Barriga de aluguel

Técnica multiplica o rebanho com mais rapidez

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Produtividade é hoje o principal foco em qualquer atividade. Muito mais quando o assunto é agropecuária, onde as margens de lucro estão cada vez mais estreitas. No bairro Lagoa, a família Gamborgi está sempre atrás de novidades que possam agregar valor ao seu produto, neste caso um rebanho de 50 vacas de leite da raça Holandesa.
E desde que o filho do casal Milton e Léa Gamborgi, Marco Aurélio Gamborgi, assumiu os negócios há dois anos, procurar novas alternativas tem sido uma meta. “Os custos sobem muito, se não buscarmos alternativas para gerar produtividade e renda a atividade se torna inviável”, afirma Marco.
Há cerca de um mês, a família decidiu realizar, pela primeira vez, uma técnica conhecida como coleta e transferência de embriões. Um procedimento pouco utilizado e conhecido na agropecuária de Gaspar, mas que pode trazer bons resultados para o negócio na propriedade dos Gamborgi.
Dez vacas de leite receberam embriões gerados no útero de um único animal. A grosso modo, é uma espécie de “superovulação” em que a vaca doadora, em um específico momento do ciclo estral, é estimulada por meio da aplicação de hormônios, a produzir mais de um óvulo no momento da fecundação, gerando uma quantidade maior de embriões. O sêmen do touro utilizado é oriundo de centrais especializadas.
Após sete dias de desenvolvimento no útero da vaca doadora, os embriões são coletados e introduzidos em outras fêmeas, que assumem o papel de “barrigas de aluguel”. “Foi uma alternativa que encontrei para emprenhar os animais mais rapidamente”, afirma Marco.
A técnica é diferente da inseminação artificial, quando simplesmente se introduz no útero da vaca o sêmen do touro, gerando apenas um bezerro por ano. No caso da coleta e transferência de embriões, uma única vaca pode gerar de 15 a 20 bezerros por ano, em um total de cinco a seis procedimentos em um ano. A média mundial para cada procedimento gira em torno de 3 a 4 animais/prenhez.
 
Valor zootécnico
Doutor na área de ciências com ênfase em reprodução animal, o veterinário Renato Gerger trabalha há um ano com esta biotecnologia em Santa Catarina, mais especificamente na região do Vale e Foz do Itajaí. Ele explica que o objetivo da técnica é multiplicar o número de descendentes de um único animal de reconhecido valor zootécnico. A coleta e transferência de embriões, portanto, precisa ser feita nos melhores animais de uma propriedade, com capacidade de transmitir características de interesse comercial e produtivo para seus descendentes.
A técnica, diz ele, é mais complexa e onerosa que a inseminação artificial. Por isso, embora vantajosa em termos de aumento do número de animais “melhoradores” no rebanho, ainda é pouco utilizada no Brasil. “Se explorasse essa técnica, o Estado teria um rebanho com melhor qualidade e mais produtividade”, afirma o veterinário.
Gerger, no entanto, lembra que contra o uso da coleta e transferência de embriões em Santa Catarina pesa ainda a falta de conhecimento das vantagens desta técnica por parte dos proprietários e o reduzido número de técnicos que realizam esta atividade no Estado.
Além disso, o veterinário observa que muitos produtores esperam resultados imediatos para o rebanho, o que não é o caso da aplicação da coleta e transferência de embriões. “A técnica, na verdade, não promove, num primeiro momento, o melhoramento genético do rebanho como um todo, mas na medida em que se vai intensificando o seu uso na propriedade, o rebanho ganha em qualidade, num processo de aceleração da seleção genética”, destaca Gerger.
 

Biológica

Renato  lembra que se trata de uma técnica aplicada na área biológica, ou seja, um processo multifatorial, em que o sucesso depende de uma série de fatores, incluindo a nutrição, temperatura do ambiente, dentre outros. Porém, ele faz um cálculo rápido em defesa da técnica de transferência de embriões: “Uma fêmea bovina, em condições naturais, produz um único bezerro por ano. Mas com o emprego desta biotecnologia, essa capacidade é multiplicada, podendo-se chegar a mais de 20 bezerros”.