolso e deixava apenas algumas notas no caixa a fim de despistar os assaltantes. Além disso, fazia todas as contas de cabeça e dificilmente errava.

O dono do mercado era um homem preocupado e muito carinhoso com a família, tanto que hoje, os familiares falam dele com saudade. Márcio é o mais novo dentre os quatro filhos. Em homenagem ao pai, batizou seu filho de Elói Porcínio da Silva Neto. O irmão mais velho de Márcio, também carrega no nome a lembrança do dono de um dos primeiros comércios do bairro, Max Elói da Silva, conhecido médico da cidade. O nome do patriarca segue já na quarta geração, com um neto do médico. Assim como Elói se perpetua entre os descendentes, a venda mantém o mesmo nome e praticamente as mesmas características de seu fundador. "Esse nome ficou gravado na memória e nunca vamos mudá-lo", afirma.