A espera por um lar

Famílias ainda aguardam por uma casa no bairro Margem Esquerda

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Passados quase três anos, Ivone Antunes ainda lembra, com detalhes, do pesadelo que viveu em uma madrugada de 2008, quando um morro desabou soterrando diversas casas no Sertão Verde, entre elas a sua, e deixando sete mortos. Hoje, no local, resta apenas um terreno vazio, com uma placa da Defesa Civil alertando que ali é uma área de risco.

Ivone e a família só conseguiram salvar suas vidas. Do local da tragédia, ela, os filhos e netos foram alojar-se na Escola Norma Mônica Sabel, que serviu de abrigo a outras famílias. Além desse drama, Ivone perdeu o marido de infarto, meses depois.

Experiência semelhante viveu sua vizinha, Idalice Moraes. Ela já havia deixado a casa antes do deslizamento. Para tentar salvar algum bem, deixou sua televisão na casa de Ivone, acreditando que ali o aparelho estaria seguro. Idalice nem imaginava que algumas horas depois, não sobraria nada da casa em que investira todas as suas economias, assim como a casa da amiga.

Nos primeiros seis meses, elas receberam auxílio para pagar aluguel, pois tiveram de sair da escola para as aulas recomeçarem. A ajuda do governo acabou e elas tiveram de assumir o aluguel. Até hoje, tanto Idalice, quanto Ivone, e muitos outros desabrigados de 2008, continuam aguardando o dia em que entrarão em suas novas casas.

Por enquanto, o único contato com a prefeitura, desde que tudo aconteceu, foi quando as duas fi zeram o cadastro comprovando que haviam perdido tudo na tragédia. De lá pra cá, ninguém mais as procurou. “Eu até desisti de ir à prefeitura, porque eles sempre nos pedem para esperar”, afi rma Idalice. Ivone conta que já teve vontade de reunir outras pessoas na mesma situação e ir até a prefeitura para reivindicar. “No mínimo, eles deveriam continuar ajudando no aluguel, enquanto essas casas não ficam prontas”, desabafa.

No antigo lar, Ivone conta que moravam três famílias: a dela e as dos dois filhos. Todos vivem hoje de aluguel. Ivone paga R$600,00 pela moradia onde vive sozinha. Idalice, por sua vez, paga R$ 250,00 para morar no porão de uma casa. Em seus antigos terrenos, é proibido construir. “Mesmo que fosse permitido, não temos condição de fazer isso hoje”, admitem. Ivone trabalha como diarista duas a três vezes por semana e Idalice, em facção. Mas, este ano não trabalhou um mês cheio, por falta de serviço. A embaixada da Arábia Saudita no Brasil doou 70 casas de PVC para as famílias desabrigadas. Já o terreno, na margem da BR-470, foi doado pela Defesa Civil. As casas estão vazias por dentro e quase sendo invadidas pelo mato que cresce por fora. As casinhas, feitas com placas de PVC unidas por cimento, têm 36 m², foram erguidas em lotes de 150 m² e já possuem instalação elétrica e hidráulica – instaladas nas mesmas paredes de PVC e compostas de material antichamas. Em entrevista a um jornal de circulação estadual, a prefeitura diz que aguarda a liberação de R$2 milhões para as obras de infraestrutura.

 Falta infraestrutura, admite secretária

A secretária de Planejamento e Desenvolvimento, Patrícia Scheidt, confirma que a rede de infraestrutura impede que as famílias ocupem as casas. Abaixo, a entrevista que Patrícia concedeu ao Metas nos Bairros.

Metas nos Bairros: Por que as casas ainda não foram entregues?

Patrícia: As moradias ainda não foram entregues porque a infraestrutura do loteamento não está concluída. O município firmou um convênio com a Fundação Bunge para implantação do loteamento, em 2009. Coube a Fundação o financiamento dos projetos técnicos de toda a infraestrutura. Com este projeto, o município captou recursos junto ao governo federal, em dezembro de 2010 no montante de R$2 milhões. O executivo também iniciou a implantação da infraestrutura, obras de terraplenagem, orçada em mais de R$5 mil.

MB: O que ainda precisa ser feito para a conclusão das casas?

Patrícia: As moradias estão concluídas, mas não podem ser utilizadas porque não há a rede de infraestrutura: abastecimento de água, rede de energia elétrica, rede de drenagem, rede de esgotamento sanitário, etc. Acabou acontecendo o inverso, ou seja, as casas tiveram que ser construídas antes da implantação do restante da infraestrutura, pois foram doadas, e, recebemos um prazo para elas serem construídas, caso contrário perderíamos a doação. Como o custo da infraestrutura é muito alto, ficamos dependendo de convênio, o que demorou a ser firmado e agora tem todo um processo para liberação. Enfatizamos que após a catástrofe, houve muitos interessados em doarem moradias, porém não houve doação de infraestrutura.

MB: Quando as famílias poderão mudar-se para as casas doadas?

Patrícia: Ainda não temos como dar prazos. O município se empenhou em cobrar as adequações do projeto da empresa contratada pela Fundação Bunge e atualmente o projeto está na REDUR/CAIXA (Econômica Federal) para análise e aprovação. Com a aprovação na Caixa podemos ter uma previsão de início de obra.

MB: Quantas famílias serão beneficiadas?

Patrícia: Diretamente 70 famílias (70 casas doadas), mas há a nova escola que será construída no loteamento, áreas de lazer, etc. Então toda a comunidade será beneficiada. Também há alguns lotes com previsão de construção de edificações multifamiliares.

MB: A prefeitura faz algum acompanhamento dessas famílias?

Patrícia: O Departamento de Habitação tem informado e acompanhado as famílias beneficiárias. Foi realizado todo um levantamento social exigido pela CAIXA.

MB: Essas pessoas que perderam suas casas em 2008 estão vivendo de aluguel, muitas enfrentando dificuldades. Existem recursos de auxílio a essas famílias enquanto as casas não ficam prontas?

Patrícia: Há uma preocupação muito grande do município quanto à situação destas famílias, porém a burocracia é grande. Logo após a catástrofe, houve por alguns meses o auxílio do programa reação habitação.

MB: Quanto foi gasto até agora?

Patrícia: Com as obras de terraplenagem aproximadamente R$ 500 mil e as moradias doadas custaram em torno de R$25 mil cada.